domingo, 19 de junho de 2011

Tout est possible à celui qui croit

Movimento I da Sinfonia Nº 9 "Do Novo Mundo" do compositor tchecoslovaco Antonín Dvorák (1841-1904).

            A mensagem desta postagem parte da passagem bíblica de Marcos, capítulo 9, do versículo 1 ao 29, que encerra dentro da cadeia de humanas palavras uma mensagem sagrada e sobre-humana. Recomendo a rápida leitura dessa passagem antes de ler essa breve postagem, a qual se baseia em uma pregação protestante francesa que ouvi (com a tradução de meu irmão) numa manhã de domingo.
A primeira parte relata a transfiguração de Jesus. Subindo a um alto monte com Pedro, Tiago e João, Jesus transfigurou-se diante deles, “e as suas vestes tornaram-se resplandecentes, em extremo brancas como a neve, tais como nenhum lavadeiro sobre a terra as poderia branquear”, de modos que os três se maravilharam e se assombraram com aquela demonstração de glória e santidade.
Descendo do alto monte, retornaram a planície, onde voltaram às coisas terrenas, e onde presenciaram outro tipo de transfiguração, a do menino endemoninhado/epiléptico. Duas verdades convivendo juntas, a confiança e esperança do bem divino e a certeza da presença do mal terreno. De um lado, nas alturas do monte, a glória de Jesus, e de outro, o sofrimento da uma criança doente caminhando para a morte e um pai desesperado.
Nenhum discípulo conseguia curar o menino, e isso os frustrava e diminuía mais ainda as esperanças do pai. Não seria insensibilidade da parte de Jesus responder a ele: “Se tu podes crer; tudo é possível ao que crê”? Essa afirmação, ao mesmo tempo em que expande enormemente o poder da fé, restringe o seu campo de ação, à medida que tomamos conta do quanto somos pouco crédulos.
“E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade.” Aqui parece haver uma contradição. Ora o homem diz crer, mas logo em seguida parece confessar o contrário. De fato, o que acontece é que ele deseja confiar mais, e reconhece o quanto duvida. Todavia, isso bastou para que Jesus livrasse o menino de sua doença.

Segundo movimento da sinfonia.

Vemos que a fé realizou um milagre. O que o levou a receber isso de Cristo foi sua confissão da fraqueza e seu clamor por confiar mais. O milagre da fé é o quê? Não é resultado de uma crença intelectual, tradicional, baseada na regência do relógio e da agenda, ou uma verdade aceita com conforto, um dogma simplesmente abraçado, como um ornamento.
Nessa vida tão dinâmica, nos colocamos diante de tantas situações diversas que somos levados muitas vezes a dizer “sim” a tudo, sem saber por quê. O mesmo acontece com a religião. Sendo passada teoricamente de pai para filho, ela funciona muitas vezes como uma gramática aborrecida, herdada dos tempos de quase total analfabetismo medieval, sendo hoje um fardo para tantos alunos.
Sabe-se agora que o segredo para se aprender uma língua é principalmente o desenvolvimento da leitura e também o diálogo, sendo a gramática apenas uma formalização de regras para consulta, embora nas escolas ela seja o principal. Na religião ocorre o mesmo: muitos se apegam às teorias, mas desconhecem a prática.
A simples gramática pode trazer sucesso em algumas provas, mas a falta de leitura compromete no vestibular. O mesmo acontece com o cristianismo: embora possamos nos conformar a uma crença fria e meramente intelectual, na vida isso não trará fruto. Isso não faz nenhum milagre.
O milagre da Vida não é resultado de uma formalidade, nem de uma promessa ou exigência de sucesso. Muitas igrejas hoje prometem riquezas terrenas como salário por um agraciamento de Deus com orações, frequência nos cultos e dízimo, ou seja, aproximam o paganismo dos ignorantes da verdadeira mensagem.
O milagre da salvação é consequência do crer na bondade de Deus e do desejo de se juntar a Ele: isso é Fé. A fé não cai com dúvida de nenhuma espécie, seja científica, histórica ou até mesmo teológica, pois ela faz parte da vida do crente.
É da opinião já de muitos ateus e crentes que crença e fé possuem uma grande diferença. São duas coisas distintas, embora um tanto próximas. É antiquada a ideia de que a ciência determine a crença ou a descrença, pois isso é muito relativo e vago. Crer ou não é muito mais filosófico e intuitivo (pessoal), do que a maioria pensa. Por isso a salvação é pessoal. A dúvida é como a dor de um estômago que pede alimento para que o corpo cresça. Quase todos possuem uma crença, o que não é difícil de se obter. É natural do homem. O difícil é ter fé, coisa bem diferente.
Diferentes dúvidas são derrotadas por diferentes caminhos. Uma das maiores barreiras ao cristianismo para os não crentes é a forma como eles abordam a mensagem religiosa. Se seus desejos entrarem em confronto com as questões periféricas da mensagem, não conseguirão atingir o centro. Mas se primeiro atingirem o centro, encontrarão a posição estratégica ideal para vencer a guerra.
A.W. Tozer, um grande evangelista estadunidense, escreveu “À Procura de Deus”, um de seus livros mais famosos, onde mostra biblicamente que fé significa “olhar” para Deus, ou seja, crer n’Ele, amá-Lo, buscá-Lo, e em consequência realizando as obras: obedecê-Lo, amar ao próximo como a si mesmo, e procurar progredir. Essa análise já basta para acabar com a antiquada contradição entre fé e obras para a salvação, que ajudou a dividir protestantes e católicos. Fé sem obras é fé morta, apenas uma crença; obras sem fé é corpo sem vida, uma estátua, uma inutilidade.

Quarto movimento da sinfonia.

No último versículo dessa passagem, Jesus responde à pergunta dos discípulos do porquê de não terem conseguido livrar o menino, dizendo que um mal daquele tipo só sai com oração e jejum. O que isso significa? Oração e jejum são exercícios da fé, ou seja, promovem uma comunhão, uma troca, interação com Deus. Assim, ele nos mostra a importância da oração. Tudo é possível para aquele que crê.
A fé é uma gestação eterna: nunca está pronta, acabada. Ela acabará fraca e morta se viver de convenções, regras, sem a intimidade espiritual. Tozer em “`À Procura de Deus” fala daqueles crentes que sentem um ardente desejo de conhecer a Deus mais de perto, vivenciar uma verdadeira comunhão, e os convida a ler o livro. Também fala daqueles exemplares devotos que chegaram a tal maturidade espiritual que sentiam conversar com Deus a todo momento, como numa música que não acaba, mesmo realizando as mais comuns atividades.
Se colocar diante de Deus não significa estar sempre apto a falar com Ele: às vezes as palavras não vêm na oração ou não expressam os desejos da alma. Às vezes basta estar ao lado de Deus. Fechar a porta do quarto escuro, ajoelhar do lado da cama e antes de dormir, elevar o pensamento para além do mundo. Expressar gratidão, clamar, como o pai do menino epiléptico, como o rei Davi em seus muitos salmos, para que Deus ouça a súplica de quem n’Ele confia e lhe responda. Buscar antes de tudo a virtude e a salvação, orar por aqueles que amamos – e também por aqueles que nos odeiam.
A fé pode se enfraquecer, mas ela se ergue com o desejo de crescer. O milagre da salvação parte de cada coração: é um dos mistérios divinos. Assim como havia aqueles que entendiam as parábolas de Jesus, e as acolhiam na alma, havia aqueles que o achavam louco, endemoninhado ou insensato. Depende de você, amigo leitor, reconhecer neste Universo a Deus, e querer conhecê-Lo. Eis o começo da jornada, longa jornada.
Dizemos que a fé nos sustenta, mas há momentos em que precisamos sustenta-la, com vigilância e trabalho. Precisamos afastar os inimigos da fé: a vaidade, o orgulho, os ímpetos do instante, os perigos interiores, os desejos, e exteriores, deste mundo arrogante, violento e tagarela.
A fé é como uma criança que não para nunca, e sendo assim repele nossos compromissos e formalidades, como algumas são rebeldes e temerárias. Necessita de cuidados e é a prioridade e maior preciosidade para seus pais, cujas vidas giram em torno dela. Eis uma das mais belas descrições da fé.
Para encerrar, apresento uma profissão de fé:
“Eu creio que sou ajudado por um Pai, um Pai que nunca vi, que me oferece liberdade, e sempre a dará. Sou também ajudado por um Pai que nos faz ver seu amor invisível. Sou ajudado por um Filho que nos ensinou o valor da morte: dos nosso maus hábitos, maus pensamentos, da antiga vida. Ele nos convida a viver como fragmentos da eternidade. Ele veio para dar ao mundo decadente um novo fôlego, para curar nossas almas. Ele nos ajuda para que o amanhã nunca seja como hoje, com a paciência do seu amor. Que cada um de nós atinja a bênção particular que Deus reserva para cada um. Que sua mão nos guie e abençoe, a nós e a nossos parentes e amigos, hoje e sempre”.
(O link da pregação em francês em que me baseei para essa postagem:   )
"Media vita in morte sumus" (No meio da vida estamos em morte), de John Sheppard (1518-1558).

Media vita in morte sumusIn the midst of life we are in death
Quem quaerimus ad iutorem nihi site domineWhat helper do we seek except you, oh Lord
Qui pro peccatis nostrisYou who for our sins
Chorus:Chorus:
Sancte Deus, sancte fortisHoly God, holy and powerful
Sancte misericor salvatorOh holy compassionate savior
Amare mortis ne tradas nosDo not give us over to the harshness of death
In te speraverunt patres nostriIn you our fathers placed their hopes
Speraverunt et liberasti eosThey placed their hopes and you freed them
(Chorus 2x)(Chorus 2x)
Media vita in morte sumusIn the midst of life we are in death

sábado, 18 de junho de 2011

But thou, thou meagre lead, wich ratter threaten'st than dost promise aught, thy paleness moves me more eloquence, and here choose I.

Introit
William Shakespeare (1564-1616), o maior dramaturgo de todos os tempos, bem como um dos maiores escritores da História. Mudou o rumo da literatura e tornou-se um dos maiores ícones da arte. Sua obra é extensa e cheia de profundidade. Viveu nos tempos da rainha Elizabeth I da Inglaterra.

Vivemos em tempos difíceis. Ser cristão hoje é pesado, um desafio; aliás, sempre foi. Nunca o verdadeiro cristão deixará de ser reconhecido pela cruz pesada que carrega nos ombros.
                Não quero amedrontar e afastar os novos cristãos ou os pretendentes à fé com uma mensagem apocalíptica, de mártir ou conflitante, mas sim me preocupo em levá-los a atingir a essência da fé, reconhecer a Deus como a grande Verdade, a Premissa irrefutável, aquele que a tudo dá razão e que rege nossas vidas.
                Saindo da alienação da descrença, o convertido, quanto mais derrota a dúvida – e assim fortalece seu corpo espiritual – mais enxerga a luz maravilhosa dessa verdade, desse olhar constante a Deus, recebendo sua graça, que se chama fé.
                Fé, algo muito maior que simplesmente acreditar. É o caminho para a vida. O meu maior desejo para os mais próximos dos meus próximos, isto é, para meus amigos, é que, se ainda não o fizeram, que saiam um dia da margem da compreensão e enxerguem de fato essa luz, essa verdade, essa certeza indubitável que é Deus e sua Palavra, de modo que, no dia em que passarem a experimentar essa comunhão, se Deus quiser, nunca se desviarão desse que é o único caminho para a Vida.
                Meu grande desejo é que possamos crescer em fé e comunhão com Cristo, seguindo seus passos, vencendo os desafios, vivendo para o outro, e não para nós mesmos, buscando as virtudes, sujeitando nossa vontade à vontade divina, corrigindo-nos e buscando melhorar, progredir, fazer o bem ao próximo, viver em amor, e louvando a Deus e agradecendo, jubilosos, por tudo. É reconhecer no Universo uma Razão, saber que existe o nosso Pai, que tudo rege e que aqui estamos para sermos justificados e viver por fé, pois só assim será separado o joio do trigo, ou seja, os que merecem o perdão e a vida eterna, e os que merecem a condenação justa e necessária.
Tamanho segredo o homem só entende de forma ilustrativa: para isso, as parábolas... Não queira o homem compreender e saber de tudo, pois há respostas que estão além de nosso alcance. Mas essa é a mensagem da Palavra, a qual fez-se carne, em Jesus, pois “o verbo se fez carne”. Jesus, aquele que não batiza com água, mas com o Espírito Santo.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens;
a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela.
Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.
Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele.
Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo.
Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu.
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus;
os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai.” João 1.1-14.

               Esta postagem tem como programa a análise de trechos da obra teatral O Mercador de Veneza, comédia do célebre William Shakespeare (1564-1616). Lembrando que comédia nesse caso não se refere a humor, mas a um gênero teatral. Sendo uma de suas obras mais famosas, é uma história de deliciosa leitura, cheia de poesia, beleza, enredo intrigante, análises da pisque humana e da sociedade, bem como críticas muito sutis, entre outras virtudes literárias shakespearianas.
               Andei refletindo tanto em cima disso que resolvi fazer uma postagem de qualidade, é claro, relacionando isso ao tema oficial deste blog, que diz respeito a, digamos, não somente de religião, mas de princípios, caminhos, um pouco de filosofia, moral e fé, etc.
Sem mais delongas, vamos direto ao assunto, digo, aos textos.

“The Comical History of the Merchant of Venice, or Otherwise Called the Jew of Venice”

Provavelmente o leitor conhece a história de O Mercador de Veneza, de Shakespeare. Caso contrário, tens aqui uma sinopse sucinta.
Era uma vez Antônio, um mercador de Veneza, cristão, e por isso condenava a prática judia da usura, como proibia a Igreja Romana. Sendo assim, era grande opositor de Shylock, um judeu que vivia dessa prática. Sendo os judeus discriminados e vivendo em guetos, de dia saíam com gorros vermelhos para serem identificados. Shylock era vítima de humilhações por parte de Antônio, o qual sempre se interpunha em seus negócios.
Vale lembrar que, apesar desse grande defeito, Antônio era devoto e um dos homens mais admirados da cidade, e tinha grandes amigos, o maior deles, Bassânio, que lhe era como um irmão, ou talvez, melhor dizendo, como um filho.
Shylock decide vingar-se de Antônio ao aproveitar-se da necessidade financeira de Bassânio, que precisava de recursos para viajar até Belmonte, a ilha onde morava Pórcia, uma rica herdeira, belíssima, que esperava que um pretendente cumprisse o desafio que seu falecido pai estabelecera para lhe arranjar um marido valoroso. Muitos homens tentaram e erraram, e Bassânio muito queria tentar.
Antônio, que emprestava direito sem juro, e tudo fazia por seu amigo, selou um acordo com o judeu, visto que suas riquezas, estando todas em vários navios ainda em viagem de volta, não podia pagar imediatamente. Foi assinado um acordo em que, se Antônio não pagasse no dia exato após três meses, o judeu teria direito de cortar uma libra de sua carne de onde ele quisesse, no caso, perto do coração. Antônio, confiante, não reconheceu o plano de vingança de Shylock.
Bassânio vai a Belmonte, e vence o desafio que muitos homens não foram capazes de vencer. Junto dele foi seu amigo falador Graciano e também Lourenço, o qual fugiu com Jéssica, a filha do judeu, a qual odiava a vida que tinha com o pai e quis se casar e tornar-se cristã. Bassânio, tendo de escolher entre três baús: um de ouro, outro de prata, e outro de chumbo, cada qual com uma mensagem de fora, e uma sentença por dentro, ao contrário de todos os outros pretendentes não escolheu o ouro nem a prata, mas o chumbo, e assim ganhou direito a se casar com Pórcia. Tudo isso, parecendo simples na sinopse, é na verdade uma grandiosa passagem cheia de poesia e belos pensamentos.
Na alegria do casamento, antes da cerimônia e da noite de núpcias, o casal recebeu uma carta de Antônio, avisando que perdera todos os seus carregamentos, e que o prazo iria expirar sem que pudesse pagar o que devia, estando condenado ao castigo. Pedia que Bassânio o visse uma última vez antes de morrer.
Bassânio e os outros retornam imediatamente após a breve cerimônia do casamento, e Pórcia e Nerissa, sua dama de companhia, ficam (a princípio). Já na cena do julgamento, Pórcia e Nerissa aparecem fantasiadas de doutor e escrivão. Pórcia, apesar de iletrada, soube livrar Antônio do seu castigo, apesar de o judeu se apresentar irredutível, impiedoso, mesmo diante de súplicas, brigas e do padecimento de Antônio. Perante o doge de Veneza, Pórcia fez com que Shylock fosse prejudicado pela sua própria vingança, perdendo quase tudo e sendo obrigado a tornar-se cristão.
O resto não importa que eu relate aqui, mas o final foi feliz para todos, menos para Shylock, no caso, o vilão da história. Outros detalhes e informações abreviei ou omiti, pois não importam aqui. Recomendo a leitura dessa obra, se possível no inglês original “elizabetano”, mesmo que para isso seja preciso tempo, paciência e cuidado para a boa compreensão. Em diante, esclarecerei e abrirei várias questões.

Vídeo com a música "With Wand'Ring Steps", de Jocelyn Prook, da trilha sonora do filme O Mercador de Veneza, estrelando Al Pacino como Shylock e Joseph Fiennes como Bassânio.


Ato I, Cena I.
“GRACIANO – Signior Antônio, pareceis doente. Preocupai-vos demais com este mundo. Perda de vulto é tudo o que nos custa tantos cuidados. Podeis dar-me crédito: mudastes por maneira extraordinária.
ANTÔNIO - O mundo, para mim, é o mundo, apenas, Graciano: um palco em que representamos, todos nós, um papel, sendo o meu triste.
GRACIANO - O de bobo farei. Que entre folguedos e risadas as velhas rugas cheguem. Prefiro o fígado aquecer com vinho, a esfriar o peito com gemidos lúgubres.
(...)
ANTÔNIO - Que sentido há em tudo isso?
BASSÂNIO - Graciano fala sempre uma infinidade de nadas, como ninguém em Veneza. Suas ideias razoáveis são como dois grãos de trigo perdidos em dois alqueires de palha: gastais um dia inteiro para encontrá-los; mas, uma vez achados, não compensam o trabalho.” 

Veremos à frente melhor ainda como Graciano se mostra o jovem irascível, falador, insensato, embora não totalmente, é claro. Temos trechos que revelam isso, o que mostra que suas falas não são a opinião do autor. Há trechos em que se fala mal dos judeus como um todo, mas é preciso reconhecer que Shakespeare retratava a visão dos cristãos na época, visão compartilhada por toda a Europa, a qual era dominada pela Igreja Romana, sendo que a sua opinião, se se revela, ocorre nas falas do próprio judeu, quando mostra sua condição de discriminado e quando mostra que suas atitudes são uma reação aos ataques da sociedade.

Ato IV, Cena I.
“GRACIANO - Oh! Sê maldito, inexorável cão, e que a justiça seja acusada, só por teres vida. Quase me fazes abalada a crença, para aceitar a idéia de Pitágoras, de que as almas dos brutos passar podem para o corpo dos homens. Teu espírito de cão é governado por um lobo enforcado por crime de homicídio. A alma nefanda, ao se escapar da forca, entrou em ti, quando no ventre estavas de tua mãe maldita. Eis o motivo de só teres instintos sanguinários, ferinos, esfomeados e vorazes.
SHYLOCK - Se não consegues desfazer o selo de minha letra, por gritares tanto só cansas os pulmões. Cura esse espírito, mocinho, se não queres que apodreça. Só vim aqui para impetrar justiça.”

Os nazistas, infelizmente, com a capacidade humana de enganar e tapar a mente do outro, usou essa obra para pregar a visão dos judeus como vis, sendo que na verdade ela critica e analisa a condição desigual e injusta em que se encontram. 
A análise psicológica do homem e da sociedade que Shakespeare realizou sutilmente está clara nos trechos seguintes:

Ato I, Cena III.
“ANTÔNIO - Então, Shylock, assumimos convosco esse contrato?
SHYLOCK - Signior Antônio, quantas, quantas vezes lá no Rialto fizestes pouco caso do meu dinheiro e de eu viver de juros! Suportei tudo sempre com um paciente encolher de ombros, pois o sofrimento é apanágio de toda a nossa tribo. De tudo me chamáveis: cão, incrédulo. degolador, além de me escarrardes neste gabão judeu, e tudo apenas por eu usar o que me pertencia. Ora bem; mas agora está patente que precisais de mim. Ótimo! Avante! Vindes buscar-me e me dizeis: "Shylock", dizeis-me "precisamos de
 dinheiro". Vós, que esvaziado havíeis toda a vossa saliva em minha barba e me expulsáveis a ponta-pés, tal qual como faríeis a um cão postado em frente a vossa porta, solicitais dinheiro. Que vos devo responder neste instante? Deveria perguntar-vos: "Cachorro tem dinheiro? Será possível que um cachorro empreste a alguém três mil ducados?" Inclinar-me devo até ao chão e, em tom de voz de escravo, humilde a murmurar, quase sem fôlego, dizer assim: "Na última quarta-feira, caro amigo, cuspistes-me no rosto; noutro dia, chamastes-me de cão; e em troco dessas cortesias, preciso ora emprestar-vos tanto dinheiro assim?"
ANTÔNIO - Ainda agora pudera novamente dar-te o nome de cão, de minha porta tocar-te a ponta-pés, cuspir-te o rosto. Se queres emprestar-nos teu dinheiro, não o faças como a amigos - em que tempo a amizade cobrou do amigo juros de um metal infecundo? - antes o empresta como a teu inimigo, pois no caso de vir ele a faltar com o pagamento, com mais alegre rosto hás de extorquir-lhe tudo o que te dever.”

Ato III, Cena I.
“SALARINO - Ora, tenho certeza de que se ele não a resgatar no prazo certo, não haverás de tirar-lhe a carne, pois não? Para que te serviria ela?
SHYLOCK - Para isca de peixe. Se não servir para alimentar coisa alguma, servirá para alimentar minha vingança. Ele me humilhou, impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios, fez que meus amigos se arrefecessem, encorajou meus inimigos. E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda.”


Ato IV, Cena I.
“DOGE -Alguém daí introduza o judeu logo na sala.
SALARINO - À porta já se encontra. Aí vem, senhor.
(Entra Shylock)
DOGE - Afastai-vos, porque ele ficar possa diante de nós. Shylock, o mundo pensa, e eu também como todos, que tencionas persistir nessas provas de crueldade somente até à última hora do processo, depois do que, se diz, irás mostrar-nos doçura e consideração mais raras do que esse gesto de crueldade inculca.
Em vez de, agora, a multa reclamares - uma libra de carne deste pobre mercador - não somente vais dizer-nos que o castigo dispensas, como, ainda, levado pelo amor e o sentimento de humanidade, perdoarás metade da dívida, atendendo às grandes perdas que pesaram sobre ele ultimamente, perdas capazes de deitar por terra um mercador real, e compassivos de sua desventura deixar peitos de bronze e duros corações de pedra de turcos inflexíveis e de tártaros às práticas estranhos do serviço da meiga cortesia. Ora aguardamos resposta branda; todos nós, judeu.
SHYLOCK - Já expus a Vossa Graça o que pretendo, como jurei por nosso santo Sábado cobrar o estipulado pela multa. Se mo negares, que com o risco seja das leis e liberdades de Veneza. Decerto haveis de perguntar-me a causa de eu preferir um peso de carniça a ter de volta os ricos três mil durados.
E então? Se um rato a casa me estragasse, e para envenená-lo eu resolvesse gastar dez mil ducados? Não vos basta semelhante resposta? Há muita gente que não suporta ouvir grunhir um porco; outros, ao ver um gato, ficam loucos; e outros, ainda, que ao fanhoso canto da cornamusa a urina não retêm. É que a impressão, senhora dos instintos, vos faz odiar ou amar, como apetece. Para voltarmos ao que perguntastes, vos direi que assim como não podemos apresentar razão satisfatória da antipatia de um pelo grunhido do porco, da daquela pela vista de um gato necessário e inofensivo, da do outro pela inflada cornamusa, sendo força cedermos ao opróbrio inevitável de ofendermos, quando nos virmos ofendidos: de igual modo, não sei de outra razão, nem saber quero, se não for o ódio inato e a repugnância que Antônio me desperta e que me leva a persistir assim numa demanda tão onerosa. Dei-vos a resposta?
BASSÂNIO - Isso não é resposta, homem de pedra, que justifique a tua crueldade.
SHYLOCK - Não tenho obrigação de ser amável no que te responder.
BASSÂNIO - Acaso a morte dão os homens a tudo o que não amam?
SHYLOCK - E quem não mataria quanto odeia?
BASSÂNIO - Nem toda ofensa, de princípio, é ódio.
SHYLOCK - Como! Consentirias que uma serpe te picasse duas vezes?

Embora nessa comédia o judeu cumpra o papel do vilão, servindo para uma lição moral, ele também é uma vítima. Seu desejo de vingança é totalmente humano, aliás, pecaminosamente humano, assim como a atitude de Antônio, cristão devoto, em relação a ele. Ambos cometeram erros. O notável é que Shylock fez algo ainda pior que Antônio, de modo que no final, Antônio, depois de sofrer, ainda foi capaz de oferecer um perdão ao judeu, como se tivesse, então aprendido a lição, e o outro acabou vendo-se frustrado e com o seu ódio conservado.

Ato III, Cena II
“PÓRCIA - É o vosso caro amigo que se encontra num apuro tão grande?
BASSÂNIO - O mais querido dos meus amigos, o homem mais bondoso, o coração mais belo e sempre pronto para prestar serviços, na pessoa em que a honra dos romanos se revela mais pura do que em todos os que vivem nestes dias na Itália.”

Bem sabemos que o erro do mercador foi agir de modo anticristão, sendo um cristão devoto: enquanto Jesus andava com os desfavorecidos e pregava a igualdade, a tolerância, o não julgamento, ele discriminava, ofendia e judiava.
Por outro lado, devemos reconhecer que ele, assim como todos os europeus da época, cresciam ouvindo os ditames da Igreja Romana, a qual, tendo estabelecido seu poder equivalente ao poder imperial no século IV, e expandindo seu poder por toda a Europa na Idade Média, queria mantê-lo sempre, e no século XVI ainda tinha enorme poder. Como os judeus não se sujeitavam à sua autoridade, a Igreja os discriminou e os condenou, de modo que desde muito sofreram perseguições. Em lugares como Veneza eles eram tolerados pela sua importância econômica. Antônio era mais um homem que agia mal pensando fazer o certo, nem por isso, é claro, deixando de errar. Bom que ele pagou por isso, mesmo não sendo torturado e morto, mas padecendo algo bem próximo daquilo que Jesus sofreu antes de ser crucificado, quando chegou a suar sangue, temendo a dor que certamente iria enfrentar.
Sabemos que a Igreja Romana, bem como muitas outras igrejas até hoje, vem realizando deturpações de modo a incutir seus desígnios e sua autoridade. Mas a mensagem de Jesus é de humildade, simplicidade, mansidão, virtude, e não de enganação e distorção, que conduzem o povo para longe da verdade.
Já Shylock, embora tenha, é claro, também sido vítima do meio, desejando vingança pelos seus maus tratos, mostrou de que era realmente feito seu coração.. É no extremo que conhecemos a alma. É na provação que reconhecemos o amigo, o inimigo, o bom e o mau. Shylock, enquanto suportava sua sina, como um Cristo, parecia irrepreensível, mas quando teve a oportunidade, não mostrou misericórdia: quis saciar seu ódio reproduzindo sua ofensa no outro, ou seja, ele alimentou um ódio tão grande, que só teria paz num prazer sádico.
Existe alguma virtude na vingança? Há virtude em suportar o sofrimento, mas contentar-se em repetir o mal para se satisfazer é mostrar merecimento do mesmo ódio. A vingança vem do instinto selvagem e pecaminoso do homem, e por isso deve ser combatida. A reação de Shylock não acabaria com mal algum, mas sim com a vida de um ser humano. Não se paga o mal com o mal, a não ser que se queira multiplica-lo, e perder sua alma.

Ato III, Cena II.
“SALÂNIO - Nenhum, senhor. Além do mais, parece que se Antônio tivesse o necessário para o judeu pagar, não consentira este em receber nada. Não vi nunca uma criatura sob a forma de homem que revelasse tão feroz empenho em desgraçar um homem. Noite e dia reclama junto ao doge, protestando contra essa violação da liberdade, se lhe negarem o que a lei concede. O próprio doge, vinte mercadores, os senadores de maior prestígio tentaram persuadi-lo, sem que nada conseguisse do pleito demovê-lo tão odioso, baseado na justiça, numa letra vencida e numa multa.
JESSICA - Quando eu estava em casa ouvi quando ele jurou diante de Chus e de Tubal, seus compatriotas, que não abriria mão da carne de Antônio nem que fosse por vinte vezes o valor da dívida. E eu sei, senhor, que se as autoridades, a lei e a força não se interpuserem, muito mal vai ficar o pobre Antônio.”

A recusa de Shylock perante a recompensa no julgamento mostra que seu único desejo era deliciar-se na vingança. Mostrou-se insensível diante do discurso de Pórcia sobre a nobreza do perdão, da virtude da misericórdia; não se sensibilizou diante do amor prestado pelos amigos de Antônio naquele derradeiro momento, do pranto que causaria, e só se contentou com a tortura que teve início a partir do momento que foi noticiada a perda dos navios. Por mais que tenha sido vítima, a reação de Shylock justificou o seu sofrimento.
O leitor, sabendo do desfecho do judeu, vê o que ganha o homem vingativo. Shylock encontrou-se em uma situação muito pior por causa desse seu desejo cruel. O leitor deve pensar que eu esteja defendendo uma vida sem reação, como se o homem fosse forte o suficiente para viver como o verdadeiro cordeiro. Só houve um Cordeiro, Jesus. Nós não devemos nos sujeitar ao mal do outro, mas não reagir com vingança: deve-se pagar o mal com o bem. Isso se chama sabedoria. O estulto não lhe dá ouvidos, embora a sabedoria clame na esquina. O sisudo a reconhece.
Antes que alguém se levante indignado, digo que este julgamento não se baseia no fato de um ser cristão, e o outro judeu: isso não importa nesse caso, não altera o julgamento, o qual se baseia somente nas ações. Vemos que a vingança implacável é fruto de uma alma cruel, mais rígida que a de um fanático que seguia com austeridade e exagero as determinações enganadoras da Igreja Romana da época, ainda mais no contexto do desfecho.



Talvez a passagem mais valiosa e bonita de toda a obra seja o discurso de Pórcia no julgamento, quando fantasiada de doutor, julgando o caso:

Ato IV, Cena I
“PÓRCIA - É, pois, preciso que o judeu se mostre clemente.
SHYLOCK - Constrangido por que meios, não podereis dizer-me?
PÓRCIA - A natureza da graça não comporta compulsão. Gota a gota ela cai, tal como a chuva benéfica do céu. É duas vezes abençoada, por isso que enaltece quem dá e quem recebe. É mais possante junto dos poderosos, e ao monarca no trono adorna mais do que a coroa. O poder temporal o cetro mostra, atributo do medo e majestade, do respeito e temor que os reis inspiram: mas a graça muito alto sempre paira das injunções do cetro, pois seu trono no próprio coração dos reis se firma; atributo é de Deus; quase divino fica o poder terreno nos instantes em que a justiça se associa à graça. Por tudo isso, judeu, conquanto estejas baseado no direito, considera que só pelos ditames da justiça nenhum de nós a salvação consegue.
Para obter graça todos nós rezamos; e é essa mesma oração que nos ensina a usar também da graça.Quanto disse, foi para mitigar o teu direito; mas, se nele insistires, o severo tribunal de Veneza há de sentença dar contra o mercador.”

Ato I, Cena II.
"(Belmonte. Um quarto em casa de Pórcia. Entram Pórcia e Nerissa.)
PÓRCIA - Por minha fé, Nerissa, este mundo grande cansa-me o pequeno corpo.
NERISSA - Isso se daria, estimada senhora, se vossos incômodos fossem tão numerosos quanto vossas venturas. Aliás, por tudo quanto vejo, tanto se adoece por comer em excesso como por definhar à míngua. Não é, por conseguinte, ventura despicienda encontrarmo-nos em uma situação mediana. A superfluidade chega mais cedo aos cabelos brancos, mas a modicidade vive mais tempo.
PÓRCIA - Belas sentenças e ótima dicção.
NERISSA - Melhores ainda seriam as sentenças, se fossem postas em prática.
PÓRCIA - Se fazer fosse tão fácil como saber o que se deve fazer bem, as capelas teriam sido igrejas e as choupanas dos pobres, palácios principescos. Bom predicador é o que segue suas próprias instruções.
É-me mais fácil ensinar a vinte pessoas como devem comportar-se, do que ser uma das vinte, para seguir a minha própria doutrina. O cérebro pode inventar leis para o sangue, mas os temperamentos ardentes saltam por cima de um decreto frio. A senhorita loucura é uma lebre que pula por sobre a rede do bom conselho, o coxo. Mas esse raciocínio é inadequado para ajudar-me na escolha de um marido. Mas, ai de mim! "Escolha" é modo de dizer. Não está em mim nem escolher quem eu desejara, nem recusar quem me desagradar. Desse modo, dobra-se a vontade de uma filha viva ante a de um pai morto. Não é duro, Nerissa, não podermos escolher nem recusar ninguém?
NERISSA - Vosso pai foi sempre virtuoso, e as pessoas assim pias ao morrerem têm inspirações felizes. Por isso, a loteria concebida por ele, dos três cofres, de ouro, prata e chumbo, com a afirmativa de que quem escolhesse segundo o seu modo de pensar vos escolheria também, sem dúvida alguma só poderá ser ganha por quem vos ame verdadeiramente. Mas a que ponto vos sentis inclinada para qualquer dos pretendentes principescos que já se fizeram anunciar?"

A expressão da visão do verdadeiro cristianismo: é Cristo que fala pela voz da jovem Pórcia, cuja beleza só é medida pela inteligência e só é superada pela do coração. Ela, iletrada, porém sábia em espírito, simples e valorosa como o baú de chumbo que guardava seu retrato.

Veja, leitor, como este assunto retoma o da introdução dessa postagem, que parecia tão adversa ao tema central. Perceba a ironia destes dias, dias finais, dias apocalípticos: os cristãos são discriminados pelos seus próprios irmãos de fé. O cristianismo vem sendo intensamente deturpado desde o século IV (mas graças a Deus, também preservado em sua essência e difundido...), e hoje convicção e devoção tornaram-se sinônimos de fanatismo. Pregar abertamente contra a vingança hoje faz com que todos ao redor te olhem como se estivesse a dizer palavras feias e ofensivas (o que, caso você fizesse, causaria, ao contrário, risos), como se estivesse a fazer um discurso subversivo. Realmente, não só nesse caso, nesse exemplo, mas em vários outros, o exercício da cristandade é subversivo ao mundo, pois este mundo está caído em mãos perversas, não em mãos santas.
Não digo de modo algum que o cristão deva se culpar pela imperfeição, mas sim que não é bom, não é proveitoso e seguro, viver a os dias e dias sem combater o desejo de vingança, o qual apenas adormece em nós, que estamos na normalidade, mas que se estivéssemos no extremo, poderíamos deixar nos enlouquecer. Há cristãos que confessam que fariam o mesmo que Shylock. Se assim confessam, parabéns pela honestidade, mas que se policiem e procurem corrigir isso, aos poucos, porque Deus conhece o fundo de nossos corações e nos julgará da mesma forma que julgamos os outros. Não poderemos reclamar misericórdia se não a tivermos com o outro.
Percebe, leitor, que este meu discurso difere muito do discurso da Igreja de Roma do séculos XVI? Pois este discurso na verdade não é meu, e sim de Jesus. Estou apenas copiando-o, reproduzindo-o de outros modos. O discurso “subversivo” e “fanático” que eu lhe ofereço, amigo leitor, é o discurso de Jesus: sua subversão é a de amar ao próximo e não devotar adoração ao imperador Ego, e seu fanatismo é buscar melhorar e lutar contra o mal natural, mesmo contra nós mesmos, o que é para poucos, e por isso, visto como exagero pela maioria. Mas esse fardo é leve, porque doce e eterna é a recompensa, e antes disso, belo e maravilhoso é o trajeto de andar e se aventurar os passos de Cristo!
Esta escrito que o cristão sofre por Cristo, e isso vem sendo cumprido desde o início da era cristã. Os cristãos mais valorosos foram os que mais sofreram. Não foi um Antônio, tão “devoto”, que alcançou as melhores posições, mas um São Francisco, que largou sua rica casa na Itália, para viver na pobreza, e tantos outros que foram perseguidos até pela Igreja.
Lembre-se de Lutero, o heroi da cristandade, o qual realizou a primeira emancipação religiosa bem sucedida em relação à Igreja, condenado o que havia de mais corrupto no clero, e mudando a história do cristianismo. E se soubessem que boatos foram criados em torno dele... Imaginem só, dizer tantas infâmias sobre alguém que arriscou a sua pele, diante do fogo da Inquisição, para libertar o povo da heresia das indulgências, das falsas relíquias, da edificação dos palácios romanos! É assim que vive o cristão. Mas há alegria nisso, tão grande, que vale a pena. Eu convido o leitor a viver como um seguidor de Cristo, alguém que prefere sacrificar a si mesmo na “cruz” do que recusar a amar o seu próximo. Eis o princípio da lei.

Música de William Byrd (1539-1623), compositor renascentista inglês contemporâneo de Shakespeare. A pintura do vídeo retrata a rainha Elizabeth I, que reinou na Inglaterra na chamada "Era de Ouro" de 1558 a 1603.

“Estando, pois, a festa já em meio, subiu Jesus ao templo e começou a ensinar.
Então os judeus se admiravam, dizendo: Como sabe este letras, sem ter estudado?
 Respondeu-lhes Jesus: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.
Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo.
Quem fala por si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça.
Não vos deu Moisés a lei? no entanto nenhum de vós cumpre a lei. Por que procurais matar-me?
Respondeu a multidão: Tens demônio; quem procura matar-te?
Replicou-lhes Jesus: Uma só obra fiz, e todos vós admirais por causa disto.
Moisés vos ordenou a circuncisão (não que fosse de Moisés, mas dos pais), e no sábado circuncidais um homem.
Ora, se um homem recebe a circuncisão no sábado, para que a lei de Moisés não seja violada, como vos indignais contra mim, porque no sábado tornei um homem inteiramente são?
Não julgueis pela aparência mas julgai segundo o reto juízo.” João 7.14-24

Uma das passagens mais famosas da Bíblia:
“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil.
Dá a quem te pedir, e não voltes as costas ao que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem;
para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.
Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo?
Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.” Mateus 5.38-48.

A respeito dessa passagem, tenhamos cuidado. Primeiramente, “Sede perfeitos” não quer dizer que devamos atingir a perfeição para a salvação, ou que isso seja possível, mas sim que a perfeição é nosso objetivo, ideal, e precisamos ao longo da vida caminhar em sua direção. Somente após a morte a perfeição poderá ser obtida, quando abandonarmos o mundo de nossa antiga natureza.
Quanto a interpretação dessa mensagem, há quem pense que seja impossível segui-la, ou que ela signifique que devamos nos sujeitar a alguém que nos fira fisicamente, ou entregar os pertences a um assaltante, etc. Nada disso; Jesus raramente falava “ao pé da letra”, melhor dizendo, sua mensagem ficava mais abrangente quando se utilizava de figuras, sermões, provérbios e parábolas.
Quando fala de bater na face, por senso comum ele nos leva a pensar em uma ofensa (pois é esse o significado de um tapa no rosto). Logo, vingar-se é repetir a ofensa, pagar o mal com o mal. Isso não significa que, levando um murro no rosto, alguém peque em reagir, pois se trata de um duelo iniciado, e que vença o melhor.
Mas é claro, o princípio de oferecer a face se aplica em diversos casos, e é abrangente.  Alguém que pense nisso poderá evitar, por exemplo, que inicie uma discussão acalorada e que culmine em uma briga, que por sua vez poderia trazer mais consequencias ruins. Punir não é o mesmo que vingar-se, nem o mesmo que defender-se, mas uma coisa pode se confundir com a outra. Tomemos cuidado.
O que realmente importa é evitar que se faça o mal a alguém, não saciar-se com nenhuma reação, mas sim procurar apaziguar e mostrar, por meio de uma postura cristã, que se possui um coração valorosíssimo, o que só atrairá o bem. Com certeza, mesmo em casos em que uma reação não seria vingativa, não reagir pode ser bom: pode ser uma demonstração de superioridade moral, resignação, pode ser que com o bem o inimigo acabe humilhado, entre outras situações.
Só a Deus pertence a “vingança”, ou melhor, a retribuição, pois só alguém perfeito pode julgar e punir com justiça.

“O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem.
Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros;
não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor;
alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração;
acudi aos santos nas suas necessidades, exercei a hospitalidade;
abençoai aos que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis;
alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram;
sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altivas mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios aos vossos olhos;
a ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas dignas, perante todos os homens.
Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens.
Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor.
Antes, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça.
Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” Romanos 12.9-21.

Tens aí um pouco mais do que a Bíblia fala a respeito do assunto da vingança:
Juízes 15.1-15. A vingança pode se tornar um hábito.
Salmo 35.1-10. Deixe Deus pelejar suas batalhas por você.
1 Pedro 3.8,9. Seja gentil e humilde.
E também:
Salmo 7.1-6.
Mateus 6.
Juízes 15.1-20; 16.18-31. A vingança incontrolável de Sansão, que mais tarde contribuiu para sua punição e morte, além da sua concupiscência. Embora a sua proeza final não seja bem uma vingança, mas sim uma prática de guerra entre ele, hebreu, e os filisteus, a vingança e inimizade anteriores, junto de sua vida sexual reprovável, afastaram de si o Espírito do Senhor, ou seja, ele havia pecado, se desviado do caminho e desperdiçado o que Deus lhe concedera, perdendo a força e se tornando vítima da ruína. Esse é o retrato de uma situação muito comum na cristandade e fora dela. Jovens que, seduzidos pela sua “força” e pelo prazer sexual, tomam atitudes imprudentes, como as de Sansão, e se enredam por caminhos perigosos. Apesar disso, arrependido, reconhecendo seu pecado, Sansão pôde recobrar mais uma única vez, antes da morte, a força que Deus lhe dava.

E abaixo um pouco do que a Bíblia fala sobre o preconceito, o que se aplica a Antônio e a tantos que, ao longo da História, foram levados a pensar e agir dessa forma:
Ester 3.1-6. O orgulho causa preconceito.
Marcos 6.1-6. O preconceito nos torna cegos para a verdade de Deus.
Lucas 10.25-37. O preconceito impede-nos de ajudarmos os outros. Uma das passagens mais conhecidas, a parábola do bom samaritano. Reproduzo aqui neste blog o trecho especial, e que fique bem claro a todos:
“Respondeu-lhe ele: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
Tornou-lhe Jesus: Respondeste bem; faze isso, e viverás.” Lucas 10.27-28.
Atos 10.34-43. Jesus morreu por todos, sem acepção de pessoas.
Gálatas 3.28. Somos iguais diante de Deus.
Efésios 2.11-16. Deixe Cristo quebrar seus preconceitos.
João 4.7-27. Nessa passagem, de grande beleza e sentido, Jesus fala com uma mulher samaritana, ou seja, de um povo odiado pelos judeus, além de ela ter má reputação. Nenhum judeu falaria com ela, mas Jesus lhe falou. O evangelho é para todos. Leia com cuidado o capítulo 4 do evangelho de João, e perceba como é Cristo, e o que ele nos propõe. Uma vida de adoração em espírito e comunhão universal.

E, é claro, coloco abaixo um pouquinho sobre o perdão:
Isaías 1.18. O perdão de Deus nos torna brancos como a neve.
Mateus 18.21-35. Devemos perdoar assim como somos perdoados. Lembrando que setenta vezes sete significa todas as vezes, porque o número sete na Bíblia simboliza a totalidade, o que justifica a criação em “sete dias” e muitas outras passagens. E perdoar não significa necessariamente permitir que o mesmo mal seja refeito nem exige sempre que os mesmos sentimentos de antes retornem, mas sim desconsiderar a dívida do mal, e, portanto, aniquilar a possibilidade de vingança.
Atos 13.38-39. Por Jesus recebemos o perdão, e não pela lei. A lei condena, inevitavelmente, pois somos pecadores, mas Cristo nos absolve.
1 João 1.8,9. Reconheça o pecado e peça a Deus que o perdoe.


Voltando à obra:
Ato II, Cena VII.
“Belmonte. Um quarto em casa de Pórcia. Toque de cornetas. Entra Pórcia com o Príncipe de Marrocos e seu séqüito.
PÓRCIA - Descerrai as cortinas, para que este príncipe nobre possa ver os cofres. Fazei agora a escolha.
MARROCOS - De ouro, o primeiro, esta inscrição nos mostra: "Quem me escolher, ganha o que muitos querem."O outro, de prata, esta promessa mostra: "Quem me escolher, ganha o que bem merece." O último, pesadão, de chumbo, adverte: "Quem me escolher, arrisca e dá o que tem." De que modo saber que escolhi certo?
PÓRCIA - Num deles se acha o meu retrato, príncipe. Se esse escolherdes, logo serei vossa.
MARROCOS - Guie-me um deus na escolha! Examinemos de novo as inscrições, tomando da última. Que diz o plúmbeo cofre? "Quem me escolher, arrisca e dá o que tem." Dar o que tem por chumbo?
Arriscar tudo por chumbo? ameaçadora esta sentença. Quem tudo arrisca, espera grandes lucros. Um espírito de ouro não se importa com rebotalhos vis. Não darei nada, nem nada arriscarei por este chumbo.
E a prata virginal, que nos declara? "Quem me escolher, ganha o que bem merece." O que merece... Pára aí, Marrocos, e com mão firme o teu valor sopesa. Se fores avaliado desse modo, por ti próprio, mereces muito, muito. Mas esses muitos, ainda assim, não chegam porventura, a alcançar esta senhora. Mas se puser em dúvida o meu mérito, mau conceito revelo de mim próprio. Tudo quanto mereço? Ora, esta dama. Mereço-a pelo berço, pela sorte, por minha educação e qualidades; mas pelo amor mereço-a mais ainda. E se eu me detivesse neste ponto, e escolhesse este cofre? Mas vejamos o que diz a inscrição gravada no ouro. "Quem me escolher, ganha o que muitos querem." É a donzela, pois não? Muitos a querem. Dos quatro cantos chegam peregrinos, para depor um beijo nesta imagem, nesta santa mortal que aqui respira. As vastas solidões da grande Arábia e os desertos da Hircânia transformaram-se em estradas, agora, para príncipes que acorrem para ver a bela Pórcia. O domínio das águas, que a cabeça vaidosa eleva, para que na face do céu possa cuspir, não é barreira que deter possa tanta gente estranha, senão simples regato, para todos que acorrem para ver a bela Pórcia. Seu celeste retrato está num destes.
O chumbo o encerrará? Tão baixa ideia fora profanação; injúria fora comprimir numa escura sepultura sua frágil mortalha. Ou pensar devo que emparedada ela se encontra em prata, que vale vinte vezes menos que o ouro? Pecaminosa ideia! Uma tal joia, no mínimo, seria feita em ouro. Na Inglaterra há uma moeda em que insculpido em ouro se vê um anjo. Mas a efígie fica por fora, ao passo que aqui dentro em leito de ouro está deitado um anjo. Depressa, a chave! O ímã este é mais forte. Seja-me favorável nisto a sorte.
PÓRCIA - Ei-la, príncipe. Caso meu retrato se encontre aí dentro, serei vossa esposa.
(O Príncipe abre o cofre de ouro.)
MARROCOS - Oh inferno! Que está aqui? Uma caveira que na órbita vazia um papel mostra com qualquer coisa escrito. Vamos lê-lo. Nem tudo o que luz é ouro, proclamam sábios em coro. Muita gente acaba em choro, por só procurar tesouro. Mausoléus são comedouro de vermes em fervedouro. Se houvesse sabedoria nessa vossa cortesia, a consulta não faria turvar-vos a fantasia. Passai bem; vossa ousadia foi castigada; está fria. É certo; agora não rio; adeus, calor; venha o frio. Adeus, Pórcia; a derrota me degrada. Assim parte quem perde: não diz nada.
(Sai com seu séquito. Toque de cornetas.)”

Ato II, Cena IX.

“ARAGÃO - Assim me preparei para o certame. Possa a Fortuna coroar-me o anelo. Ouro, prata e o vil chumbo. Que diz este? "Quem me escolher, arrisca e dá o que tem." Sem que mais belo fiques, nada arrisco nem dou por tua causa. E o cofre de ouro? "Quem me escolher, ganha o que muitos querem."

Hum! O que muitos querem... Esse "muitos" pode significar a turba ignara que escolhe apenas pelas aparências e só conhece o que o olho estulto ensina, que ao âmago não desce, mas tal como a andorinha constrói o ninho ao tempo, sobre o muro de fora, justamente no meio do perigo e ao seu alcance. O que muitos desejam não me agrada, pois não quero igualar-me a todo o mundo, nem confundido ser com o povo bárbaro. Agora é a tua vez, cava argentina, de me dizeres o que dentro encerras. "Quem me escolher, ganha o que bem merece." Muito bem dito. Quem se aventurara em busca de fortuna e de honrarias, se não fosse marcado pelo mérito? Ninguém tenha a ousadia de arrogar-se honras imerecidas.

Se os estados, ofícios, posições não fossem dados por maneira corrupta, e as honrarias só fossem conquistadas pelo mérito, quantas pessoas que andam descobertas, a cabeça cobriram! Quanta gente que hoje é mandada, assumiria o mando! Quantos campônios baixos brilhariam na sementeira da honra, e quantas honras das palhas arrancadas se veriam e da ruína do tempo, para brilho de novo receber? É a minha escolha? "Quem me escolher, ganha o que bem merece." Vou ganhar o que é meu. Trazei-me a chave, que minha sorte descerrar desejo.

(Abre o cofre de prata.)

PÓRCIA - A demora foi longa para o achado.

ARAGÃO - Mas, que vejo? A figura de um idiota que me pisca e um papel quer entregar-me. Vou ver o que contém. A que distância tu te encontras de Pórcia! A que distância de meu mérito e minhas esperanças! "Quem me escolher, ganha o que bem merece." Só mereço a cabeça de um idiota? Esse é todo o meu prêmio? Não alcança mais longe, então, o meu merecimento?

PÓRCIA - Errar e dar sentença são ofícios bem distintos, de opostas naturezas.

ARAGÃO - Que contém isto? Fui sete vezes fundido. Sete vezes aferido deve ser quem o apelido não quiser de intrometido. Quem beija sombra de dia, terá sombra de alegria. Bobos há, cuja alarvia com a prata se concilia. A noiva tão procurada só por mim vos será dada. Saí, senhor de fachada, que aqui não vos retém nada. Devo tratar de ir embora, que mais bobo, de hora em hora, vou ficando desde agora. De bobo tinha a cabeça; com duas, não aconteça que a tolice ainda mais cresça. Adeus, querida; hei de a jura confirmar na desventura.

(Sai Aragão com seu séqüito.)”



Ato III, Cena II.

“BASSÂNIO - Bastantes vezes a aparência externa carece de valor. Sempre enganado tem sido o mundo pelos ornamentos. Em direito, que causa tão corrupta e estragada, não fica apresentável por uma voz graciosa, que a aparência malévola disfarça? Que heresia poderá haver em religião, se alguma fronte austera a defende, e justifica com a citação de um texto, mascarando com bonito fraseado a enormidade?

Não há vicio, por crasso, que não possa revelar aparência de virtude. Quantos poltrões não vemos, cujo peito resiste tanto como areia ao vento, que no queixo nos mostram barba de Hércules ou do sombrio Marte, e que por dentro fígados como leite só possuem? Os bigodes só usam da coragem, para que possam parecer temíveis. Mas se a beleza olhásseis, acharíeis que é só comprada a peso, e que milagre realiza da natura, ocasionando mais leveza onde mais presente esteja. isso se dá com esses cabelos louros de cachos enrolados como serpes, que saltitam ao vento, libertinos. cobrindo uma beleza só de empréstimo; conhecidos são todos como dádiva de uma cabeça estranha: já no túmulo se encontra o crânio sobre que nasceram. Praia traiçoeira é o ornato, por tudo isso, de um mar mui perigoso, linda charpa que esconde o rosto de uma bela indiana; em resumo: aparência da verdade, de que se vale o tempo experto, para colher até os mais sábios. Assim sendo, brilhante ouro, de Midas duro cibo, nada quero de ti, como não quero também de ti, intermediário pálido e vulgar entre os homens. Minha escolha recai em ti, em ti, modesto chumbo, que mais ameaças do que prêmio inculcas. Tua lhaneza é a máxima eloquência. Seja pois alegria a consequência.

(...)

BASSÂNIO - Que acho aqui? (...) Eis o papel onde gravada se acha

a súmula de toda a minha dita. Já que não foi pela vista que escolheste, eis a conquista. Vossa ventura é bem-vista; em tudo ela vos assista. Se vos alegra o festejo, aproveitai logo o ensejo para pedir, em gracejo, que a noiva vos dê um beijo. Gentil escrito. E agora, bela dama, com vossa permissão.

(Beija-a.)”

Em todos esses trechos, bem como na história toda de Bassânio e Pórcia, nota-se a vantagem de se escolher bem o companheiro, não se guiar pela aparência e sim pelo coração, e manter a castidade até o casamento, para o gozo pleno e completo. Mesmo tendo que tanto esperar, sofrer e temer, Pórcia, por se conformar em seguir a determinação de seu pai, com obediência, encontrou o único que poderia fazê-la feliz, o único que tinha coração nobre, ao contrário de todos aqueles outros, que não a amavam, mas sim a si mesmas e às riquezas.

Manter-se casto até o casamento é raríssimo e até mal visto, desde um bom tempo. O que acontece é que essa questão anda em discussão entre os próprios cristãos, e muitos não a dão nenhuma importância ou crédito. Não seguir esse conselho bíblico não significa necessariamente merecer excomunhão, mas tudo o que fazemos de errado volta a nós depois. Não seguir a sabedoria da Bíblia, que se aplica a todas as áreas, pode nos levar ao arrependimento. Eis o ideal, que o siga quem for forte e aquele cujo coração for atingido pela força dessa mensagem.

O Mercador de Veneza também é uma história que fala de amizade, profunda, verdadeira e leal.
Ato III, Cena IV.

“PÓRCIA - Nunca me arrependi de uma ação boa, nem o farei agora. Entre pessoas que o tempo passam em conversa, juntos, e cujos corações o mesmo jugo da amizade suportam, haver deve conformidade e proporção nos traços, no gênio e nos costumes. Isso leva-me a acreditar que Antônio, como amigo de meu senhor, terá de ser como ele. Ora, assim sendo, que quantia mínima dispensei, porque a imagem de minha alma livrar pudesse de uma situação de crueldade infernal! Essas palavras, porém, parecem elogio próprio. Fiquemos por aqui. E ora tratemos de outros assuntos.”

Ato IV, Cena I.

“BASSÂNIO - Que é isso, Antônio? Alegra-te! Coragem! Há de o judeu tirar-me o sangue, a carne, os ossos, antes de por mim perderes uma gota sequer do rubro sangue.

ANTÔNIO - Eu sou a ovelha doente do rebanho, marcada para a morte. O mais mirrado fruto cai da árvore primeiro; o mesmo se passa ora comigo. Melhor coisa, Bassânio, não farás do que viveres para o meu epitáfio redigires.”

Ato IV, Cena I.

“PÓRCIA - Mercador, tendes algo a declarar?

ANTÔNIO - Muito pouco; estou pronto e preparado. Bassânio, a mão. Adeus. Não seja causa de vos amofinardes a desgraça que padeci por vós, porque a Fortuna, no meu caso, se mostra mais benigna do que de hábito. Sempre ela permite que sobreviva o mísero à opulência, porque ver possa com vincada fronte e olhos cavados a velhice pobre. Ela me poupa o sofrimento longo de semelhante dor.

Recomendai-me a vossa nobre esposa e relatai-lhe como Antônio morreu; dizei-lhe quanto amor vos dedicava e enaltecei-me depois de morto. E após terdes contado tudo o que se passou, ela que julgue se Bassânio não foi, realmente, amado. Não lastimeis a perda de um amigo, que ele não se lastima por ter pago a dívida por vós. Se fundamente me cortar o judeu, no mesmo instante de coração liquidarei meu débito.

BASSÂNIO - Antônio, desposei uma pessoa que me é tão cara quanto a própria vida. Mas essa vida, a esposa, o mundo inteiro são por mim avaliados ainda em menos do que tua existência. Conformara-me em perder todos, em sacrificá-los a este demônio, só para salvar-vos.”

A preferência de Bassânio por salvar o amigo do que a esposa e todos os outros se justifica pelo fato de serem melhores amigos desde muito, enquanto o casamento com Pórcia foi recente e baseado na vitória sobre o desafio dos baús, de modo que esse amor deveria crescer com o tempo e o convívio, sem decerto ambos de coração nobre.

Postei e analisei algumas das melhores passagens dessa obra shakespeariana. Não abordei todos os temas, e embora pudesse ainda muito comentar, acho que para uma postagem isso já é suficiente. Vimos lições sobre vingança, preconceito, perdão, misericórdia, fidelidade, obediência, amizade, integridade, sabedoria. O resto, que o leitor descubra na própria obra.