quarta-feira, 27 de abril de 2011

Crux triumphus

“Filosofias, ideias, glórias profanas, gerações e impérios passam; são como os suspiros efêmeros do esforço humano; só ela permanece e permanecerá, a cruz – esperança dos homens, confiança dos desesperados, amparo dos frágeis, asilo dos vencidos, força maior da humanidade: crux triumphus adversus demonios, crux oppugnatorum murus...” Opus citatum: O Crime do Padre Amaro, capítulo XXIII, de Eça de Queirós (1845-1900).
 Agnus dei (O cordeiro de Deus), de Francisco de Zuraban, pintura barroca datada de 1630-40; Museu Nacional do Prado, Madri, Espanha.

Nessa Páscoa passada fui à Cidade de Goiás assistir a tradicionalíssima Procissão do Fogaréu, um espetáculo histórico e religioso. Fazia uma noite fria, e depois da meia-noite pude ver de perto os soldados passando com seus capuzes coloridos e sinistros, carregando suas enormes tochas. O som dos tambores, com seus toques típicos e fúnebres, sentenciosos, a cidade iluminada somente pela luz do fogo; o Rio Vermelho, lá embaixo, correndo raso e meio ligeiro entre os bancos rochosos, que foram tão castigados nos tempos de exploração do ouro, brilhando com cor dourada ensanguentada; os caminhos pelas ruas e ruelas de pedras toscas muito antigas, as multidões, o teatrinho à frente da catedral; o céu noturno, de um azul marinho cor de safira, com uma lua muito forte e cheia e um mar de estrelas, distantes e silenciosas lá em cima, como alheias à toda aquela agitação fervorosa pela cidade histórica; tudo isso me fazia sentir como se estivesse em Jerusalém, realmente seguindo a Cristo, e busquei despertar em meu coração a austeridade e o reconhecimento do sentido daquela procissão.
" 'Grande Messe' em C menor" (1.Kyrie eleison/Senhor, tende misericórida) de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), regida pelo grande Leonard Bernstein (1918-1990).

            A procissão terminou após dois clérigos darem a palavra de cima do terraço de uma igreja alta. O primeiro, de voz velha e sotaque caipira, falou pouco e passou a palavra a outro, de sotaque estrangeiro, aparentemente muito mais velho, e ele falou lentamente, aborrecidamente sobre um assunto que se desviou demais do tema da Cruz. Tudo bem que ele relacionou o assunto à preservação da natureza – principalmente no nosso cerrado goiano esplêndido, mas no fim das contas isso não agradou muito. De qualquer modo, foi uma noite inesquecível.
            Acabada a procissão, contemplei a cidade acalmada, silenciada em muitas partes, e curti uma madrugada inteira acordado por lá, sentindo um frio gostoso e aproveitando a noite.
(2.Gloria in excelsis Deo/Gloria a Deus nas alturas)

Que imagem representa melhor o objetivo da vida? Seguir a Jesus, esse é o foco: Cristo é a luz; as tochas abrem caminho na escuridão da cidade e são o guia da multidão, entre fieis motivados, outros cansados, desanimados, bêbados, brincalhões, desinteressados; todos nas ruas ou nas janelas das casas, e alguns até dormindo, não dando a mínima para o que se passa. Grande ilustração da vida!
Siga a Jesus depressa, não demore! Porque o exército o leva avançando rápido – o mundo nos afasta dele com rapidez mortífera – e precisamos ficar atentos. “Vigiai e orai”. Não podemos ficar “dormindo”, e nada conseguiremos se nos sobrecarregarmos dos prazeres que nos “embebedam”, se andarmos com os tolos fazendo piadas (como na hora do teatrinho da Última Ceia); se nos cansarmos do duro caminho de pedras velhas e irregulares, e nos sentarmos, exaustos; se formos embora antes do fim por tédio (como os muitos que se cansaram do discurso monótono dos dois clérigos) ou por erros dos outros; enfim, devemos ser fortes nessa peregrinação, que dura apenas o curto período de uma vida. Essa procissão ilustra muito bem um dos pilares do cristianismo: seguir a Cristo, o que nos leva a imitar a Cristo (além do mais, meus pais estavam o tempo todo atrás de mim e ficavam com raiva se eu ficasse somente uns dois metros mais à frente, pensando que eu me perderia, embora a cidade fosse turística, pequenina e eu já bem "grandinho", o que constitui uma boa metáfora de como os temores da vida, às vezes exageros, e as pressões do meio podem nos forçar a ficar menos próximos de Jesus do que deveríamos ou poderíamos).
(3.Laudamus te /Te louvamos)

Não é fácil, mas ele é “o Caminho, a Verdade, e a Vida”. Ele veio a nós reunindo em sua pessoa, divina e humana, o que toda a humanidade sempre buscou das mais diversas formas, belas ou torpes, desde as religiões mais macabras até as filosofias mais sublimes, tudo isso são trapos espalhados, sem valor, se não convergirem neste ponto: e mensagem de Jesus Cristo.
Ele disse: quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Amá-lo ou desprezá-lo depende de cada um. Depende de como se enxerga e se interpreta a vida. Não depende de um cansativo e ultrapassado debate infindável de ciência, religião e filosofia (sem querer desmerecer o poder do diálogo), mas algo muito mais pessoal, que parte das premissas de cada um...
(6.Qui tollis peccata/Tu que tiras o pecado)

Pois então, reconheça que maravilha é seguir a Cristo, se seguir com fé! Um Homem que vem nos ensinar o caminho mais reto e mais puro, pregando acima de qualquer coisa o amor ao próximo, porque isso é amar a Deus, e isso é merecer a vida. Como escapar da condenação, resultado inevitável da corrupção que traz dor a este universo? Somente com a virtude de Cristo. Ele morreu na cruz e ressuscitou para sempre. Isso não significa nada para você? Se não, digo que infelizmente o pecado, esse véu sujo de comodidade pesa sobre seus ombros, como pesa nos de qualquer um, de momento a momento, até nos ombros dos mais santos que habitaram esta Terra. Devemos tomar a nossa cruz todos os dias, e mirar a glória eterna, o eterno Bem, e não viver para nós mesmos e buscando o poder neste mundo passageiro e breve como uma sombra.
Há pelo mundo tantas religiões e filosofias, que é difícil entender por que crer em uma e não em outra. Acontece que a variedade é grande, e só um estudo muito profundo poderia esclarecer certas questões e nos levar a posicionamentos talvez irredutíveis. O que acontece é que devemos “pensar como os franceses e agir como os ingleses”. Com o racionalismo francês, devemos valorizar a busca pelo saber, a curiosidade e o diálogo, mas  como os ingleses, investirmos naquilo que temos, que conhecemos, que é nosso, e que sabemos que funciona. A mensagem de Cristo é suprema a qualquer ideia, por exemplo, de salvação por obras que reina em outras religiões, algumas cujos deuses ou cujo Deus não é de forma alguma amoroso. Enfim, temos o nosso Jesus, temos sua Palavra, maravilhosa que surpreende com sua sabedoria pródiga, só falta nos dispormos a segui-lo. Para começar, nada melhor do que buscar motivação, e para isso, orar pode ser a melhor alternativa. Nada pode nos separar de quem mais amamos, e que mais nos ama. Jesus: eis a solução para as almas.
"Ave verum corpus" (Ave, verdadeiro corpo), de Wolfgang Amadeus Mozart, regido por Bernstein.

Ave verum corpus natum de Maria Virgine
Vere passum, immolatum in cruce pro homine
Cuius latus perforatum unda fluxit et sanguine
Esto nobis praegustatum mortis in examine
O Iesu dulcis, o Iesu pie, o Iesu fili Mariae.


Que Cristo os ilumine sempre, que alcancemos a Vida pela vitória em Cristo Jesus, que vivamos cheios de Sua presença, de sua memória, de sua virtude, para superarmos o mal e não fraquejarmos... Que Ele venha em nosso auxílio, a nós que dependemos somente d’Ele. Em nome de Jesus Cristo. Amém.