quarta-feira, 6 de julho de 2011

Memento mori

Abertura-fantasia "Hamlet" de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893), parte 1.

DE UNS TEMPOS PARA CÁ, meu blog vem se distanciando cada vez mais do discurso ligado à ciência e de certo modo à filosofia. Quanto à primeira não pretendo aprofundar, porque há especialistas que podem melhor falar sobre isso, usando seus conhecimentos de arqueologia bíblica e combatendo – supostas – ofensivas científicas à fé, mas principalmente porque tenho cada vez mais reconhecido – e não só eu – que esta depende muito mais das premissas pessoais do que das determinações passageiras da ciência e da religião.
            Confesso que, referindo-me à “religião” no sentido negativo da palavra (essa palavra que ao longo do tempo teve seu sentido alterado em significado e aspecto não menos que aquilo que ela codifica), reconheço que ela tem a mesma posição relativa que a ciência, que sempre se transforma. Aliás, ambas podem ser nocivas, e ambas são uns dos meios de o ser humano interpretar seu mundo. Por isso existem com tanta força.
Sendo assim, essa “religião” me desagrada, e é nada mais que uma dos adereços humanos, que o satisfazem, ou promovem dissensões, servem de apegos ignorantes e primitivos e não conduzem à nada, apenas realçam a condição perdida do homem. São em geral apenas tradições.
Como boa ilustração temos a paixão doentia que multidões têm hoje por times de futebol, a ponto de chorar, gritar e fazer exclamações das mais dramáticas e impetuosas como se defendessem o país, ou a casa, como se estivessem diante de uma majestade divina, como se ali estivesse a razão de suas vidas, e esquecendo completamente qualquer princípio humano ao agredir o próximo por puro preconceito, ignorância, selvageria...
É um dos exemplos mais perfeitos, também, de idolatria. O ser humano é instintivamente pagão, por isso sempre arruma um jeito de complicar tudo e contamina o que há de mais puro com seus desígnios pérfidos, a ponto de ofuscar a verdade e sepultar a simplicidade com picuinhas diabólicas, como essa postagem mostrará.
Enfim, por quê escrevo esta postagem? Posso responder a essa pergunta enunciando o objetivo do meu blog, que é compartilhar pensamentos que militam contra as confusões e as dúvidas que o nosso mundo moderno e atormentado produz, ajudando a evitar que muitos caiam no ateísmo, ceticismo ou seja lá o que for, ou seja, mostrando que a verdade e o bem se concentram em algo bem simples e claro: Jesus Cristo. É o que tento fazer.
Mas se me perguntam qual o motivo desta postagem em especial, digo que é fruto de uns dias de leitura e estudo, e agora volto a tocar no assunto da filosofia, como não fazia havia muito tempo. Primeiro, reconheci o quanto vivemos em tempos de dúvida, e como parecemos voltar ao helenismo dos filósofos céticos, estoicos e epicuristas. Diante disso, consultando os gregos e seu mundo, tracei um plano para uma boa postagem, que não tem toques só gregos como bastante russos. Vocês verão. Apenas abram os olhos do corpo e da alma para caminhar comigo por este texto, bem tranquilamente.
Parte 2 de "Hamlet" de Tchaikovsky.

Nossa geração é terrivelmente cética e epicurista, e cada vez mais. Vivemos o tempo da dúvida, diante da frustração tanto das verdades científicas quanto das religiosas. O tempo moderno morreu com as explosões atômicas de 1945; o tempo pós-moderno que vivemos não conta mais com a confiança na razão nem na fé como era antes. A enorme interrogação predomina. O homem, com toda a sua evolução, continua sem saber, e neste momento prefere continuar não sabendo.
Situação parecidíssima com a do “mundo grego” do período helenístico, quando o mundo tinha sido dominado por Alexandre Magno, da Macedônia, e a língua, ciência e cultura gregas tinham sido expandidas do norte da África até a Índia. Com a morte de Alexandre, o Império se fragmentou e veio um período de cerca de 300 anos de constantes conflitos entre vários reinos, culminando na ascensão de Roma. O contato de várias partes diferentes do mundo, os conflitos religiosos, ideológicos, tradicionais, culturais, políticos, a divulgação da filosofia e as instabilidades da época promoveram o surgimento de quatro novas escolas filosóficas.
Uma delas, o ceticismo, concluía que não há como saber de nada. E hoje muitos pensam da mesma forma, e embora saibam que não há como viver completamente céticos, preferem continuar sem ter nenhum posicionamento. Quantos jovens vivem nessa condição lamentável de pensamento! Fruto do mundo globalizado.
Pirro (c.365-270a.C), que servira como soldado de Alexandre, viu tamanha diversidade de países e povos que fez com que avaliasse como igualmente válidas as diversas opiniões e visões de mundo com que tivera contato, concluindo que tudo o que o ser humano pode saber é apenas o que interpreta das aparências, nunca obtendo a verdade, mas somente diferentes opiniões. E não é exatamente isso que vejo em muitos hoje? Tantas pessoas dizendo que não creem em nada porque tem diante de si tantas divergências religiosas que não conseguem reconhecer o que é verdadeiro e o que não é. É uma pena, porque é possível.
(...) assim parecia a Pirro. Tudo o que podemos fazer é tomar as coisas pelo que nos parecem: mas as aparências são notoriamente frustrantes, por isso nunca devemos assumir a verdade de uma explicação em vez de qualquer outra. A melhor coisa é parar de se inquietar e apenas seguir o fluxo, isto é, acompanhar os costumes e práticas que prevalecem nas circunstâncias em que calhamos nos encontrar.” (História da Filosofia, de Bryan Magee, p.42).
E não é exatamente que muitos vivem hoje? Seguem o fluxo indefinido que não leva a lugar algum. Seguem seus próprios prazeres e inclinações, abraçam apenas uma parte agradável e fácil da moral que a tradição lhes passa e vivem alienados, não conseguindo acreditar em nada, ou prometendo um dia estudar as religiões e tirar alguma conclusão...
Uma música moderna que ilustra o problema da dúvida e do ceticismo crescentes em nossos dias.

Tímon de Flio (320-230a.C), discípulo de Pirro, sustentou essas ideias da seguinte forma:
Em particular, mostrou que todo argumento, ou prova, procedia de premissas que ele mesmo não estabelecia. Se você tentar demonstrar a verdade dessas premissas por outros argumentos ou provas, então eles terão de se basear em premissas não demonstradas, e assim por diante, ad infinitum.”
Daqui devemos tirar uma preciosa conclusão. Aqui retomo a introdução a esta postagem. A fé se baseia na premissa de Deus. Reconhecer essa premissa é algo muito pessoal, embora existam influências diversas. Logo, crer ou não crer não depende de erudição ou determinação alguma, mas do reconhecimento pessoal. Mais adiante mostrarei como escapar do caos filosóficos que até hoje vivemos, e como escolher o caminho certo entre tantos caminhos aparentemente iguais e sem resultado.
Algo importantíssimo que deve ser apreendido com a filosofia cética é o que encontramos no trecho seguinte:
“O que um argumento válido prova é que suas conclusões decorrem de suas premissas, mas isso de modo algum é o mesmo que provar que essas conclusões são verdadeiras. Todo argumento válido começa com um “se”: se p é verdadeiro, então q deve ser verdadeiro. Mas isso deixa aberta a questão de p ser ou não verdadeiro. O argumento em si mesmo não prova essa verdade, porque já a assumiu, e já ter assumido o que ele coloca em prova seria mover-se num círculo vicioso. Assim, toda “prova” repousa em premissas não provadas; e isso é tão verdadeiro em lógica, matemática e ciência quanto na vida diária.” História da filosofia, de Bryan Magee, p.43.
Disso apreendemos que a visão de mundo de cada um baseia-se em suas premissas, as quais baseiam-se somente em nós mesmos. Sendo assim, crer em Deus é muito mais pessoal do que dependente de evidências de qualquer tipo.


Trecho de "A Danação de Fausto" do compositor romântico francês Hector Berlioz (1803-1869), baseada na obra "Fausto", de Goethe.


Abaixo, um exemplo de Rubáiyáts, poemas de Omar Khayyám, filósofo e cientista persa, nascido em Nishapur em 1084. Os rubáiyáts são poemas que sugerem uma atmosfera prazerosa, mas expõem pensamentos entre o ceticismo e o misticismo que favorecem a atitude hedonista. São uma obra prima da literatura universal.

Alguns, fanáticos,
tendo feito calar
a voz da razão,
submetem-se obtusamente
à inanidade das crenças
e aos dogmas da religião.


Enquanto outros,
perplexos, aturdidos,
ficam indecisos
entre clarões e trevas,
entre aceitação e dúvida.


Eis que, despertando-os,
clama
a voz estentórica de um fantasma:


--Ó insensatos,
eternamente ludibriados,
quereis saber o caminho?
O caminho não é este...
Não é este,
nem é aquele...

            Outra escola que surgiu nesse contexto, a dos cínicos, cujo maior representante foi Diógenes, que vivia como um selvagem, rejeitava qualquer convenção social, como se fossem anarquistas, e só aceitavam a distinção de valores entre verdadeiros e falsos, mais nada. Tinham um completo desprezo pelas preocupações mundanas.

“Sou um cidadão do mundo” Diógenes (404-323a.C.). Essa frase de Diógenes, adepto do cinismo revela o caráter cosmopolita dessa filosofia do helenismo.

Uma das duas maiores filosofias do período helenístico e romano é o epicurismo, criação de um único pensador, Epicuro (c.341-270a.C), e hoje vivemos sob uma grande influência dela. Sua filosofia era materialista, arreligiosa e cultuava o prazer. Ele queria libertar as pessoas do medo da morte, e colocava o prazer como o segredo da felicidade, mas não um prazer descontrolado, mas equilibrado, ou seja, uma moderada apreciação dos prazeres terrenos. Pense comigo, se hoje isso é o não é uma filosofia tentadora? Tantos prazeres são disponíveis para nós com a liberdade!
“Quanto aos deuses, Epicuro consegue mantê-los em segundo plano sem negar sua existência (o que teria sido muito perigoso para ele), dizendo que estão muito longe e, como deuses, não têm a mínima vontade de se envolver na confusão perpétua e no rebuliço dos afazeres humanas. Portanto, são inócuos no que nos diz respeito e deles ‘nada temos a esperar e nada a temer’. Para nós, é como se eles não existissem” História da filosofia, Bryan Magee, p.45.
“David Hume, escrevendo no século XVIII, fez a seguinte observação: ‘As questões de Epicuro ainda estão sem resposta. Deus quer evitar o mal, mas não consegue? Então é impotente. Consegue mas não quer? Então é malévolo. Consegue e quer? Então porque existe o mal?”. Uma passagem semelhante se encontra em Voltaire.”
Vemos com isso que a filosofia de Epicuro livra o homem do peso da consciência, permitindo que viva como bem quiser. Isso só resulta na perpetuação do mal e da futilidade, uma filosofia simplista de dias de muita novidade , atração, e pouca preocupação. Aliás, quanto às questões de Epicuro, são dúvidas do nível de um pagão que nunca teve acesso a uma Bíblia, mas hoje, na era da informação, essas perguntas continuam a correr pelas bocas do mundo, mostrando o tamanho da ignorância delas a respeito do Deus que elas criticam.
Em outras postagens minhas essas questões foram respondidas, quanto tratei do concílio entre o bem e o mal neste mundo material (como Heráclito observou), o plano de Deus para o mundo e a existência ao final de tudo somente do bem (condizendo com Parmênides, que não concebia que houvesse mudança nem nada além de uma unidade eterna). Dessa maneira filosófica e também teológica, esses questionamentos que até hoje circulam por aí são desmontados.
“Epicuro aceitava o atomismo de Demócrito. Acreditava que tudo o que havia no universo material eram átomos e espaço, nada mais. Já que é impossível para os átomos passar a existir do nada ou desaparecer do nada, eles são indestrutíveis e eternos”.
O materialismo e a visão parmenidiana de que tudo sempre existiam são absurdas se aplicadas a coisas mutáveis. O que muda não pode ter sempre existido. Como pode alguém se conformar com uma filosofia que não responde a nenhum questionamento? Ela só corre até hoje porque proporciona a liberdade da consciência para o homem viver como sua natureza quer.
Qual o motivo dessa dispersão eterna de átomos que organizam o mundo a seu bel prazer, como irracionais que raciocinam? O ateísmo aniquila a necessidade  (ou a ignora) de haver  razão e motivo para tudo, o que contraria a própria mente humana, como se esta, cansada do esforço de procurar a verdade e com preguiça de sujeitar-se  a uma moral, se rendesse à leveza de nenhuma preocupação e ao prazer de curtir em paz a medíocre vida humana.
Imagem do deus Baco (Dioníso), o deus do vinho, dos banquetes e orgias. Os epicuristas eram acusados disso, embora se opusesem a essas práticas.
“Viva incógnito”, disse Epicuro. Nada que traduza melhor a autoalienação do ateísmo de caráter epicurista. “A morte nada é para nós”, ele também dizia, e “Goza a vida enquanto a tens”, pois dizia que a morte era nada mais que a inexistência. (A vida mais fútil e sem sentido, e em si mesma, infeliz).

A outra grande escola foi a do estoicismo, a “filosofia do Império Romano”. Seu fundador foi Zenão de Cício (334-262 a.C.), e ela se espalhou pelo império e foi aceita tanto por escravos, como Epicteto, quanto por imperadores, como Marco Aurélio, que governou de 161 a 180 d.C., na era de ouro do império. O assustador número de imperadores suicidas justifica-se em parte pelo fato de quase todos terem professado o estoicismo. O suicídio não era tabu para eles, pois acreditavam no direito do homem decidir tanto a morte quanto a vida. O núcleo dessa filosofia, porém, é aguentar com resignação a dureza da existência, visto que a adversidade foge ao nosso controle.
Para eles toda a realidade existente era a Natureza que nossos sentidos apreendem e não havia autoridade superior à razão. Para eles, o que se entende por divindade é a ordem eu se encontra em tudo, como se Deus estivesse impregnado no mundo, ou fosse a consciência do mundo, ou seja, uma espécie de panteísmo.
Porém, a vida continua sem sentido assim como a existência do universo. E o homem nesse tempo viveu como bem queria, e as atrocidades continuavam, o mal se espalhando, a infelicidade dilacerando os corações, como sempre... O homem como um animal escravo de sua vontade.
Essa famosa pintura de Eugène Delacroix (1798-1863), "Hamlet e Horácio no cemitério", de 1839, ilustra a famosa passagem da obra shakesperiana em que é feita uma ilustração da brevidade da vida e do enigma da vida e da morte.

Mas nessa época, nascia e se expandia o cristianismo, a mensagem de Jesus Cristo que é exatamente contrária aos males do mundo. O homem, desesperado, reconhecer sua verdade. Hoje, o homem se esquece dela diante da diversidade e de impedimentos que ele mesmo põe a sua frente para seu conforto.
A confusão e as tragédias do Império Romano bem refletem como é a vida humana sem Jesus. Dependendo de nossas próprias filosofias, o mundo continuará desigual, opressivo e conturbado em sua totalidade, pela própria natureza humana. Mas dizemos que Jesus restaura e salva porque só a sua mensagem o leva a renascer. Uma moral salvadora, uma filosofia que se centra no outro, se baseia na paz, no amor, na tolerância e liberdade. Os ideais iluministas não eram invenções humanas, mas a apreensão dos valores de Cristo, que foram escondidos pela Igreja na Idade Média.
Levado a seu extremo, Jesus propunha uma “filosofia” superior a qualquer comunismo ou anarquismo, como mostra Liev Tolstoi (1828-1910) em seu livro O reino de Deus está em vós ou O cristianismo apresentado não como uma doutrina mística mas como uma moral nova. Apesar de tratar no anarquismo cristão, uma visão de mundo exótica para muitos, é uma leitura altamente recomendável por apresentar uma análise preciosa a mensagem cristã, e de como a História lidou com isso através do tempo.
O conhecimento globalizado de hoje deve ajudar o cristão a reconhecer o quanto a mensagem de Cristo é universal, fraternal, pacífica, , virtuosa, honesta e livre. A Igreja e os Estados esconderam a mensagem bíblica e a deturparam, mas ela se mantém intacta na Bíblia é uma mensagem de paz e amor universais, mas que não servem para confortar o homem, mas para corrigi-lo, educá-lo, transformá-lo. Muitas vezes a culpa é do próprio povo que, não se contentando, inventa para apavorar a si mesmo uma série de heresias, superstições, santificações, tendências pagãs, tudo isso desviando-os em relação ao caminho certo. O ser humano tende ao pecado e ao paganismo.
O Antigo e o Novo Testamento se completam maravilhosamente. Jesus e os apóstolos falam claramente de como sua graça veio substituir a antiga lei. A lei condena, e dela ninguém escapa, pois todos são pecadores, filhos deste mundo, não de Deus, e sendo assim só deveriam morrer. Mas é Cristo, o Salvador, que nos livra do peso da lei. Como livrar o culpado da dívida da lei? Somente com o pagamento, com o sangue sacrificial do próprio Deus Filho, o qual se fez Homem e Deus em Jesus, para morrer e ressuscitar, nos ensinando como podemos nos livrar da condenação: imitando-o. Ou seja, vivendo de piedade em lugar de vingança, morte e renascimento, cruz e ressurreição.
A antiga lei judaica era vingativa: (Gênesis 9:6), Êxodo 21:12,23,24,25), (Levítico 24:17,19,20), (Deuteronômio 19: 18,19,21). Jesus veio mudar tudo isso, proibindo o que era lícito. “Eu vos digo: não vos oponhais ao mal, não pagueis ofensa com ofensa, nem mesmo se deveis suportá-la novamente”.
A mensagem de Jesus contraria o mundo, por isso ele o rejeitou e o crucificou, e até hoje foge dela.
 O eterno questionamento que atravessa os séculos: "Ser ou não ser, eis a questão". A dúvida do homem perante a existência e sua dor. A obra Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616) ilustra bem essa situação. Memento mori: lembra-te de que morrerás.


Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.

De fato, sendo a filosofia o exercício do pensamento investigativo humano, buscando a exploração e entendimento do universo, assim como também fazem a ciência e a arte, embora de maneiras distintas, eu vejo que a religião é uma espécie de parente da filosofia, pelo fato de ser também uma interpretação do mundo, embora preenchida por misticismo. Muitas vezes andam de mãos dadas, brincam juntas e uma pode iluminar o caminho da outra. Um caminho seguro sempre é aquele que não é excludente, ou seja, considera os diferentes caminhos do conhecimento. Nem tanto ao céu nem tanto à terra, nem tanto platonista nem tanto aristotélico...
              É preciso reconhecer o Cristianismo não como uma religião de dogmas, mas como um caminho e uma moral nova. Só o caminho do amor que Cristo prega pode salvar: de nada importam as tradições e outros adereços que apenas realçam as diferenças entre os povos e servem de pretextos para seus preconceitos, lutas e dominações. De nada adiantam as variadas religiões do planeta, se não fazem com que alguém viva para o seu próximo.

1.      I - Deslumbrar-se com o mundo. Não conformar-se com o caos do ceticismo e da indiferença. Reconhecer que deve haver uma razão para a existência, um motivo para o ser, o viver, e para o anseio humano pela eternidade.
2.     II -  Procurar acima de tudo o bem, a felicidade e a verdade. Uma fé religiosa íntegra só pode ser firmada nesse tripé, de outro modo não passará de um dogma religioso vil e nocivo.
3.      III - Reconhecer a Deus, filosoficamente e intuitivamente. Pela razão, como pela solução do duelo das teorias de Heráclito e Parmênides e com Platão, além de outros raciocínios, pode-se reconhecer a existência de Deus. Pela intuição, temos o senso comum de divindade que está presente em todo o mundo e também o fato de até hoje Deus ser a única resposta que preenche de modo ideal a lacuna do eterno questionamento do “o que é ser e por quê somos?”.
4.      IV - Adotar, depois disso, a Deus como a Premissa irrefutável, quando Ele tornar-se indispensável à sua mente e coração, quando tudo passar a ser visto desse ponto.
5.      V - Analisar as Escrituras e compreender sua mensagem. São elas que nos apresentam o Deus cristão, que é o Deus pessoal e triúno que se encaixa à concepção filosófica de divindade, ao contrário de outros deuses. O seu concorrente, Alá, é vencido por suas próprias escrituras, que revelam uma fé que não se baseia na trindade referida no item 2, e sim uma ideologia que favorece a união e a expansão imperial árabe.
6.      VI - Não interpretar a Bíblia como um livro de ciências, mas interpretar o núcleo de suas mensagens, analisá-la como um todo e reconhecer a mensagem principal, que é o amor de Cristo.
7.      VII - Reconhecendo a suficiência e a verdade da mensagem de Cristo, simples e prática, mas profunda e restauradora, despertar a fé . Daí para frente vem a parte mais pessoal que existe. A conversão dependerá do reconhecimento de sua alma de Deus e da mensagem de Cristo, uma vez que chegamos usamos o pensamento racional e também o intuitivo para isso. Lembrar-se de que nenhuma determinação científica ou religiosa deve oferecer barreira ao reconhecimento da verdade de Cristo, que está acima de tudo isso, que é mutável.

“A alma é conhecida pelos seus atos” Tomás de Aquino (1225-1274).

Por quê, vocês acham, meus amigos, que eu me canso escrevendo e lendo tudo isso para expandir a fé cristã?       Se o ser humano é assim tão propenso à dúvida, com que motivação eu prego essa mensagem? Se há sempre tantas mudanças de pensamentos, ideias, culturas e posições, de que me adianta levar mais alguns a passar para o lado da fé cristã? Não estamos todos suscetíveis à conformarmo-nos com uma religião superficial e viver para nós mesmos? E que diferença há entre todas as religiões e filosofias, afinal? Há uma diferença; há algo que é tão precioso e tão difícil de perceber quanto as parábolas que Cristo contava e às quais poucos davam atenção e compreendiam.
O que livra alguém da morte, da decadência e corrupção inegáveis desta existência de dor não é nada mais que o amor a Deus e ao próximo, ou seja, é preciso viver para o outro, olhar para fora de si e para o eterno, para restaurarmos nossa alma.
É somente isso que salva, somente o amor de Cristo, nada mais. Que diferença há entre um cristão e um islâmico se em ambos não houver a chama da caridade e da compaixão? De que adianta viver irrepreensível em obras, orando quantas vezes for ao dia, esfolando os joelhos pagando promessas, atender a todas as exigências de pudor do momento histórico, esquentar o banco da igreja, dar o dízimo, se essas são apenas obras do exterior, dignas de um fariseu? Onde está a chama da fé que deve ser a causa de tudo isso? Se a chama está apagada, assim está a vida. E se a chama é apenas uma brasa que impede que nós frutifiquemos em obras, é porque é momentânea e mórbida.
Espero que as barreiras da dúvida relacionadas a supostas barreiras de ciência, etc, tenham sido postos fora do caminho para que somente a alma circule livremente e tome seu rumo. Ó, que Deus nos ajude a enxergar mais, a amar mais. Que rejeitemos, nós que somos orgulhosos e egoístas, a filosofia soberba do homem selvagem que busca sua glória e poder, a vingança e tudo o mais que é condenável. St. Agostinho de Hipona disse para Deus, “alarga a mansão do meu coração, para que eu enxergue como tu enxergas”.
O que você prefere, então? O caos eterno da dúvida, do ceticismo, da libertinagem, da soberba e do mal, consequências de uma vida guiada pela própria vontade humana, ou lado da bondade, do amor, da caridade, da compaixão, da igualdade, da justiça e verdade, ideias procurados e gradativamente alcançados por aqueles que vivem olhando para o céu? A escolha depende apenas da sua alma.
"Coro final", chamado de "coro místico" da Sinfonia "Fausto", de Franz Liszt (1811-1886), baseada na obra poética trágica do célebre escritor romântico alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), que conta a história de Fausto, que vende a alma ao demônio (Mefistófeles), em troca do sucesso na vida terrena.
Original German
English Translation

Alles Vergängliche
ist nur ein Gleichnis;
das Unzulängliche,
hier wird's Ereignis;
das Unbeschreibliche,
hier ist es getan;
das Ewigweibliche
zieht uns hinan.

Everything transitory
is only an approximation;
what could not be achieved
here comes to pass;
what no-one could describe,
is here accomplished;
the Eternal Feminine
draws us aloft.