domingo, 11 de setembro de 2011

E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará

Introdução
            Meu amigo, que está lendo esta postagem,
            Sempre temos muito a descobrir e aprender. A verdade é fruto de um exercício infindável nesta vida, mas que só pode vir com a busca árdua. Não deixe que as distrações, facilidades e seduções do mundo o desvirtuem, o enganem, o mantenham quieto, mergulhado na esfera pacata de sua vida, vivendo sem conhecer o que dá sentido a ela.
            É por isso que eu tenho grande aversão e revolta à ignorância, à mistura intencionalmente conflitante entre ciência e fé, ao fanatismo, ao fundamentalismo, e a outros pensamentos nocivos, por que tudo isso é enormemente responsável por manter muitas pessoas alienadas, conformadas, sem fé, em dúvida ou até mesmo sem pelo menos isso. E de modo ainda pior, enganam tão completamente as massas, que estas entendem as coisas do avesso.
            Enquanto o modo de vida e crença de alguém deveria ser decidido pela força e natureza de seu coração (compassivo ou egoísta), sua vida, por causa desses erros de que falei (erros tremendos e absurdos), é quase determinada pelo meio em que vive e influenciada por fatores externos e praticamente inúteis e inteiramente mentirosos.
            Jesus falava em parábolas para que somente alguns o entendessem: aqueles cujo coração bom ultrapassa a força da brutalidade natural do homem dominado, aqueles que preferem seguir o bem, mesmo que sofram, apesar das seduções do mundo agressivo em que vivem. E por isso ele falava aos pobres e doentes: eles, flagelados, lhe davam ouvidos e compreendiam a necessidade do amor que Cristo pregava. Já os ricos, ou seja, aqueles que viviam em paz completa, não sentiam necessidade disso, ou pior, não tinham compaixão pelos fracos.
            Como escapar da armadilha do mundo? Como não ser como o homem rico, que não sente necessidade de Deus, nem como o homem bem sucedido que se revolta contra Ele se um dia lhe cai um mal e ele tudo perde? Como ser fiel à dura, mas bela verdade? Como escapar da Morte, se este Universo é um casamento de morte e vida? O que é a Verdade? Como alcançá-la? Por que crer em Deus? Por que seguir a Cristo? Para quê ir à igreja aos domingos, se não vejo importância nenhuma nisso? Tantas dúvidas são típicas de quem ainda não obteve maturidade espiritual, mas são boas, se o levam a conhecer a verdade. Caso contrário, se alguém se sujeita à facilidade de qualquer discurso, ele faz um grande mal para si mesmo.
            Amigo, escute aqueles que são seus amigos, os quais querem seu bem, e não aqueles estranhos que só querem sua submissão, conformidade e impulsividade, para te manterem fraco. Aliás, uma das coisas que aprendi com a literatura é que, nas grandes jornadas, como a da vida, nunca faltam os aliados; mas principalmente que só se vence uma jornada lançando-se nela, pondo o pé na estrada e deixando o conforto de lado. Perigos, dores e dúvidas sobrevêm, mas também vêm a aventura, a superação, o progresso, a vitória, enfim, a felicidade – e o sentido da vida.
Espero que esta postagem esclareça esses porquês. Que sua mente se abra para uma nova realidade. Que você possa conhecer a Cristo, e entender o que significa segui-lo, e a partir disso, verá a realidade de seu amor e já não saberá viver mais sem ele. Amém.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8.32)


            Gólgota, 1900, por Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês precursor do Expressionismo, movimento artístico modernista que se iniciou na Alemanha em princípios do atormentado século XX; movimento de representação do grotesco, sombrio, repugnante e angustiante, e por isso relacionado ao desespero e dúvida do “fin-de-siècle” (“fim do século”), bem representada pelo quadro Skrik (O grito), de 1893, do mesmo autor.
Como se fosse uma arte de premonição, a feiura caricaturesca do expressionismo parecia prever o desmoronamento da “paz” da Europa imperialista com a eclosão das Guerras Mundiais, seguidas de outros conflitos, assim como o romance Der Prozess (O Processo, 1925), de Franz Kafka (1883-1924), célebre escritor tcheco, parecia profetizar o Holocausto judeu da Segunda Guerra.
A Europa do fim do século XIX representava o sucesso do capitalismo, exuberante em plena 2ª Revolução Industrial. Grandes empresas surgiam, novas tecnologias, novas terras descobertas e exploradas, mais colônias, e principalmente cada vez mais armamentos e exércitos sendo preparados, a burguesia despreocupada (não tanto assim, com a constante ameaça popular), mas tudo se organizando para uma gigantesca catástrofe.
A belle époque alimentava o gosto burguês e conservava as massas em sua condição de desilusão e tristeza. A arte, porém, não se aquietou, e logo o expressionismo veio expressar o que todos queriam pôr para fora: o que há de horrível por trás dos belos véus que os Estados ostentam, por trás de suas bandeiras, seus uniformes, seus discursos, suas festas.
Essa pintura é um grande representante da típica crítica expressionista à hipocrisia. Há mais de uma maneira de interpretá-la, mas a melhor e mais refinada é muitas vezes a que exige maior profundidade e relação com a filosofia e condições da época. A princípio imaginamos uma crítica simplesmente à hipocrisia religiosa, mas a partir disso há mais a perceber e analisar.
Vemos as expressões macabras dos rostos, o ambiente tenebroso e o Cristo amarelo, deformado, borrado. As pessoas voltadas para o lado do observador dão a impressão de que estão juntas de Cristo em sua condição mórbida e tristonha, como se fossem um só corpo, e as pessoas mais atrás, que olham para ele, simetricamente parecem se juntar ao pé da cruz, ao centro. E realmente Jesus andou entre o povo, principalmente em meio aos fracos, pecadores, discriminados, oprimidos e necessitados, mas foi por eles mesmos morto.
Porém, não foi morto só por eles. Foram o fariseus, os chefes religiosos, a personificação da hipocrisia, os principais culpados, por manipularem o povo alienado e ignorante. Eles, os fariseus, os hipócritas, são a representação bíblica dos atuais governantes, poderosos, homens de Estado, cujos interesses em dinheiro e poder regem a vida de bilhões de seres humanos, que sempre caminham viciados em seus “ópios”, seja suas culturas, seus nacionalismos, suas religiões, suas superstições, seus ideais, seus preconceitos, et coetera.

“Quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali o crucificaram, a ele e também aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.
Jesus, porém, dizia: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem(Lucas 23.33-34.)

“A religião é o ópio do povo” Karl Marx (1818-1883).

Primeira parte do primeiro movimento da Sinfonia no.2 "Ressurreição" (Auferstehung) de Gustav Mahler (1860-1911), compositor austríaco de estilo romântico tardio, com regência do famosíssimo maestro Leonard Bernstein (1918-1990), um grande intérprete mahleriano, e tocada pela London Symphony Orchestra e pelo Edinburgh Festival Chorus. 

Com esse sentido inicial, tomamos o caminho da análise desta postagem. A humanidade carece de verdade, e sem ela, está escravizada pelo pecado, pela ignorância, sujeita à ditadura dos homens maus e de sua própria natureza. E o que vale mais para o homem, e mais o torna feliz, do que a obtenção da liberdade? Logo, que objetivo maior temos em vida senão libertar-nos dos grilhões?
“Os proletários não tem nada a perder senão suas correntes” Karl Marx.
O que nos dizem as palavras de Marx, aquele judeu ateu que mudou a história desenvolvendo o socialismo científico? Embora não crendo em Deus, ele via sentido na História: evoluir da condição primitiva até a condição comunista, o estágio final de evolução, quando todos os males dos conflitos humanos seriam sanados. Infelizmente, como muitos outros, ignorou a única verdade que poderia levar-nos a isso. Seu socialismo mostrou-se falho, corruptível nas mãos de homens corruptos. O mesmo se aplica ao anarquismo e outras teorias. O capitalismo parece ser o sistema triunfante, porque é selvagem assim como os homens são selvagens. Mas isso significa que devemos ser eternamente selvagens? Não evoluímos muito desde os tempos pré-históricos? E não haveremos de evoluir para cada vez mais longe da selvageria, e mais próximos da santidade?
“Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14.5-6).
A verdade, o caminho para a vida está onde poucos esperam. Muitos dos mais sábios buscaram essa verdade, esse caminho em lugares muito distantes de sua fonte. Esqueceram-se de que o que consideramos hoje “bom”, e que está arraigado em nossa consciência, vem de dentro da Bíblia, vem de Jesus. As pessoas esqueceram-se disso. Dentro das páginas bíblicas existe uma sabedoria sobrenatural, lá organizada com o intuito de manter preservada a mensagem de Deus para o homem, sem que este pudesse deturpá-la. Quanto mais navegamos por ela, mais maravilhas descobrimos sobre a vida, sobre nós, sobre Deus.
Lê-la, e muito mais que isso, vivê-la, é embarcar na jornada de aventuras do cristão, uma missão difícil, mas heroica. E quem há de vencer na vida sem lutar, se a vida é nada mais que uma gigantesca luta de opostos? Se este mundo, tão cheio de mudanças, de bem e mal, é nada mais que uma constante interação dialética, com teses e antíteses se entrechocando, e desordenadamente resultando em mil e um efeitos, aparentemente, mas no fundo regidas por um grande Maestro?
A mensagem “anarquista” por trás das palavras de Cristo é pulsante, de certo modo, embora um tanto bem diferente dos outros anarquismos. A pintura Gólgota também expressa isso: o povo esmagado e embrutecido pelo Estado, e reduzido a selvagens por meio de um sistema selvagem, desigual, opressor. A religião que se critica é aquela grande aliada dos poderosos no controle do povo, com diz Tolstoi em sua esplêndida obra “O reino de Deus está em vós” (ou “O cristianismo apresentado não como uma doutrina mas como uma moral nova”), um tipo de religião que o próprio Cristo condenou.
Eis a grande diferença entre a mensagem de Cristo e as outras: ele não fundou propriamente uma “religião”, ele nos apresentou um caminho, uma verdade, uma moral nova. Liev Tolstoi (1828-1910), o maior escritor russo de todos os tempos, autor de “Voina y Mir (Guerra e Paz, 1865-9), e Anna Karenina (1878), desenvolveu o “anarquismo cristão” em sua obra “O reino de Deus está em vós”, livro lançado em 1894, gerando tanta polêmica que foi vetado pelo czar, e desapareceu por cem anos. Essa obra esclarece que o que Jesus pregou é bem diferente do que o homem sempre tem pregado, mas que sua mensagem está viva na Bíblia e em muitos corações, e é a única verdade, capaz de mudar o homem e apaziguar o mundo.
Liev Tolstoi (1828-1910)

As religiões de dogmas e entraves inúteis, que sempre se aliaram aos Estados, não são nem de perto como aquela que foi crucificada com o Cristo; nem é a mensagem de Cristo aquela que é criticada na obra de Tolstoi.
O Cristo que semeou o bem junto do povo, foi por ele “e com ele” crucificado pelos opressores, os poderosos, os “anticristos”. O homem está alienado principalmente em relação à doutrina de Cristo, aquela que, de tão poderosa, poderia derrubar todos os regimes e pacificar o mundo, mas que vem sido escondida, mascarada e deturpada pelos “hipócritas”, pelos “fariseus”, ou melhor, os tiranos que mantém a humanidade na miséria da ignorância, do caos, do ódio, da hostilidade, da guerra, do preconceito, da fome, da desigualdade, da morte, tudo para servi-los. Há no mundo sempre um ininterrupto clima de tensão. O mal do homem paira no ar. O único caminho que pode libertar o homem está guardado nos corações de poucos, e escondida desde o princípio por falsidades, com o intuito de impedir que o mundo o aceite e siga.
Caso a doutrina de Jesus fosse disseminada pelo mundo, e este o reconhecesse, o mundo que hoje conhecemos estaria ameaçado: Estados cairiam, guerras significariam assassinato, e assim, evitadas; fome seria motivo de imediata mobilização e solução, ou seja, não haveria espaço mais para que o interesse de poucos se sobrepusesse ao de todos, ao desejo comum a todo ser humano, que é contido, ignorado, mantido lacrado dentro de cada um, devido à força do mundo, que deseja deixar o homem alienado em relação à verdade.
Até hoje, o ser humano tem sido reduzido à escravidão, à servidão, em qualquer país, servindo à ganância de outros e sujeitando-se ao pecado do mundo. Só Jesus pode nos libertar. Eis o motivo de buscá-lo, entendê-lo, pois só o seu amor pode nos curar.
Quem vive muito bem, em conforto, dificilmente sentiria a necessidade desse amor. O sensato, porém, não deve confiar em si mesmo e acreditar que não existe nenhum motivo em existir a não ser o insignificante bem estar individual. Viver assim é estar alienado, com a mente concentrada no ego: nada mais triste e oposto aos olhos de Deus. O Senhor quer nos ensinar justamente o contrário: direcionar os nossos olhos não para nós mesmos, mas para fora de nós; viver não para nós mesmos, mas para os outros, e assim encontrarmos a felicidade. Tanto é que uma das melhores definições bíblicas sobre o que é a fé, é a metáfora entre ela e o olhar: ter fé é direcionar os olhos a Deus, e com isso conseguir a salvação.
Além do mais, a sábia e perfeita Bíblia nos mostra, por meio de sua linguagem figurada e santa, que o centro, a origem de todo pecado, todo mal está no culto ao ego: o egocentrismo, o egoísmo, o orgulho. Lúcifer, o arcanjo que recebeu de Deus a mais alta honra e sabedoria, caiu pelo desejo de superá-lo: é isso que a tradição nos conta. Ou seja, o mal surgiu a partir do momento em que o amor divino (Ágape, a “essência” de Deus) foi contradita, foi rejeitada. O mal nada mais é que a ausência do bem, embora o mal seja no fim das contas um instrumento da justiça e do bem, sendo assim, tudo, afinal, Bom. “E viu Deus que tudo era bom”, como está dito em Gênesis.
Há quem não compreenda como pode haver um Deus bom que "coloca" sua criação no mal. O que acontece é que, à primeira vista, nós humanos não compreendemos, e nos revoltamos; porém, quando paramos para pensar, vemos que a vida nada mais é que uma luta de opostos. Como Heráclito, na Grécia Antiga, Hegel, na Alemanha do século XIX  e também Marx disseram, o mundo é dialético, uma constante luta e transformação. Se Deus permitiu que o mal aparecesse, e que nós caíssemos no pecado (por nosso livre arbítrio), é porque sem a luta da vida, sem o drama do Universo, não poderíamos ter a vitória final. Se não fosse o mal, não haveria como Deus apresentar a maravilha de sua justiça, de seu amor sacrificial e de sua salvação. O Mal de que falamos, é, como diz a voz do povo, “um mal necessário”. Esse assunto é muito mais detalhadamente mostrado em outras postagens minhas. Por enquanto, isso já está bom.

Primeira parte do quinto movimento da Sinfonia no.2 "Ressurreição", de Gustav Mahler, uma de suas chamadas "sinfonias continentais", pela sua duração de cerca de uma hora e meia, e pela sua genialidade, haja vista que ele disse, em uma conversa com Jean Sibelius (1865-1957): "A sinfonia deve ser como o mundo. Deve abranger tudo".

Que sentido há em viver, se não buscar o bem, o progresso, a iluminação? Tudo o mais é em vão, apenas vaidades, coisas passageiras. Você acha que o sentido de viver é buscar conhecimento? Não é, pois tanto o sábio quanto o ignorante igualmente perecem. Não há nenhuma obra neste mundo que permaneça, tudo perece, tudo é em vão, exceto a busca e prática do bem, que transforma a vida e o pós vida, o único preenchimento que há para o vazio da alma humana.

"Então os meus versos têm sentido e o universo não há de ter sentido?
Em que geometria é que a parte excede o todo?
Em que biologia é que o volume dos órgãos
Tem mais vida que o corpo?"
Fernando Pessoa (1888-1935).

Salomão, que foi rei de Israel em sua época mais rica, poderosa, opulenta, e que foi o homem mais sábio que já viveu, experimentou tudo de bom que podia encontrar no mundo, e no fim da vida reconheceu que tudo aquilo valia nada, exceto buscar a Deus. Ele relata isso no livro Eclesiastes, na Bíblia:
“Palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.
Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.”
           (...)
“Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém.
E apliquei o meu coração a inquirir e a investigar com sabedoria a respeito de tudo quanto se faz debaixo do céu; essa enfadonha ocupação deu Deus aos filhos dos homens para nela se exercitarem.
Atentei para todas as obras que se e fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão.
O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se pode enumerar.
Falei comigo mesmo, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; na verdade, tenho tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento.
E apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão.
Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.” (Eclesiastes, cap.1)

           Recomendo a você, amigo, a leitura do livro de Eclesiastes: trata de um assunto valioso e bem prático, de interesse geral. Aliás, a melhor recomendação é a leitura de toda a Bíblia, pois ela está cheia de sabedoria e verdade, emanando de suas páginas e sendo apreendidas por nós por meio do Espírito Santo, que as revela aos nossos corações. Tudo depende do desejo de buscar.
Se você duvida de minhas palavras, saiba que embora Marx tenha rejeitado a Bíblia como tantos outros, uma parte importantíssima de sua teoria e de outras já estava ilustrada milênios antes nas primeiras páginas bíblicas. Marx propôs a visão evolutiva da História, ou seja, o homem passava por um trajeto que se iniciava da comunidade primitiva, para depois passar para as civilizações, com diferentes modos de produção e organização social, para enfim encontrar a concretização da evolução do comunismo.
Ele via, então, como Rousseau, que os conflitos entre os homens, entre as classes (que chamou de “o motor da História”) tinha se iniciado com o abandono da vida comunitária primitiva e selvagem inicial. Percebemos, por exemplo, em comunidades como as indígenas, que os conflitos sociais internos nunca foram significativos. Em Gênesis, quando Adão e Eva pecaram, eles comeram do “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”, e assim foram expulsos do Jardim do Éden, do lugar natural e pacífico em que viviam. Isso tem muito a nos ensinar; vou mostrar.
O Jardim cheio de árvores frutíferas e Adão e Eva representam a humanidade ideal numa natureza perfeita. O que os retirou dessa harmonia e paz foi o fruto do conhecimento, que representa o desejo de se igualar, superar ou se libertar de Deus (rebeldia), ou seja, o desrespeito a Deus, mas não só a Ele como também a tudo de bom que Ele nos deu: à vida, ao amor, à paz. Esse foi o nascimento do mal. Na prática, o ser humano nasceu em um mundo selvagem, e o mal foi aumentando à medida que mais conseguia conhecimento, riqueza e poder, e assim passava a amar mais a si mesmo e menos aos outros, e a oprimir o próximo e se afastar cada vez mais de Deus.
Batismo de Clóvis (466-511), rei dos francos, afresco de 1098.


Sendo assim, o índio poligâmico e pagão que sempre viveu isolado, quieto no meio da selva, esteve muito mais próximo de Deus do que o rei batizado cristão que oprimia servos e combatia muçulmanos em Cruzadas. Isto é, o objetivo de nossa vida neste mundo conflitante é lutar para nos aproximarmos do Bem, e obtê-lo fora daqui. E não há outro jeito de buscá-lo, outro jeito de conseguir a felicidade do relacionamento com o Pai, do que seguir os passos de Jesus Cristo.
Saiba que realmente é simples mito a ideia de que fé e ciência se opõem, pois tudo depende de como se pensa, e de como se quer pensar. Há quem consiga fazer a maior confusão e lambança, mas há quem tem bom senso e saiba separar uma coisa da outra e obter a informação correta. Essas contradições armadas são somente armadilhas para pegar desprevenidos.
Perceba que em um pequeno trecho bíblico, em uma pequena parábola, relato, passagem, podemos extrair rios de sabedoria, conhecimento, verdade, e com isso podemos aprender sempre mais e mais...

Segunda parte do quinto movimento da Sinfonia no.2 "Ressurreição", de Gustav Mahler. As sinfonias de Mahler não são exatamente continentais, como dizem: são oceânicas. Ouvi-las é embarcar em uma grande viagem pelas águas, ora turbulentas, ora estáticas, e para isso necessita-se de preparo, para não correr o risco de morrer sedento e esturricado em alto mar, ou ser engolido pelas ondas, e poder resistir tanto à morbidez tediosa da infinitude cinzenta, como também suportar a contemplação da beleza terrível das tempestades relampejantes, dos maus tempos, ou a paz quase eterna do céu claro e do azul das águas, e o verde das ilhotas rochosas e praias exóticas, ermas, de múltiplas cores minerais, com que se depara.

           Como estava dizendo, toda a humanidade, assim como o povo grotesco da pintura de Munch, está em condição de alienação, não somente em relação a algo exterior a eles, mas principalmente em relação a algo referente a eles mesmos: a sua própria filosofia, o caminho de Cristo, que viveu entre nós e por nós morreu, deixando-nos a verdade a ser seguida. Assim, a humanidade deixa-se ser crucificada pelos poderosos e tiranos, pelo sistema que tanto eles como nós sustentamos.
           A mensagem de Jesus foi espalhada pelo mundo por meio da ação de homens que deram a vida pela pregação. Acreditando no poder dessa mensagem, ensinaram sobre amor (principalmente), tolerância, respeito, liberdade, igualdade, fraternidade, e muito mais, em meio a um mundo de inimizade, conflitos, opressão, crueldade, impiedade, vingança, ofensa, mentira, enfim, todo tipo de males. Nós ainda vivemos em um mundo assim, pagão na essência, embora cristão por fora. Poucos são os que vivem, realmente, com Cristo no coração.
           Acontece, porém, que o cristianismo é como uma semente, que a princípio é semeada, e demora a crescer, florescer e frutificar. Por todo o mundo o ensinamento de Cristo está se espalhando, e já está há muito se desenvolvendo. Percebemos mais a cada dia como a consciência humana se opõe às ações humanas. A moral nova, trazida por Jesus, que está se arraigando (ou sempre esteve arraigada) no interior profundo de nossas almas está contradizendo cada vez mais as atitudes maléficas e selvagens da guerra e da opressão, que nunca cessam.
           Logo, a solução dos problemas do homem está sediada somente em seguir os passos de Cristo. Como eu acredito que nunca acontecerá de toda a humanidade se apaziguar e se tornar cristã, não acho que a perfeição será alcançada na Terra (pelo contrário, pois na Bíblia está dito que a perfeição só é obtida fora deste mundo de imperfeições e conflitos), mas, por aquilo que Jesus disse, tenho convicção de que o objetivo do cristão é semear a Palavra, ou seja, transformar o mundo (senão, o coração das pessoas), pregando a única verdade, a única moral que conduz ao bem, mesmo que isso signifique privações e sofrimentos. O verdadeiro sofrimento está em se sujeitar ao mal.
           A obra anarquista cristão de Liev Tolstoi apresenta maravilhosos trechos que revelam um santo pensamento que revela o verdadeiro centro do cristianismo, o que é precioso e importante para revelar aos olhos do homem quem realmente é Cristo e o que realmente devemos seguir e fazer. Vou transcrever e comentar alguns dos melhores trechos, de modo a compartilhar com você algumas das ideias mais necessárias, dividindo em partes segundo os capítulos do livro.


Cap.1 - A doutrina da não resistência ao mal por meio da violência tem sido ensinada pela minoria dos homens desde a origem do cristianismo

O livro começa falando a doutrina da não resistência ao mal: isso significa não pagar o mal com o mal, não se vingar, e nem mesmo se defender, doutrina pregada por Jesus.
O cristianismo é o caminho de seguir a Cristo, que nos ofereceu uma fé e uma moral nova. O cristão acredita nessa moral e deve vivê-la ao máximo, como sendo a direção da sua felicidade. Quanto mais se vive isso, mais se aprende, e mais se ama essa verdade. A verdadeira mensagem de Cristo tem sido ofuscada de tal forma pelos Estados, ao longo da História, que para muitos ela representa exatamente o contrário do que realmente é, porque para os poderosos a moral cristã sempre foi subversiva, ameaçadora, boa e justa demais para permitir as suas injustiças.
Quando, no Império Romano, os cristãos já não podiam mais ser perseguidos, passaram a ser enganados. Não só com a Igreja Romana, mas começando por ela, os Estados sempre tentaram ao máximo “virar o cristianismo do avesso”. E é por causa dessas mentiras, deturpações, sensacionalismos, fanatismos, ignorâncias, heresias (aquilo que extrapola os dizeres de Cristo), etc, que existem tantos descrentes neste mundo. Mas há pessoas que tem a chance de reconhecer a verdade por trás de tudo, e desconfiar de tudo, e assim encontrar o que tanto busca.
Muito antes do Iluminismo, os ideais morais que hoje tanto defendemos já foram apresentados por Cristo, mas combatidos pelas autoridades, as quais, o que mais querem é manter seu domínio e conforto.
Tolstoi, além de anarquista cristão, era pacifista. Infelizmente, ao meu ver, um mundo pacífico e cristão é impossível, é utópico, mas é justamente isso que devemos querer e pregar. Ideais existem para serem buscados, não atingidos, porque serão por completo inatingíveis enquanto ainda forem ideais.
“Escrever tornou-se para mim uma necessidade diante de Deus”, Tolstoi, em 28/10/1895


Escreve Tolstoi em seu livro O reino de Deus está em vós (1894):
“Preconizamos que a lei criminal do Antigo Testamento – olho por olho, dente por dente – foi anulada por Jesus Cristo e que, segundo o Novo Testamento, todos os fieis devem perdoar seus inimigos, em todos os casos, sem exceção, e não se vingar. Extorquir dinheiro à força, prender, mandar para a cadeia ou condenar à morte não se constitui, evidentemente, em perdão, e sim em vingança.
A história da humanidade está cheia de provas e que a violência física não contribui para o reerguimento moral e de que as más inclinações do homem somente podem ser corrigidas por meio do amor; de que o mal não pode desaparecer senão por meio do bem; de que não se deve contar com a força do próprio braço para se defender do mal; de que a verdadeira força do homem está na bondade, na paciência e na caridade; de que só os pacíficos herdarão a Terra e de que aqueles que com a espada ferirem pela espada perecerão.” (trecho do 1º capítulo, com a apresentação da Declaração de princípios pela Convenção da Paz, em Boston, 1838).
A última frase desse trecho lembra o que aconteceu com o personagem Shylock, o judeu de O Mercador de Veneza, de William Shakespeare (1564-1616), que, buscando vingança e mostrando-se insensível acima de qualquer súplica ou retratação, acabou por se ver arrasado e falido pela própria Lei a que apelava.
É falso, absurdo e fruto de insensatez o argumento de que a Bíblia prega uma lei severa, pesada e opressora. Pelo contrário, ela mostra como a graça de Deus nos livrou da antiga lei judaica, por meio do sacrifício do Filho, o qual nos permitiu que, por meio do exercício da fé (ou seja, viver seguindo os passos de Jesus), tenhamos a verdadeira Vida. Jesus substitui a vingança pelo perdão, o ódio pelo amor.
Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Romanos 12.21).
Também é falsa a ideia de que o cristianismo é antiquado e não se ajusta à nossa “era da universalização”. Justamente o contrário: a mensagem de Cristo é universal, e prega exatamente a união entre todos os povos como irmãos. O problema é que a maioria da população não conhece de fato a Jesus, e não sabe o que ele realmente disse.
Mesmo sofrendo perigos e sofrimentos, o cristão, como imitador de Cristo, deve levar adiante sua missão de pregador, como diz o trecho:
Nossa missão pode nos expor a muitos ultrajes e a muitos sofrimentos, e também à morte. Seremos incompreendidos, ridicularizados e caluniados. Uma tempestade se erguerá contra nós. O orgulho e a hipocrisia, a ambição e a crueldade, os chefes de Estado e os poderosos, tudo pode se voltar contra nós. Não foi de outro modo tratado o Messias a quem procuramos imitar, na medida de nossas forças. Mas tudo isso não nos amedronta.”.

O Novo Testamento possui bons exemplos de pessoas que se alegraram em sofrer por Cristo, como Paulo e outros apóstolos quando foram aprisionados.
Sete anos após a morte de Tolstoi, ocorreu a Revolução Russa, com a instauração do socialismo. O mal não foi sanado: veio uma terrível ditadura, genocídios e o cristianismo foi proibido na Rússia. Toda tentativa humana de fazer um bem sem Cristo é inútil. O que Tolstoi e outros pacifistas disseram foi comprovado: o mal não é solucionado pelo mal, apenas modificado. O mundo enfrentou um século de tensões e conflitos devido à inimizade bipolar, e o governo comunista realizou um genocídio entre seu povo, para manter a estabilidade de um poder corrupto.
Não só a Revolução Russa, mas a Francesa e outros movimentos violentos só propagaram o mal. O “mundo” odeia a Cristo, e por isso o rejeita.

Terceira parte do quinto movimento da Sinfonia no.2 “Ressurreição” (Auferstehung), de Mahler, com regência de Bernstein. Letra (cantada em alemão, por Sheila Armstrong como soprano e Janet Baker como mezzo-soprano):
"Rise again, yes, rise again,
Will you My dust,
After a brief rest!
Immortal life! Immortal life
Will He who called you, give you.
To bloom again were you sown!
The Lord of the harvest goes
And gathers in, like sheaves,
Us together, who died".

Tratando de uma dúvida que é muito recorrente a respeito do cristianismo hoje: a variedade e divergência de tantas doutrinas cristãs não significam desunião e falha na mensagem bíblica? Não. Existem, na Palavra, algumas divergências interpretativas, que são saudáveis enquanto não alteram a mensagem principal e imutável do Messias, de acordo com diferenças culturais, por exemplo. Alguns assuntos, a Bíblia esclarece vagamente, pois sendo o livro da sabedoria, apresenta a mensagem de modo que diferentes povos em diferentes épocas a entendam (não existe uma vertente única e perfeita da fé). Porém, o que deve ser evitado é a heresia, que é não aquilo que contradiz tal Igreja, mas sim o que fere os preceitos de Cristo.
Desse modo, o anarquista cristão não é necessariamente mais cristão do que o “capitalista”, desde que o segundo não fira sua consciência e não ofenda os princípios que prega por meio de ações como o apoio ou a participação da guerra, etc.
Quanto a não resistência ao mal, meu amigo pode pensar que é absurdo não levantar o braço para se defender. Essa questão é um tanto confusa, mas pelo que eu entendi, não há mal em usar, por exemplo, a força física para resistir a um ataque, mas é errado usar a defesa com o intuito de fazer um mal, ou se vingar do atacante. A defesa natural busca a proteção da vida, a pecaminosa é aquela que deseja dar uma “lição” no ofensor. De qualquer modo, é preciso deixar que a consciência nos guie, e sempre imaginemos o que faria Jesus em nosso lugar.

“Em outro opúsculo, intitulado Quantos homens são necessários para transformar um crime num ato justo, afirma:
‘Um homem sozinho não deve matar: se ele matou, é um réu, um homicida. Dois, dez, cem homens, se matarem, serão também homicidas. Mas o Estado ou o povo podem matar, quanto queiram, e seu ato não será um homicídio, e sim uma ação gloriosa. Trata-se somente de reunir o maior número possível de pessoas e a matança de dezenas de homens se transforma numa ocupação inocente. E quantos homens são necessários para isso? Eis a questão. Um indivíduo não pode roubar e saquear, mas um povo inteiro pode.
Por que um, dez, cem homens não devem infringir as leis de Deus, enquanto uma grande quantidade pode?’
Eis agora o catecismo de Ballou, composto para seus fieis:
CATECISMO DA NÃO RESISTÊNCIA
Pergunta – De onde foi tirada a expressão “não resistência”?
Resposta – Da frase: “Não resistais ao mal” (Mt 5.39).
P – O que exprime essa sentença?
R – Exprime uma alta virtude cristã ensinada por Cristo. (...) Ela deve ser compreendida no sentido exato do mandamento de Cristo, isto é, não pagar o mal com o mal. É preciso resistir ao mal com todos os meios justos, mas não por meio do mal.(...) “Ouvistes o que foi dito: olho por olho e dente por dente. E eu vos digo: Não te oporás ao malvado; assim, se alguém te bate na face direita, oferece-lhe a esquerda. E se alguém quer brigar contigo, e tirar-lhe o manto, deixa-lhe também a veste”.
P – De que fala o Cristo ao dizer: “Ouvistes o que foi dito”?
R – Dos patriarcas e dos profetas e do que eles disseram e que está no Antigo Testamento que os israelitas chamam geralmente de a Lei e os Profetas. (...) Ao mandamento com o qual Noé, Moisés e outros profetas dão o direito de fazer um mal pessoal àqueles que vos fizeram mal para punir e para suprimir as más ações.
P – Cite esses mandamentos.
R – “Quem versa o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue versado” (Gn 9.6). “Quem ferir ao outro e causar a sua morte, será morto. Mas se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe” (Ex 21.12,23,24,25) (...) (Lv 24.17,19,20) (...)
Noé, Moisés e os profetas ensinam que aquele que mata, mutila ou martiriza seu semelhante, pratica o mal. Para opor-se a esse mal e para suprimi-lo querem que aquele que o praticou seja punido com a morte, com a mutilação ou qualquer outro castigo. Querem pagar ofensa com ofensa, homicídio por homicídio, sofrimento com sofrimento (...). Mas Cristo desaprova tudo isso. ‘Eu vos digo: não vos oponhais ao mal, não pagueis ofensa com ofensa, nem mesmo se deveis  suportá-la novamente’, escreve ele no Evangelho. O que era lícito, está proibido.”
Os comedores de batata (1885), de Vincent van Gogh (1853-1890).


Esse catecismo da não violência mostra como o Antigo e o Novo Testamentos se completam maravilhosamente. Jesus fala claramente que ele, com sua graça, veio substituir a antiga lei. A Lei condena, e dela ninguém escapa, pois todos são pecadores, filhos deste mundo, não de Deus, e sendo assim só deveriam morrer. Mas é Cristo, o Salvador, que nos livra do peso da lei. Como livrar o culpado da dívida da lei? Somente com o pagamento, com o sangue sacrificial do próprio Deus Filho, encarnado, fazendo-se Homem em Jesus, para morrer e ressuscitar, nos ensinando como podemos nos livrar da condenação da lei: imitando-o. Ou seja, vivendo do amor, e não da vingança, piedade em lugar de sentença. Morte e renascimento, cruz e ressureição.
O conhecimento globalizado de hoje ajuda o cristão a reconhecer o quanto a mensagem de Cristo é universal, fraternal, pacífica, virtuosa, honesta e livre. Vemos que o amor é a essência de Deus, ao contrário de Alá, um deus que não admite amor e perdão como formas de salvação, mas sim obediência e disciplina rígida no cumprimento de seus dogmas, de modo a ser salvo por meio de obras, não havendo nada que fale sobre amar o próximo. Eis o que diferencia o cristianismo de outras religiões (se é que é justo chamar o cristianismo de uma religião, e não de um caminho e nova moral): o centro da mensagem é o amor divino, que é o único meio capaz de salvar os homens dos males causados pelo seu afastamento desse amor primordial.
Vemos que Cristo não fundou uma religião como aquelas cheias de superstições, dogmas, antiguidades e até imundícies, em algumas, mas sim uma Fé transformadora, a qual não é para divertir e confortar o homem, que é pecador, mas corrigi-lo, educa-lo, despertá-lo, restaurá-lo. O exercício do cristão é “crucificar-se” a cada novo dia,  como o sol que se põe, para renascer a cada nova alvorada. É nascer de novo. E isso se aprende quanto mais se experimenta, se vive.

“P – Qual a principal virtude da doutrina da não resistência?
R – A possibilidade de cortar o mal pela raiz em nosso próprio coração, assim como no de nossos semelhantes. Essa doutrina reprova o que perpetua e multiplica o mal no mundo. (...) Satanás não pode ser expulso por Satanás, a mentira não pode ser purificada pela mentira e o mal não pode ser vencido pelo mal.
A verdadeira não resistência é a única resistência ao mal. Ela degola o dragão. Destrói e faz desaparecer por completo os maus sentimentos.”
P – Mas se a ideia da doutrina é justa, ela é, afinal, exequível?
R – Tão exequível como todo bem ordenado pela Sagrada Escritura. O bem, para ser feito em qualquer circunstância, exige renúncia, privações, sofrimentos e, em casos extremos, o sacrifício da própria vida. Mas aquele que preza mais sua vida do que o cumprimento da vontade de Deus já está morto para a única vida verdadeira. Tal homem, querendo salvar a sua vida, a perderá.. Ademais, em geral, onde a não resistência requer o sacrifício de uma só vida ou de alguma felicidade essencial à vida, a resistência requer milhares de sacrifícios semelhantes. (...) A não resistência conserva, a resistência, destrói. (...) Se todos os homens se abstivessem de resistir ao mal com o mal, a felicidade reinaria sobre a Terra.
P – Mas, se somente alguns agissem desse modo, o que seria deles?
R – Ainda que um só homem agisse assim e que todos os outros concordassem em crucifica-lo, não seria mais glorioso para ele morrer pelo triunfo do amor do que viver e carregar a coroa dos Césares encharcada com o sangue dos imolados? Mas, fosse um só homem (...) estaria muito mais livre da violência do que com aqueles que se apoiam na violência.”
O almoço dos remadores (1881), de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919).

Jesus veio, contrariou o mundo, mostrou-lhe o caminho, a luz da verdade, e foi por ele rejeitado e crucificado. Porém, ele venceu a morte! O sangue mártir cristão sempre fecundou a terra onde foi derramado, como o de Cristo fecundou os nossos corações.
A cruz é pesada, mas, como disse Jesus, seu fardo é leve, porque ele também nos ajuda a carregá-la. Quem não luta, não ganha a vida.
“E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim.
Quem achar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á.
Quem vos recebe, a mim me recebe; e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou.” (Mateus 10.38-40)

          
Quarta parte (última parte) do quinto (último) movimento da Sinfonia no.2 "Ressurreição", de Mahler. Essa genial sinfonia épica é como a musicalização da jornada da vida humana, da luta do "peregrino" (ver O Peregrino, de John Bunyan -1628-1688-) em sua caminhada para a conquista da verdadeira Vida. A letra (cantada em alemão, com Sheila Armstrong como soprano e Janet Baker como mezzo-soprano): 


"O believe, my heart, O believe:Nothing to you is lost!
Yours is, yes yours, is what you desired
Yours, what you have loved
What you have fought for!O believe,You were not born for nothing!Have not for nothing, lived, suffered!
What was created Must perish,What perished, rise again!
Cease from trembling!Prepare yourself to live!
O Pain, You piercer of all things,From you, I have been wrested!
O Death, You masterer of all things,Now, are you conquered!With wings which I have won for myself,In love’s fierce striving,I shall soar upwards To the light which no eye has penetrated!
Its wing that I won is expanded,and I fly up.Die shall I in order to live. 
Rise again, yes, rise again, Will you, my heart, in an instant!That for which you suffered,To God will it lead you!"

           Como os Estados, a serviço dos poderosos que o controlam para seus interesses egoístas, puderam combater a expansão da doutrina de Cristo, capaz de desbanca-los completamente? A maior arma não foi perseguir os cristãos (o que não deu certo), mas enganar a eles próprios e esconder a verdade de Cristo. Essa atitude vil traz consequências drásticas até os dias de hoje, em que tantas pessoas ignoram completamente ou entendem totalmente do contrário a pregação de Jesus. Isso é muito triste e preocupante.
           “A rede da fé é a doutrina de Cristo que deve tirar o homem das obscuras profundezas do oceano da vida e de suas mentiras. (...) A noite a ocultou [a verdade] dos homens. Estes não mais reconhecem a verdadeira lei do Cristo.(...) Os doutores, os sábios e os padres não mais pensaram em outra coisa senão subjugar o mundo e em armar os homens uns contra os outros, para a matança e o roubo. Eles foram os responsáveis pelo desaparecimento da doutrina evangélica da religião e da vida. (...) todo guerreiro, ainda que “cavalheiro”, nada mais é do que um assassino e um bandido”.

Disse Jesus:“E Jesus, andando ao longo do mar da Galiléia, viu dois irmãos-Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, os quais lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores.
Disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” (Mateus 4.18-19).
           Relata Tolstoi em seu livro: “’Cristo, por meio de seus discípulos, envolveu o mundo inteiro na ‘rede da fé’; mas os peixes grandes, tendo rasgado as malhas da rede, escaparam, e pelo buraco que fizeram passaram também os peixes pequenos, de modo que a rede ficou quase vazia. Os peixes grandes que rasgaram a rede são os governantes: imperadores, papas, reis, que sem abandonar o poder aceitaram não o cristianismo, mas sua aparência”.
           Nas próximas páginas, Tolstoi trata do dever do cristão de se recusar a aceitar o serviço militar, assunto que ele tratará outras vezes, visto ser de suma importância. O soldado nada mais é que um escravo da vontade dos seus superiores, servindo não à vontade de Deus, mas à vontade de um homem violento, ferindo seu próximo e sustentando o poder e a opressão de seus próprios carrascos. Nada pode ser mais contrário à doutrina de Cristo, nem mais lamentável do que o jovem que se alista voluntariamente, vítima de uma abominável dominação ideológica.

Cap.3 – O cristianismo mal compreendido pelos fieis

           A condição de alienação da humanidade em relação à doutrina que tem sido pregada e arraigada ao nosso pensamento, sem, portanto, ser seguida, e as contradições consequentes:


A famosa tríade do grande escritor romântico francês da terceira geração -- O Corcunda de Notre Dame, Os Trabalhadores do Mar e Os Miseráveis -- critica, em cada obra, um pilar da sociedade, constituindo um grupo de obras revolucionárias, contestadoras: o primeiro critica a religião tradicional, o segundo denuncia a natureza humana, o terceiro, a opressão e desigualdade social. O vídeo acima, do desenho da Disney O Corcunda de Notre Dame (1996)demonstra algumas dessas críticas de forma bem clara e com todo o talento excepcional típico da Era de Ouro da Disney. Assista, interprete, perceba, sinta, divirta-se.

           “Os ensinamentos de Cristo não são entendidos em seu verdadeiro, simples e direto sentido, ainda hoje, tendo a luz da doutrina de Cristo penetrado até os recônditos da consciência humana, quando, conforme as Suas palavras, o que se dizia ao pé do ouvido pode ser gritado de cima dos telhados; quando essa doutrina se mescla a todas as manifestações da vida doméstica, econômica, social, política e internacional, seria inexplicável que permanecesse incompreendida se para tanto não houvesse causas especiais.
           Uma dessas causas é que tanto fieis como ateus estão firmemente convencidos de que compreenderam, há muito tempo, tão completa, positiva e definitivamente a doutrina evangélica, que não é possível atribuir-lhe um significado diverso daquele que lhe é dado. E sua interpretação errônea é fortalecida pela antiguidade da tradição. O rio mais copioso não pode acrescentar uma gota d’água a um copo já cheio.
Pode-se explicar ao homem mais ignorante as coisas mais abstratas, se ele ainda não tem noção alguma sobre elas; mas não se pode explicar a coisa mais simples ao homem mais inteligente, se ele está firmemente convencido de saber muito bem o que se lhe quer ensinar.
A doutrina de Cristo apresenta-se aos homens de nosso tempo como uma doutrina (...) que não pode ser compreendida de modo diverso do que é atualmente.
O cristianismo é, assim, para os fieis, uma revelação sobrenatural, milagrosa, de tudo o que é dito no Credo. Pra livres pensadores é uma manifestação esgotada do desejo que têm os homens de crer no sobrenatural, um fenômeno que encontrou sua expressão definitiva no catolicismo, na ortodoxia, no protestantismo, e que para nós não possui mais qualquer significado prático (...)
Há 1800 anos, meio ao mundo romano, surge uma nova doutrina, estranha, nada semelhante a nenhuma das que a haviam precedido e atribuída a um homem. Cristo.
Essa doutrina era inteiramente nova (tanto na forma como na substância) para o mundo judaico que a tinha visto nascer e, sobretudo, para o mundo romano, onde era pregada e propagada.
Em meio às complicadíssimas regras religiosas do mundo judaico – onde, segundo Isaías, havia regra sobre regra – e à legislação romana, levada a um alto grau de perfeição, surge uma nova doutrina que negava não apenas todas as divindades, como também todas as instituições humanas e suas necessidades. Em troca de todas as regras (...) essa doutrina não oferecia senão um modelo de perfeição interna, de verdade e de amor na pessoa do Cristo e, como consequência da perfeição interna, a perfeição externa, preconizada pelos profetas: o reino de Deus, no qual todos os homens, não mais sabendo odiar, serão unidos pelo amor, e no qual o leão estará frente ao cordeiro (...)
“Mas agora procurais matar-me, a mim que vos falei a verdade”,(João 8.40) “e a verdade vos fará livres. Não devemos obedecer a Deus senão com  a verdade. Toda a doutrina será revelada e compreendida pelo espírito da verdade. Façam o que Deus lhes manda e conhecerão a verdade” (João 8.36).
(...) Segundo essa doutrina, não é por meio de práticas que o homem se torna justo. Os corações elevam-se à perfeição interna por intermédio de Cristo, modelo de verdade, e à perfeição externa pela efetivação do reino de Deus (...)
O ímpeto para a perfeição do publicano Zaqueu, da pecadora, do ladrão na cruz é, segundo essa doutrina, uma felicidade maior que a virtude imóvel do fariseu. A ovelha desgarrada é mais querida ao coração do pastor do que 99 ovelhas desgarradas; o filho pródigo, a moeda perdida e reencontrada, são mais caros a Deus que tudo o que nunca foi perdido”.

Esse último trecho esclarece uma grande dúvida, muito comum, que diz respeito ao motivo da existência do mal no mundo, ou, melhor dizendo, a razão de estarmos neste mundo perecível. A história do Universo é uma grande aventura, uma batalha entre bem e mal que termina na vitória dos homens que conseguem chegar a Deus. O mal existe para que possamos conhecer o seu amor, ou seja, para que sejamos como o filho pródigo, que é recebido pelo pai com muito mais amor e alegria, porque ele conheceu o mal, mas retornou ao bem. Ao nosso entendimento humano e limitado, o horror do sofrimento parece abominável e errado, mas tudo, visto do alto, tem um sentido.
Pintura retratando Tolstoi cuidando da própria plantação. É sua a frase: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.


O relato de como o cristianismo primordial foi deturpado pelas mentiras dos homens, mas também como esse princípio, apesar de todos os impedimentos, foi se arraigando calmamente nos corações dos homens:
“Somente após uma série de mal entendidos, erros, explicações restritas, retificadas e completadas por muitas gerações, o princípio do cristianismo ficou mais claro para os homens.(...) Mas o conceito cristão (...) penetrava dia a dia (...).
Quanto mais obscura era a noção da doutrina de Cristo, mais elementos milagrosos eram nela infiltrados (...)
Foi o que aconteceu desde os primeiros tempos e continuou posteriormente, chegando, em nossos tempos, aos dogmas da transubstanciação e da infalibilidade do papa, dos bispos e da Escritura, isto é, até a exigência de uma fé cega, incompreensível até o absurdo, não em Deus, não em Cristo, nem mesmo na doutrina, mas em uma pessoa, como no catolicismo (...)
(...) De tal modo que tudo foi feito para que o homem não creia mais nem em Deus, nem em Cristo tal como eles se revelaram, mas somente no que a Igreja ordena que se acredite.”

Tolstoi fala muito mais ainda sobre esse assunto, e nos mostra que as divisões entre as Igrejas são frutos do mal entendimento da doutrina de Cristo, piorando com a nociva associação entre religião e Estado, o que obscureceu a verdadeira moral. O autor mostra que as religiões em geral são nada mais que instrumentos de controle (hoje, um tanto antiquados em alguns lugares), e que o grande erro da humanidade foi transformar o cristianismo puro (um caminho, uma moral nova) em uma religião. O que pode distinguir o cristianismo de qualquer outra crença é justamente o fato de ser uma doutrina moral, e não uma doutrina social ou seja lá o que for, ou seja, sua função não é controlar ou unir um povo, mas libertar e unir toda a humanidade, em paz e igualdade.

Outro belíssimo trecho do desenho da Disney, retratando uma grande verdade: o povo, controlado pelas crenças de berço, ou alienadas pela opressão e preconceito, mas, ainda assim, têm desperto em seu coração o amor divino, que espera por se desenvolver. Nesse vídeo há uma lição de humildade e uma contestação forte, mas suave, às estruturas anticristãs que têm controlado a religião.

“As prostrações diante de relíquias e das imagens sacras fazem parte da teologia, do catecismo. São ensinadas , teórica e praticamente, ao povo, com pompa, solenidade, com autoridade e com violência; hipnotizando-o, obrigam-no a acreditar nelas, e assim essa fé é zelosamente preservada de qualquer tentativa de emancipação do povo dessas superstições dignas de selvagens.
“Como eu disse (...) a doutrina de Cristo e suas próprias palavras da não resistência ao mal por meio da violência foram, na minha presença, por muitos anos, objeto de zombaria, de ironia geral; e os ministros da Igreja não só não se opunham a essas blasfêmias, como até encorajavam-nas (...)
(...) Se o homem pode obter a salvação pela expiação, pelos sacramentos e pelas orações, as boas obras não mais lhe são necessárias.”.
A corrupção do clero também é criticada em outros livros do tempo de Tolstoi, como na famosa obra O Crime do Padre Amaro, do célebre escritor realista português Eça de Queirós (1845-1900).


Um perfeito, potente e emocionante retrato da hipocrisia dos homens: Cláudio Frollo, o juiz "justo e bom", orgulhoso, mas cheio de pecado e falsidade, controlador das massas, dotado do poder político e religioso, guerreiro, tirano e torturador, em contraposição ao vídeo anterior, à Esmeralda, a bela e inculta cigana, proscrita, tão pouco instruída, mas guiada pela sua humildade e amor cristão.

Com a obra de Tolstoi conclui-se que a mensagem de Cristo foi escondida do povo, deturpada, e o povo foi enganado e dominado, para que o Estado pudesse sobreviver. Quando Roma viu sua estrutura seriamente ameaçada, percebendo ser inútil perseguir os cristãos, preferiu ludibria-los e ofuscar a verdade. Isso traz consequências fortes e terríveis até os dias de hoje.
Relata Tolstoi:
“Lembro-me de um dia ter visto, na livraria do convento Optin, um velho camponês analfabeto escolhendo alguns livros religiosos para o filho. Um frade recomendava-lhe a história das relíquias, das festas, das aparições das imagens, o livro dos salmos etc. Perguntei ao velho se ele possuía um Evangelho.
-- Não.
-- Dê-lhe, então, um Evangelho em russo – disse eu ao frade.
-- Não serve para eles – respondeu o frade.
Eis, em poucas palavras, toda a ação de nossa Igreja.
(...)
E mais: se o homem moderno continuasse a acreditar em milagres e a não ler o Evangelho, suas únicas relações com os homens de outras crenças, relações tornadas tão fáceis em nosso tempo, o fariam duvidar da sua fé. (...) Em nossa época, somente o homem absolutamente ignorante ou indiferente a todas as questões da vida iluminadas pela religião pode conservar a fé na Igreja.
(...) As Igrejas encotram-se em um dilema: devem escolher o Sermão da Montanha ou o Credo de Niceia. Um exclui o outro.”

Cap.4. O cristianismo mal compreendido pelos cientistas

Fotografias de Tolstoi em três diferentes épocas de sua vida.


“Os cientistas examinaram o cristianismo tal como é professado pelas diversas Igrejas e, supondo que elas lhe dão seu significado absoluto, consideram-no como uma doutrina religiosa que já teve seu tempo.
(...) Ela [a humanidade] precisa de um novo conceito de existência, conceito do qual resulta a nova atividade, adequando ao novo estado em que ingressou.
A essa necessidade responde a faculdade especial da humanidade de produzir homens que venham dar à vida humana um novo sentido (...). O estabelecimento desses novos conceitos e da nova ação que daí resulta é aquilo que se chama religião.
Por isso a religião não é, como acredita a ciência, um fenômeno que em tempos idos acompanhou o desenvolvimento da humanidade, e que não mais se renovou, mas sim um fenômeno  próprio da vida humana e ainda hoje absolutamente natural (...)
(...) A essência da religião está na faculdade que têm os homens de profetizar e indicar o caminho que deve seguir a humanidade, numa direção diferente da seguida no passado e da qual resulta uma ação absolutamente diferente da humanidade.
(...) Esses três conceitos [novos conceitos de vida, expressos por homens nos quais a faculdade de prever o caminho de manifestou, exprimindo o que todos sentiam vagamente] são: primeiro, vida pessoal ou animal; segundo, vida social ou pagã; terceiro, vida universal ou divina.(...)
Esses três conceitos de vida servem de base a todas as religiões que existem e existiram.
O selvagem não reconhece a vida senão nele mesmo, em suas necessidades pessoais; a felicidade de sua vida concentra-se apenas em si.(...) Sua religião consiste em cativar a divindade e prostrar-se diante dos deuses imaginários, que ele imagina existirem para uma finalidade pessoal.
O pagão social reconhece a vida não apenas nele próprio, mas num conjunto de indivíduos: a família, a tribo, o povo, o Estado – e sacrifica a este conjunto sua própria felicidade. O estímulo de sua vida é a glória. Sua religião consiste na glorificação dos chefes: os antepassado, chefes de tribo, soberanos – e na adoração dos deuses que protegem, exclusivamente, sua família, sua tribo, seu povo, seu Estado.
O homem, pelo conceito divino da vida, já reconhece a vida, não em sua personalidade ou numa associação de personalidades (famílio, tribo, povo, pátria ou Estado), mas na fonte da vida eterna, isto é, em Deus, e para cumprir a vontade de Deus ele sacrifica  sua felicidade pessoal, doméstica e social. O estímulo de sua vida é o amor e sua religião é a adoração do princípio de tudo: Deus.
Toda a história da humanidade não é senão uma passagem gradual do conceito de vida pessoal animal ao conceito social, e deste ao conceito divino.”
Eis o fim do paganismo e dos conflitos: a evolução do homem de dentro de si para fora. É como o que pregava Buda, quando falava no desprendimento do mundo. O homem encontra a felicidade quanto mais vive para fora de si mesmo, quanto mais se aproxima de Deus. Percebemos aqui uma clara visão dialética do mundo, como a de Marx a respeito da História.


Primeiro trecho do 6º movimento (Der Abschied - A Despedida) da Das Lied von der Erde (A Canção da Terra), uma das obras primas de G. Mahler.“O complexo universo mahleriano, muitas vezes caótico, sofredor, povoado de sinais de morte, mas também pleno de realidades belas, não é senão uma projeção da própria vida humana. (...) Bruno Walter classificou esta obra como ‘apaixonada, amarga e ao mesmo tempo misericordiosa; o canto da separação e do desvanecimento’. (...) O último lied, de longe o mais importante, tanto pela duração como pela beleza, é Der Abschied (“A Despedida”). (...) Mahler inicia o andamento com um interlúdio orquestral em forma de marcha fúnebre, criando assim um ambiente fascinante, entoado em uníssono pelos violoncelos, contrabaixos, violas, harpas e contrafagote (...). O poema descreve o entardecer:
 “O sol desaparece por trás das montanhas.
O anoitecer e as suas sombras frescas
surgem nos vales…”
(Pôr-do-sol na Chapada dos Veadeiros, Goiás, Brasil, em julho de 2011)

“Cristo ensina, não aos anjos, mas aos homens que se movem e vivem uma vida animal. A essa força animal do movimento, Cristo aplica, por assim dizer, uma nova força – a consci~encia da perfeição divina – e, assim, dirige o caminho da vida sobre a resultante dessas duas forças.”
Sendo assim, o que nos faz mais humanos e nos afasta da condição primitiva e animal é a moral, a consciência. A doutrina de Cristo é contra a natureza humana, por isso é difícil, mas é nosso dever lutar para a seguirmos, pois não se atinge o Céu sem esforço.

“Para chegar ao lugar desejado é preciso dirigir-se, com todas as forças, a um ponto muito mais alto. (...)
A doutrina de Cristo tem grande poder exatamente porque requer a perfeição absoluta, isto é, a identificação do sopro divino que se encontra na alma de cada homem com a vontade de Deus, identificação do filho com o Pai. Libertar do animal o filho de Deus que vive em cada homem e aproximá-lo do Pai, apenas nisto está a vida, segundo a doutrina de Cristo.
A existência apenas do animal, no homem, não é a vida humana. A vida somente segundo a vontade de Deus, tampouco é a vida humana. A vida humana é o conjunto da vida divina e da vida animal, e quanto mais este conjunto se aproxima da vida divina, mais é vida.”
O que esse trecho quer dizer exatamente? O ideal é impossível nesta vida, visto que vivemos em um universo cuja essência é a própria luta entre opostos, um mundo passageiro, material, perecível, conflitante. Logo, os ideais não podem ser concretizados aqui, mas devem ser pregados e buscados. O aparente radicalismo do ideal é necessário devido à força da natureza humana, de modo que ambas se equilibram e obtemos a virtude, que nada mais é que o equilíbrio entre opostos. O que é a coragem, por exemplo, senão a moderação entre a imprudência e o medo?
Esse equilíbrio, porém, nunca será totalmente realizado na Terra, e só terá valor enquanto formos mortais, pois na eternidade não haverá dialética, somente repouso no Eterno, e somente o Bem. A perfeição dos ensinamentos de Jesus é necessária, pois só um objetivo perfeito a ser seguido pode compensar a força terrena que nos “puxa para baixo”. E esse progresso deve ser realizado durante a vida do cristão.

“O cumprimento da doutrina está no movimento do eu em direção a Deus.”
“O ideal é não desejar fazer o mal, não provocar a malevolência, não odiar o próximo. O preceito para alcançar esse ideal é o da proibição de ofender os homens com a palavra. E este é o primeiro mandamento.
O ideal é a castidade completa, até em pensamento. O preceito é a pureza do casamento, evitando a lascívia. E este é o segundo mandamento.
O ideal é não se preocupar com o dia de amanhã e, sim, viver o presente. O preceito é não jurar, nada prometer para amanhã. E este é o terceiro mandamento.
O ideal é nunca usar a violência para qualquer fim. O mandamento indica não pagar o mal com o mal, sofrer a ofensa, dar a própria veste. E este é o quarto mandamento.
O ideal é amar aqueles que nos odeiam. O mandamento é não fazer mal aos próprios inimigos, falar bem deles, não fazer diferença entre eles e os amigos. E este é o quinto mandamento.
(...) O homem ama, não porque tenha interesse em amar isso ou aquilo, mas porque o amor é a essência de sua alma, porque ele não pode deixar de amar.
A doutrina cristã ensina ao homem que a essência de sua alma é o amor, que sua felicidade não é a de amar tal ou tal entidade, mas sim o princípio de tudo, Deus, que ele tem consciência de trazer consigo. Por isso, ele amará a todos e a tudo. Eis a diferença fundamental entre a doutrina cristã e a doutrina dos positivistas e de todos os teóricos da fraternidade universal não cristã.
Enfim, a opinião errônea dos doutores, que o sobrenatural é a essência do cristianismo, e que sua doutrina é impraticável, é também uma das causas pelas quais os homens de nosso tempo não compreendem o cristianismo.
O mundo hoje está repleto de homens cultos que não compreendem nada do cristianismo, em incorrem em vários erros.

Cap.5. Contradições entre nossa vida e a consciência cristã
Pintura retratando Tolstoi realizando uma leitura à sombra de uma árvore. Além de pacifista, anarquista e cristão, ele amava a natureza e defendia uma vida ideal próxima a ela.

“A incompreensão da doutrina de Cristo por parte dos homens tem causas diversas. Uma delas (...) está na convicção de que ela é impraticável e pode ser substituída pela doutrina do amor à humanidade. Mas a principal dessas causas, a que é a fonte de todos os mal-entendidos, consiste na opinião de que o cristianismo é uma doutrina que se pode aceitar ou rejeitar sem mudar de vida.”
“O conde Komarovski, professor de Direito Internacional, escreve em suas sábias memórias:
Os nossos tempos são ricos  em contradições de toda espécie; a imprensa de todos os países nos fala, em todos os tons, da necessidade da paz entre os povos e deseja-a ardentemente. (...) A paz está em todas as bocas e, no entanto, os governos a cada ano aumentam seus armamentos, introduzem novos impostos (...). Que lamentável contraste entre palavras e atos! (...) Colocam absolutamente tudo na conta da defesa! Mas eis o ponto obscuro, o que nenhum homem imparcial pode ou poderá compreender: de que parte virá o ataque se, em sua política, todas as grandes potências são unânimes ao objetivar a defesa.
“(...) a ciência, que deveria ter sempre como alvo o bem da humanidade, concorre desgraçadamente para a obra da destruição e sem cessar inventa novos meios de matar grandes quantidades de homens, no menor tempo possível.
E para manter tantos soldados e fazer tão grandes preparativos de carnificina, gastam-se a cada ano centenas de milhões, ou seja, somas que bastariam para a educação do povo e a realização dos mais grandiosos trabalhos de utilidade pública e que gerariam a possibilidade de resolver pacificamente a questão social.
A Europa, por conseguinte, encontra-se, neste aspecto, não obstante todas as conquistas científicas, na mesma situação em que se encontrava nos piores e mais bárbaros dias da Idade Média.”



Segunda parte do 6º movimento de Das Lied von der Erde. “Obra onde se encontra a fusão perfeita do lied e da sinfonia, “A Canção da Terra” está impregnada de tristeza e nostalgia indefiníveis, mas também da celebração da natureza. Mahler conseguiu evidenciar nesta obra todos os aspectos do seu gênio” (texto de Isabel Assis Pacheco). Letra:
“Ó beleza! Ó mundo ébrio de amor e vida eternos!”
“Meu amigo, a felicidade não me foi propícia neste mundo!"
“ O meu coração está tranquilo e aguarda a sua hora!”
(Crepúsculo na Chapada dos Veadeiros, Goiás, Brasil, em julho de 2011)





“(...) Cada homem de nosso tempo, se penetrarmos na contradição entre sua consciência e sua vida, encontra-se na mais cruel situação. Sem falar de todas as outras contradições entre a vida real e a consciência que preenchem a existência do homem moderno, bastaria esse estado de paz permanente e sua religião cristã para que o homem, desesperado, duvidasse da razão humana e renunciasse à vida num mundo tão insensato e bárbaro. Essa contradição, requinte de todas as outras, é tão terrível que viver participando dela só é possível caso não pensemos, caso a esqueçamos.
Mas como? Todos nós, cristãos, não só professamos o amor ao próximo, como também vivemos realmente uma vida comum, uma vida cujo pulso bate num só movimento; (...) aproximamo-nos uns dos outros com amor! – e nessa aproximação está o sentido da vida --, para amanhã algum chefe de Estado, fora de si, dizer uma tolice qualquer à qual um outro responderá com outra tolice, e iremos nos expor à morte e matar homens que não só nada nos fizeram, mas que amamos! E esta não é uma probabilidade longínqua, mas uma inevitável certeza, para a qual todos nos preparamos.
Basta, de modo claro, ter consciência para enlouquecer ou suicidar-se. E é isto o que acontece, sobretudo entre os militares. (...) porque viver em contradição com a própria razão é uma situação intolerável.”

“No portão da eternidade”, de Vincent van Gogh (1853-1890), famoso pintor de caráter expressionista, considerado um dos melhores da História da Arte.

Que retrato duro da vida! Muitos de nós, vivendo confortavelmente, não se dão conta dos males que infestam o mundo. Eis um retrato verdadeiramente expressionista, mas sobretudo realista, da humanidade, visto que ela expõe o que a alienação esconde, a essência de tudo o que o homem faz, em sua condição pagã e pecaminosa, e é nada mais que a mais pura realidade.
Quantas pessoas não enlouqueceram diante da contemplação dos horrores do mundo, cometendo suicídios? O que dizer de Kevin Carter (1960-1994), por exemplo, fotógrafo sul-africano, autor da famosa fotografia ganhadora do Prêmio Pulitzer, tirada em 1993 no Sudão (veja abaixo). Um ano depois, em profunda depressão, ele se matou.
O que dizer, por exemplo, daqueles conscientes homens que procuraram denunciar os males da sociedade com suas obras? Na Metamorfose, de Kafka, vemos que a sociedade em que vivemos reifica o homem: ele é transformado em coisa, em um objeto de trabalho, um servo de seus superiores, os quais podem usá-lo, além no trabalho e pagamento de impostos, na matança de seus iguais, para isso manipulando-o de todas as formas possíveis, desde com as diversões (bebida, fumo, prostituição, arte) até as maiores mentiras (ideologias, patriotismo, etc).
 "Eu estou depressivo...sem telefone... dinheiro para o aluguel...dinheiro para o sustento de criança...dinheiro para dívidas...dinheiro!!! Eu estou sendo perseguido pela viva memória de matanças, cadáveres, cólera e dor... pela criança faminto ou ferida... pelos homens loucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policiais, assassinos...", trecho da carta de suicídio de Kevin Carter.

Cap.6. Os homens de nossa sociedade e a guerra

“A solução das contradições entre a vida e a consciência é possível de duas maneiras: mudar a vida ou mudar a consciência. E não parece que possa existir dúvida na escolha.”
Parece que não, mas infelizmente há. O que justifica, em boa parte, o grande número de descrentes e principalmente ateus convictos é a preferência pela mudança da consciência do que a mudança da vida. Mudar o pensamento é mais fácil, e é justamente o que os poderosos querem. A tentativa de descartar a moral nada mais é que a busca pela calma da consciência, ou seja, tornar as atrocidades humanas naturais e aceitáveis.
Nietzsche, por exemplo, famoso filósofo alemão, propunha a morte da moral cristã, a qual se opunha acirradamente, para “libertar” a sociedade desses “entraves”, e seguir livremente seu caminho a largos passos de “evolução”. Nada mais absurdo. Sendo a moral exatamente o que nos torna mais humanos e menos animais, rejeitá-la seria regredir, retroceder na evolução do homem, e coloca-lo mais próximo ainda da selvageria. Sendo assim, as guerras seriam vistas como benéficas e desejáveis, pelo simples argumento de que provocam transformação e evolução. Mas que evolução e que transformação? Só se fora a evolução da riqueza de alguns opressores e a transformação de pessoas alegres em cadáveres putrefatos.
Existem, basicamente, três tipos de pessoas: aquelas que estão alienadas, seja por uma vida tranquila rodeada por ilusões, uma religião ilustrativa, uma mídia enganadora, etc; aquelas que estão conformadas e tranquilas com sua consciência, ou seja, não creem numa moral, só acreditam que um dia o mundo possa se tornar um pouco melhor, etc, e aquelas conscientes e inconformadas, que desejam lutar pelos seus ideais e espalhá-los. As duas primeiras são exatamente os dois tipos de pessoas que os opressores querem que habitem o mundo. Os demais são problema.
“E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.2)
Não tenha, amigo, dúvida na escolha: só a sua consciência, buscando as alturas, pode movê-lo a algum bem.

Terceira (última) parte do 6º movimento de Das Lied von der Erde (A Canção da Terra). Letra:
“Em toda a parte a amada terra
Floresce na primavera e torna a verdejar!
 Por toda a parte e eternamente resplandece um azul luminoso!
Eternamente…eternamente…”
"Quando a voz entoa as últimas palavras Ewig… ewig [eternamente...eternamente...], a música parece dissolver-se imperceptivelmente (...) A música dá lugar ao silêncio e a emoção é levada à sua plenitude" (Isabel Assis Pacheco), como se a alma retornasse Àquele que a enviou, e repousasse para sempre...Eternamente...
"Noite estrelada", do pintor holandês Vincent van Gogh.

“(...) a maior parte dos homens não pensa com a finalidade de conhecer a verdade, mas para persuadir-se de que vivem na verdade; para convencer-se de que a a vida que vivem, acham agradável e à qual estão habituados é precisamente aquela que se harmoniza com a verdade”.
“Eis um excelente exemplo, tirado do célebre escritor francês Guy de Maupassant. Observando des eu iate as manobras e os exercícios de tiro dos soldados franceses, ocorreram-lhe as seguintes reflexões:
Quando penso somente nesta palavra, guerra, me assalta um desânimo, como se me falassem de bruxaria, de Inquisição, de algo longínquo, fundo, abominável, monstruoso, contra a natureza.
(...) Os soldados de infantaria que correm ao longe estão destinados à morte, como o rebanho de carneiros que um açougueiro  vislumbra diante de si na estrada. Cairão numa planície, com a cabeça quebrada por um golpe de espada ou com o peito perfurado por uma bala; e são jovens que poderiam trabalhar, produzir, ser úteis. Seus pais são velhos e pobres, e suas mães, que durante vinte anos os amaram, adoraram como adoram as mães, saberão dentro de seis meses, ou talvez de um ano, que seu filho, o menino, o menino grande, educado com tanto sacrifício, com tanto dinheiro, com tanto amor, foi jogado numa fossa, como um cachorro, depois de ser estripado por um tiro de canhão e pisoteado, amassado, moído pelas cargas de cavalaria. Por que mataram seu filhinho, seu lindo filhinho, sua única esperança, seu orgulho, sua vida? Ela não sabe. Sim, por quê?
A guerra!...lutar!...degolar!...massacrar os homens!...e temos hoje, em nosso tempo, com a nossa civilização, com a vastidão da ciência e com o grau de filosofia ao qual o ser humano acredita ter chegado, escolas onde se aprende a matar (...).
E o mais assombroso é que o povo não se volta contra os governos. Que diferença há, então, entre as monarquias e as repúblicas? O mais assombroso é que a sociedade inteira não se rebela contra estas palavras: guerra mundial.
(...) Os povos começam a compreender que o engrandecimento criminal de um delito não pode ser a diminuição; que se o ato de matar é um delito, matar muito não pode ser uma circunstância atenuante; que se o ato de roubar é uma vergonha, invadir não pode ser uma glória! Ah! Proclamemos essas verdades absolutas, desonremos a guerra!”
Os homens seguem uma lei, determinada pelo Estado. Obedecem-no, ou seja, são favorecidos não porque são amados por ele, mas porque devem ser mansos e obedientes a ele, para atenderem aos interesses dele. O homicídio não é proibido porque o Estado quer o bem de todos. Se o quisesse, não pensaria em fazer guerra, nem em pena de morte. Ele quer ordem e progresso para que matemos que for lucrativo matar, e permaneçamos trabalhando, pagando impostos e esquecendo os males com diversões.
O homem é o escravo do homem. Quem não dá a vida para servir os poderosos, merece morrer. É assim que raciocinam os sistemas. Escreve Edouard Rod:
“A sorte de toda uma geração depende da gora em que algum fúnebre homem político der o sinal, que será seguido. (...)
Nada somos além de objetos dessa contraditória abstração, o Estado, que torna cada indivíduo escravo em nome da vontade de todos, que, tomados isoladamente, desejariam exatamente o oposto do que serão obrigados a fazer”.


Uma ilustração do que os tiranos fazem com os submissos. A humanidade ingênua é como o pequeno Simba e o velho Mufasa, e o Scar representa os governantes, que os enganam. Assista e interprete...

Há quem defenda a guerra como própria da natureza humana (como citei anteriormente) e para isso usam vários argumentos medíocres que aparentam ser sensatos. Se o conflito é da própria natureza humana – o que é óbvio, e é admitido pela própria doutrina cristã --, é justamente como essa natureza que devemos lutar, por meio da busca de um bem maior, que não deve se estender a um só país (e muito menos aos bolsos de alguns opressores), mas sim a toda a humanidade.
Que benefício há em viver segundo as leias naturais? Elas não trarão vida, nem felicidade, nem realização a ninguém, somente agressão, contenda, mal. Essa condição sempre foi abominada pelo homem, e por isso viemos evoluindo desde as cavernas até aqui. Não podemos retroceder.

Cap.7. Significado do serviço militar obrigatório


“A influência moral age sobre os próprios desejos do homem e modifica-os no sentido do que lhe é solicitado. O homem que sofre a influência moral age de acordo com seus desejos. (...) O homem submisso ao poder não age como quer, mas como é obrigado; e é somente por meio da violência física, isto é, da prisão, da tortura, da mutilação ou da ameaça destes castigos que se pode forçar o homem a fazer aquilo que não quer. Nisto consiste e sempre consistiu o poder.
(...) O poder encontra-se sempre nas mãos dos que comandam o exército, e sempre todos os chefes do poder – dos césares romanos aos imperadores russos e alemães – preocupam-se com o exército mais do que com qualquer outra coisa, e somente a ele adulam, sabendo que, se ele está do seu lado, seu poder está assegurado.”
Mesmo as melhores repúblicas são vítimas e executoras da tirania. Basta lembrarmos de como foi a Guerra Fria – a “época tão atormentada” de que falou Tania Tolstoi, neta do escritor --: perseguições ideológicas por todos os lados, execuções, implantações de ditaduras e fomentação de guerras sangrentas por todos os lados, tudo porque dois sistemas disputavam o poder.
“E então, todos os cidadãos foram chamados às armas para manter as injustiças que entre eles eram cometidas, de modo que os cidadãos se tornaram seus próprios tiranos. (...) o serviço militar obrigatório torna nulas todas as vantagens da vida social que é chamado a defender. (...) Os impostos recolhidos para as despesas militares absorvem a maior parte do produto do trabalho que o exército deve defender.”
“Cada homem que cumpre o serviço militar participa de todas essas pressões que, às vezes, lhe parecem ambíguas, mas, na maior parte do tempo, absolutamente contrárias à sua consciência.
Assim, alguns homens se recusam a abandonar a terá que cultivam de pai para filho há muitas gerações, outros não querem circular como pretende a autoridade, outros não querem pagar os impostos, outros não querem reconhecer como obrigatórias certas leis que não fizeram, outros não querem perder sua nacionalidade e eu, que estou cumprindo as obrigações do serviço militar, sou obrigado a atacar aquela gente?”.
O Estado foi útil há muito tempo atrás, quando estávamos em tal estado de evolução que precisávamos dessa organização para sobreviver. Com Jesus, aprendemos que ele já não é necessário, e sim um mal, visto que está sujeito a corrupção e ganância dos homens. Com Cristo, ele torna-se inútil, e o dever do cristão é, pacificamente, opor-se a tudo o que é contra sua consciência, e buscar espalhar mais e mais a verdade, exatamente como Jesus recomendou.


Prólogo da St. Matthäus Passion (Paixão de São Mateus), do célebre compositor barroco alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), uma de suas obras-primas, tesouros da música erudita, com regência de Karl Richter (1926-1981), famoso por suas regências de Bach. A Paixão de São Mateus tem duração de cerca de 3 horas, e é uma belíssima caminhada pelo episódio da Páscoa. Esse trecho inicial é um coro que  lamenta os fatos vindouros, com Jesus em Betânia prevendo sua própria e iminente crucificação.

Cap.8. – Aceitação inevitável pelos homens de nossa sociedade da doutrina da não resistência ao mal

“Esse círculo [de violência, ao qual os homens estão presos] é composto de quatro métodos de ações sobre os homens. (...)
O primeiro método, o mais antigo, é a intimidação. (...) O segundo método é a corrupção. (...) O terceiro método é aquele que não posso chamar de outro modo senão de hipnotismo do povo. (...) O quarto método consiste em escolher, entre todos os homens unidos e embrutecidos, um certo número de indivíduos, pra torna-los instrumentos passivos de todas as crueldades necessárias ao governo [soldados]. Chega-se ao ponto de embrutece-los ainda mais e de torna-los ferozes, recolhendo-os entre os adolescentes, quando ainda não puderam formar um conceito claro de moralidade e isolando-os de todas as condições naturais da vida – a casa paterna, a família, a cidade natal, o trabalho útil --, encerram-nos em casernas, vestem-nos com trajes militares, obrigam-nos, com gritos, tambores, música, objetos cintilantes, a fazer diariamente exercícios físicos, propositalmente inventados. E eles caem, com estes meios, num estado de hipnose tal que deixam de ser homens e se tornam máquinas sem raciocínio, dóceis à vontade do hipnotizador. (...)
A intimidação, a corrupção, o hipnotismo criam soldados, os soldados dão o poder, o poder dá o dinheiro com que se compram as autoridades e se recrutam os soldados.
É um círculo no qual tudo se encadeia firmemente e de onde é impossível sair por meio da violência.
“Creio ser Max Müller quem conta a surpresa de um índio convertido ao cristianismo, do qual tinha assimilado a essência, e que, vindo à Europa, viu como viviam os cristãos. Ficou perplexo diante da realidade tão absolutamente oposta ao que imaginara encontrar entre os povos cristãos.”


Um dos trechos mais emocionantes da Paixão de São Mateus e dos mais famosos da Música, quando se canta, tristemente, com súplicas, "Tem misericórdia, Senhor, por causa de minhas lágrimas", depois da cena em que Jesus diz a Pedro que este o negaria três vezes antes que o galo cantasse.

Leia, abaixo, a revelação do que verdadeiramente faz o soldado, saída da boca de um imperador. Vejamos a essência acima da aparência...
“(...) o imperador da Alemanha explicou recentemente, com maior precisão, a missão do soldado, agradecendo e recompensando um soldado que havia matado um prisioneiro indefeso que tentava fugir.(...) Guilherme II mostrou que o dever principal e mais apreciado do soldado é ser carrasco, e não como um carrasco profissional que só mata os criminosos condenados, mas carrasco de todos os inocentes que o chefe lhe ordena matar.
(...) [Guilherme II] disse publicamente o que se segue (...):
‘Recrutas! Diante do altar e do servo de Deus, vós me haveis jurado lealdade! Sois ainda demasiado jovens para compreender toda a importância do que aqui foi dito, mas cuidai antes de tudo de obedecer às ordens e às instruções que vos serão dadas. Vós me haveis jurado, jovens d aminha guarda; agora sois, portanto, meus soldados, a mim pertenceis, pois, de corpo e alma. Para vós, hoje, não existe senão um inimigo, aquele que é meu inimigo. Com os atuais ardis socialistas, poderia ocorrer que eu vos ordenasse disparar em vossos parentes, em vossos irmãos, também em vossos pais, em vossas mães; ainda assim devereis obedecer às minhas ordens sem hesitar.’
“Esse homem exprime tudo aquilo que os governantes inteligentes pensam, mas cuidadosamente ocultam. (...)
Guilherme II, um doente, miserável, ébrio de poder, ofende com essas palavras tudo o que pode haver de sagrado para o homem moderno, e os cristãos, os livres-pensadores, os homens cultos, todos, longe de se indignarem com essa ofensa, sequer levam-na em consideração.”

Cena do filme Le Roi Danse (com trilha sonora da época, nesse caso, do famoso compositor Jean-Baptiste Lully -1632-1687-), retratando a vida opulenta do maior rei francês: Luís XIV, que reinou na Era de Ouro da França absolutista, de 1643 a 1715. Percebemos aqui como o paganismo estava e ainda está presente em nosso mundo, como pela deificação do rei (direito divino), enobrecimento e bênção da guerra, o instrumento maior do poder de um governante. A era dourada da França nas artes e economia coincidiu com uma época de muitas guerras, mas também de terríveis repressões a revoltosos camponeses famintos, que organizavam as "frondes". As atrocidades horrendas dos poderosos sempre foram enobrecidas por mentiras e seduções.

Cap.9. – A aceitação do conceito cristão da vida preserva os homens dos males de nossa vida pagã

“A situação das nações cristãs em nossa época é tão penosa quanto na sua era pagã; Sob muitos aspectos e, em especial, sob o ponto de vista da opressão, é ainda mais cruel. (...)
Eis exatamente o que distingue a religião cristã daquelas que a precederam. Ela não reclama ao homem determinados atos negativos externos, mas coloca-o, em relação a seus semelhantes, numa outra posição, da qual podem resultar atos muito diferentes que não se poderiam definir antecipadamente.”
“Hoje (...), a recusa a satisfazer as exigências anticristãs dos governos ameaça o poder no seu próprio princípio, pois este está baseado nessas exigências.”
“Os socialistas, os comunistas, os anarquistas, com suas bombas, suas rebeliões, suas revoluções, estão longe de ser tão perigosos para os governos como esses homens isolados que proclamam, de qualquer lugar, sua recusa, calcados na mesma doutrina conhecida por todos.
Cada governo sabe como e com que meio defender-se dos revolucionários; assim, não teme seus inimigos externos. Mas o que poderão fazer contra os homens que demonstram a inutilidade, aliás, o mal de toda a autoridade,  que não combatem o governo, mas simplesmente o ignoram, que podem viver sem ele e, em consequência, recusam-se a dele participar?
Os revolucionários dizem: ‘A atual ordem social peca neste e naquele ponto que deveria ser suprimido e substituído por este outro’, O cristão diz: ‘Não me preocupo com a ordem social, ignoro se é boa ou ruim; mas, pelo mesmo motivo, não quero também apoiá-la – e não só não quero, como não posso -, porque aquilo que me pedem é contrário à minha consciência’.

Cap.10. – Inutilidade da violência governamental para suprimir o mal – O progresso moral da humanidade realiza-se não apenas com o conhecimento da verdade, mas também com a formação da opinião pública.

“O cristianismo, em seu verdadeiro significado, destrói o Estado. Isto foi assim compreendido desde o princípio e por isso Cristo foi crucificado. (...) Somente quando os chefes de Estado aceitaram o cristianismo nominal externo começaram a ser inventadas as sutis teorias segundo as quais o cristianismo pode se conciliar com o Estado”.


Preste muito atenção no diálogo inicial de Frollo com Febo. Perceba que ele se encaixa perfeitamente na revelação que Tolstoi nos faz em seu livro: a religião usada como instrumento da opressão do Estado, hipnotizando o povo de várias maneiras, mas, apesar disso, existem aqueles cuja consciência cristã está muito viva e desperta, e se recusam cada vez mais a sujeitar-se a tirania anticristã. O guerreiro Febo, do desenho, por exemplo, apesar de possuir uma mentalidade medieval (século XIV), lutando em nome da Igreja em que foi ensinado, consegue reconhecer por si mesmo o mal disfarçado, e se recusa a atacar os pobres ciganos, o que o insere na história como um heroi. Além disso, no final do vídeo, vemos uma denúncia bem grotesca (bem expressionista, digamos assim) da asquerosa ignorância em que o povo está infelizmente mergulhado, mas também uma cena de misericórdia e bondade que revela que possui realmente consciência e amor, ou seja, quem realmente segue os passos de Cristo e progride em espírito, sendo dignos da verdadeira Vida.

Cap.12. – Conclusão – Fazei penitência, porque o reino de Deus está próximo, está a nossa porta

O último capítulo de O reino de Deus está em vós (talvez o capítulo mais extenso), chamado de “conclusão”, concentra maravilhosas ideias a partir de alguns relatos. Transcrevo abaixo alguns trechos dessas observações e reflexões do autor, a começar pela descrições de um grupo de jovens soldados indo de trem a um vilarejo russo repreender de modo sangrento pobres camponeses miseráveis, representando a face da alienação, a qual ele mais adiante explica por quê acontece.
“Os soldados, jovens garbosos, em seus uniformes novos e limpos, estavam agrupados em pé ou sentados com as pernas pendentes na grande abertura dos vagões. Uns fumavam, outros, davam-se cotoveladas, brincavam, riam, mostrando todos os dentes; outros roendo sementes de girassol, cuspiam as películas com ar de importância. Alguns corriam para beber no barril de água que havia na plataforma e, encontrando alguns oficiais, diminuíam o passo, faziam seu gesto idiota, levando a mão à fronte com ar sério, como se fizessem algo muito importante, seguiam adiante e depois recomeçavam a correr ainda mais alegremente, batendo as pranchas da plataforma, rindo e conversando como é natural a jovens de boa saúde e a bons rapazes que viajam em alegre companhia. Iam matar seus pais e seus avós famintos como se se encaminhassem a um divertimento.”
Tolstoi apresenta e explica o fato de que atrocidades são cometidas por muitos sem que haja tanto peso em suas consciências pelo fato de cada grupo colocar a responsabilidade dos atos em outro: o povo diz obedecer aos governadores, os quais dizem ordenar para atender às exigências da burguesia, que se diz pressionada tanto pelo povo quanto pelo Estado...
“Repousa principalmente sobre esta mentira, da desigualdade entre os homens, e sobre a embriaguez do poder e do servilismo que dela resulta, a capacidade  dos homens, constituídos em organização social, de cometerem sem remorso atos contrários à sua consciência.”


A cena em que, tendo sido perguntado ao povo quem eles gostariam que fosse morto e quem que fosse liberto e tendo respondido que o criminoso Barrabás fosse livrado e Jesus, crucificado, o governador pergunta o que Jesus teria feito para que ele merecesse a crucificação. A resposta dada por uma pessoa fiel é que "Ele fez bem para nós todos: restaurou visão aos cegos, os coxos fez andar, contou-nos as palavras de seu Pai, espantou demônios, levantou os aflitos, recebeu e abrigou pecadores. Além disto meu Jesus não fez nada (...)".

“’Como poderei matar homens, quando a lei de Deus diz: ‘Não matarás’?’, perguntei mais de uma vez a diversos soldados. Deixava-os sempre embaraçados recordando-lhes, com esta pergunta, algo em que não queriam pensar. Sabiam que existe uma lei de deus obrigatória: Não matarás, e sabiam também que existe um serviço militar obrigatório, mas nunca haviam pensado que nisso houvesse uma contradição.(...) os homens do povo davam-me geralmente razão, mas por sua vez perguntavam-me: ‘Como é então possível que o governo [que, em sua opinião, não pode errar] ,ande o exército à guerra e faça justiçar os delinquentes?’ Quando eu respondia que o governo age mal dando essas ordens, meu interlocutor perturbava-se ainda mais e interrompia a conversa ou se irritava comigo”.

“Os instrutores [dos soldados] são homens iguais a eles, mas que foram enganados e embrutecidos um, dois ou três anos antes. Os métodos para instruí-los são a mentira, o embrutecimento, as surras  a aguardente. Em menos de um ano, aqueles jovens, sãos de corpo e alma, inteligentes, bons, tornam-se seres selvagens como seus instrutores.
-- Muito bem! E se teu pai, preso, quisesse fugir, o que farias? – perguntei a um jovem soldado.
-- Iria trespassá-lo com minha baioneta – respondeu-me ele com a voz estúpida, própria dos soldados – e, se ele ‘escapar’, eu deverei abrir fogo contra ele – acrescentou, visivelmente orgulhoso por saber o que deveria fazer caso seu pai escapasse.”

Há homens cultos, porém em certos aspectos, ignorantes, que afirmam ainda hoje ser a religião o maior mal que existe para a mente humana, como se ainda vivêssemos nas “trevas” da Idade Média. Eles se esquecem que, quando a religião perdeu seu maior poder, a ciência tomou parte na atividade incessante e adorada pelos governos de dominar e alienar, como Tolstoi explica:
“A hipocrisia que, antes, era apenas religiosa, com a doutrina do pecado original, da redenção e da Igreja, transformou-se, por intermédio dessa nova doutrina científica, e prendeu, em suas redes, todos os homens cujo desenvolvimento intelectual não mais permitia apoiarem-se na hipocrisia religiosa. Como, outrora, o homem que professava a doutrina religiosa oficial podia, mesmo acreditando-se isento de qualquer pecado, participar de todos os delitos do estado e deles se beneficiar, desde que cumprisse as práticas externas da religião, os homens que, atualmente, não creem no cristianismo oficial, encontram na ciência as mesmas razões para considerarem-se puros e até de elevado grau de moralidade, apesar de suas participações nos delitos governamentais e das vantagens que dele obtêm”.
Como já disse, o mundo atual está cheio de hipócritas intelectuais que, dizendo para todos os lados críticas generalizadas a todos pensamento religioso, procuram aumentar o número de pessoas que, não seguindo nenhuma moral ou ideal, deixam de se opor aos governos e se conformam em tudo aceitar, acreditando religiosamente que os homens brutos e gananciosos irão lutar por um mundo melhor... Quanta ilusão!


Jesus é castigado e encaminhado para o Calvário, e o coro canta: "Ó face cheia de sangue e exaustão, cheia de dor e cheia de desprezo. Ó face coroada com escárnio, com uma coroa de espinhos; ó face belamente adornada com a suprema graça e honra, mas agora tão maldosamente ultrajada (...)" Em seguida, vem a cena em que um homem ajuda a Jesus carregar sua cruz.

“A desventura dos homens provém da desunião, e a desunião provém do fato de que eles não seguem a verdade, que é única, e sim a mentira , que é múltipla.”
“Qualquer guerra, a mais benigna, com todas as suas consequências ordinárias: a destruição das massas, os furtos, os raptos, a desonestidade, o homicídio, com as justificativas de sua necessidade e de sua legitimidade, com a exaltação dos comportamentos militares, o amor à bandeira, à pátria, com a falsa solicitude para com os feridos, etc., perverte, num só ano, mais gente do que milhares de assaltos, incêndios e homicídios cometidos durante um século por indivíduos isolados, impelidos pela paixão”.

“A verdade abre para nós o único caminho que a humanidade pode percorrer. Por isso, os homens, necessariamente, seguirão, livres ou não, o caminho da verdade: uns, por sua própria iniciativa, cumprimento a missão que se impuseram, outros, submetendo-se, à revelia, à lei da vida. A liberdade do homem reside nessa escolha. (...)
Essa liberdade, comparada à liberdade fantástica que desejamos, seja grande ou não, não importa; somente ela existe de fato, e nela consiste a felicidade acessível ao homem. (...).
Segundo a doutrina de Cristo, o homem que vê o sentido da vida no campo em que esta não é livre, no campo dos efeitos, ou seja, dos atos, não vive verdadeiramente. Só vive verdadeiramente aquele que transportou sua vida para o campo em que ela é livre, o campo das causas, isto é, do reconhecimento e a prática da verdade revelada.”
“Conquista-se o reino de Deus com o esforço, e somente aqueles que fazem esforços o alcançam”.
Por isso Jesus disse que é mais fácil um camelo passar por uma vala estreia do que um rico entrar no reino de Deus: a riqueza, e o poder que dela advém, são terríveis cargas que aumentam o esforço para resistir às tentações e crescer em espírito. Não que seja impossível, mas é desafiador, e em muitos casos, é insustentável, principalmente quando se trata de poder.

“Caiam em si, homens, e creiam no Evangelho, na doutrina da felicidade. (...)
‘Voltem a si, homens, e creiam no Evangelho’, disse Cristo (...)
Quem quer que seja que lê estas linhas, pensa na tua situação (...). Fazes realmente aquilo que te pede Aquele que te mandou ao mundo e ao qual retornarás dentro em breve?(...)
Teus deveres de cristão não podem deixar de ser subordinados aos deveres superiores da vida eterna de Deus e não podem contradizê-los, como disseram (...) os discípulos de Cristo:‘Julgai se é justo aos olhos de Deus obedecer mais a vós do que a Deus’ (Atos 4.19) e ‘É preciso obedecer antes a Deus que aos homens’ (Atos 5.29).”


Nessa parte Jesus é crucificado. Canta-se, no início: "Venha, doce cruz!".

Mahatma Gandhi (1869-1948), o pacifista libertador da índia, disse: “A leitura de O reino de Deus está em vós me curou do ceticismo e fez de mim um firme seguidor da não violência”.
Disse Martin Luther King (1929-1968), o pastor protestante negro e ativista político americano que lutou pelos direitos civis dos negros e pregou a não violência e o amor ao próximo:
“Cada dia é o dia do julgamento, e nós, como nossos atos e nossas palavras, com nosso silêncio e nossa voz, vamos escrevendo continuamente o livro da vida. A luz veio ao mundo e cada um de nós deve decidir se quer caminhar na luz do altruísmo construtivo ou nas trevas do egoísmo. Portanto, a mais urgente pergunta a ser feita nesta vida é: o que fiz hoje pelos outros?”.


Canta-se; "Ó Gólgota, infeliz Gólgota!", com reflexões e lamentos sobre o sofrimento do próprio Deus. Eis uma bela lição: a necessidade da luta da vida, da morte e da Ressurreição para obter a verdadeira Vida. Nos vídeos seguintes, que não postei aqui, vem outras cenas como o rasgo da parede do Templo judeu em dois: os ditames da lei e das religiões se acabaram, não valem mais: o que vale agora é a doutrina do amor de Cristo.

Lembremo-nos de que o pecado centra nossa atenção cada vez mais em nós mesmos, enquanto o amor divino nos leva a olhar para o próximo. Saiba que a comodidade e vitória do capitalismo se deve a sua selvageria, que combina com a selvageria humana, e com o fato de conduzir os indivíduos a repousarem na sua zona de conforto, mantendo tudo “em ordem”. Mas não devemos nos conformar.
Lembremo-nos que somos peregrinos neste mundo. Ansiamos por nossa verdadeira casa. Aqui estamos, nesta batalha que é a vida, tão dramática, instável, perigosa e triste, mas ao mesmo tempo tão bonita, tão necessária, tão vitoriosa, feliz com seu triunfo para os que retornam aos braços do Pai!
Não se esqueça, amigo, do porquê de você estar aqui. Não se esqueça do que lhe dá motivo de existir e viver. Lembre-se que a mensagem de Cristo é como uma semente, que evolui sempre mais e mais. Deixe que ela seja semeada em seu coração e semeia mais e mais àqueles que estão a sua volta.
Espero que tenha reconhecido como o mal só propaga o mal, e como a doutrina de Cristo veio para nos indicar o caminho certo. Quando dizemos que só Jesus salva, queremos dizer que só por meio do amor o ser humano pode se redimir – e o bem pode ser alcançado. Não se engane com nenhuma promessa humana, nem com nenhuma teoria humana, pois nada nos livrará do ciclo vicioso de conflitos e males senão a mensagem de Jesus, que veio a nós, andou entre o povo e foi por ele e pelos poderosos crucificado, mas venceu a morte, e foi amado, tendo antes amado toda da humanidade.



Última parte da Paixão de São Mateus, de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Nessa cena, Jesus já tinha ressuscitado e ascendido aos Céu. Na metade do vídeo começo coro final de lamento: saudades de Cristo Jesus, que agora está nos Céus, e por quem esperamos, e quem buscamos, com coração contrito, mas ardente e transbordante de lágrimas de amor e esperança.

Que Jesus Cristo, nosso Senhor, habite sempre em nossos corações, nos concedendo a vitória por meio do seu amor. Que sejamos fortes em nossa luta contra o pecado. Que a sua mensagem seja por todos conhecida. Venha a nós o seu Reino. Amém!