quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Vanitas vanitatum, et omnia vanitas

Acredita-se que essa famosa oração foi criada por Santo Ambrósio e Santo Agostinho de improviso durante um acesso de fervor religioso na Catedral de Milão.

Os orientais meditam tanto, mas será sobre o quê e por quê? Obviamente sobre coisas puras, dignas de se compreender, de se ter fixas na mente a todo momento, enfim, eles oram de forma profunda, e pensam em Deus. Enquanto isso, tantos cristãos vivem com indiferença, sem comunhão, mornos, nem quentes nem frios, o que não agrada ao paladar divino.
            Sobre o quê nós, cristãos, devemos meditar? Há muito sobre o que pensar, reter, entender, lendo a Bíblia, mas somente a oração pode exercitar a fé e convidar o Espírito Santo a habitar nosso interior e permitir que coloquemos em prática o que obtemos com a leitura da Palavra.
            Existe um ótimo exemplo de trecho a ser absorvido por nossas almas. O apóstolo Paulo escreveu aos crentes da cidade de Filipo sete conselhos, ou atributos (considerando que o sexto é consequência), no capítulo 4 da Epístola aos Filipenses, versículos 4 ao 8:
           “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos.
Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor.
Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças;
e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.
Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.”

Primeiro movimento da Sinfonia No.6 "Pathétique", a mais famosa do maior compositor russo do Romantismo, Piotr Ilich Tchaikovsky (1840-1893).Ouça bem alto.

Com essa pequena passagem temos muito a aprender, e reter. Primeiro, entendemos que devemos ser pessoas alegres, felizes, e precisamos demonstrar isso aos outros, para mostrarmos que a nossa alegria vem do Senhor, fonte inextinguível, e não do apego ao terreno e passageiro. Isso não significa, porém, que o cristão não deva ser aquele que se incomoda com a injustiça e busca antes agradar a Deus do que aos homens, sendo às vezes rejeitado por isso, e tendo de se colocar na posição do que chama a atenção e repreende com conselhos. Vos estis sal terrae, “Vós sois o sal da terra”. Devemos dar gosto ao mundo, mas não deixaremos de decepcionar os que são inimigos de Deus.

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” Mateus, 6:24.

Em seguida, vemos que o cristão deve fugir dos extremos. A mediania é o melhor, como o escritor inglês Daniel Defoe (1660-1731) mostra na opinião de um personagem em sua obra “Robinson Crusoé”:
“(...) pois os reis frequentemente se queixavam de ter nascido para grandes coisas e antes prefeririam estar entre os dois extremos, a humildade e a grandeza; também o sábio tinha a mesma opinião sobre a verdadeira felicidade quando não queria nem pobreza nem riqueza.
“(...) a classe média, entretanto, era a menos afligida pelos desastres e não estava exposta a tantas vicissitudes quanto aquelas, nem tampouco estava sujeita a tantos males e perturbações do corpo e do espírito como os que, por vícios, luxos  e extravagâncias, de um lado, ou trabalho árduo, falta de meios e alimentação pobre ou insuficiente,de outro, atraíam sobre si próprios as nefastas consequências dessa maneira de viver; que a paz e a fartura eram as serviçais da pequena fortuna; que a temperança, a moderação, a tranquilidade, a saúde, o convívio social, todas as diversões agradáveis, todos os prazeres recomendáveis eram as bênçãos que aguardavam a vida mediana; que, desse modo, os homens passavam calma e suavemente pelo mundo, e dele saíam com conforto, (...) e, enfim, sem se exasperarem de inveja ou arderem intimamente da cobiça de grandes coisas. (...) saboreando com gosto a doçura de viver e o sentimento de serem felizes, aprendendo pela experiência diária a senti-lo cada vez melhor”.

Fernando Sor (1778-1839), músico espanhol, foi chamado de "o Beethoven do violão", por ser o primeiro músico a se dedicar de forma especial a esse instrumento.

Obviamente, todo esse belo panorama de prosperidade mediana só é possível graças à direção de Deus, à devoção a Ele, pois de outro modo de nada adiantaria confiar nas próprias realizações, pois se assim fosse, tudo seria em vão. Só há paz, só se vive com gosto de viver aquele que repousa num único ponto: o Senhor. Sejamos, então, moderados em tudo. A partir disso temos dois pontos a discutir.
O primeiro diz respeito à “santificação do secular”, como nos fala A. W. Tozer no capítulo 13 de seu livro “Homem: habitação de Deus”:
“O Novo Testamento ensina que todas as coisas são puras para os puros, e creio que podemos supor que, para os maus, todas as coisas são más. A coisa em si não é boa nem má; a bondade ou maldade pertence à personalidade humana.”

Nesse capítulo, Tozer nos fala que existem coisas que por si só são nem boas nem más, exceto quando praticadas por homens bons ou maus. Por serem coisas comuns e terrenas, os cristãos lhes atribuem maldade, sendo que na verdade todo ato secular em nossa vida pode ser sacramental, como disse o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 10:31:
“Porquanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”.
E também diz em Colossenses 3:17:
“E tudo que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai”.

Como Tozer nos mostra, aquelas pessoas que derrubaram a parede que separava o sagrado do secular foram aqueles que desfrutaram de uma intimidade muito maior com Deus, crescendo no caminho da santidade, podendo estar com Ele e falando com Ele a todo momento em qualquer lugar, como ele comentou em sua famosa obra “À Procura de Deus”.
Vejamos alguns exemplos retirados do capítulo 13 de “Homem: habitação de Deus”:
“Nicholas Herman (o irmão Lourenço) fazia do seu ato mais comum um ato de devoção. Ele declarou: ‘Para mim, a hora de trabalho não difere da hora de oração, e no ruído e no alvoroço da minha cozinha, enquanto várias pessoas pedem ao mesmo tempo coisas diferentes, estou com Deus em tamanha tranquilidade como se tivesse de joelhos junto ao bendito sacramento’.
Francisco de Assis aceitava a criação toda como sua casa de culto e convidava todas as coisas, grandes e pequenas, a juntar-se a ele na adoração da divindade. (...)
Thomas Traherne, escritor cristão do século XVII, declarou que os filhos do Rei não podem fruir bem o mundo enquanto não acordarem toda manhã no céu, não se acharem no palácio do Pai todos os dias e não virem os céus, a terra e o ar como alegrias celestiais, tendo tão reverente estima por isso tudo, como se estivessem entre os anjos”.

Imagine como é difícil seguir esse caminho, e como esse modo de vida nos afasta dos maus pensamentos. É um verdadeiro exercício espiritual. Nos não devemos amar as coisas mundanas (o que há de pecaminoso no mundo), não devemos preferir os cuidados do que é da terra, mas aqui devemos reconhecer em tudo a presença de Deus.
Hoje, a Igreja sofre com o contrário: a secularização do sagrado. A igreja procura adaptar-se aos gostos do homem, modelando-se de modo a tornar-se atraente, convidativa e agradável ao paladar pecaminoso, caindo no erro.

"A Tempestade", poema sinfônico de Piotr Ilich Tchaikovsky.

O segundo ponto diz respeito à cobiça e à ambição:
“Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição.” 1 Timóteo 6:9.
               
                Concordando com essas sagradas palavras, cito um trecho da famosa obra da literatura romântica gótica, “Frankenstein” (ou “O Moderno Prometeu”, 1818) de Mary Shelley (1797-1851):
                “(...) Um ser humano normal deve sempre preservar a calma e a paz de espírito, e jamais permitir que um desejo ou uma paixão passageira perturbe a sua tranquilidade. Não creio que a busca do saber faça exceder a essa regra. Se o trabalho a que você se entrega tende a diminuir suas afeições e a destruir seus gostos pelos prazeres simples, aos quais nada se pode misturar, então aquela ocupação é ilegítima, isso é, não é própria para a mente humana. Se esta regra fosse sempre observada, se nenhum homem se tivesse entregue à busca daquilo que interfere com a tranquilidade de suas afeições domésticas, a Grécia não teria sido escravizada, César teria poupado a sua nação, a América teria sido descoberta mais gradativamente, e os impérios do México e do Peru não teriam sido destruídos.”

Final da ópera "A Dama de Orleans" de Piotr Ilich Tchaikovsky (1840-1893).

                Quantas pessoas não se fatigam de tanto trabalhar, sobrecarregando-se com labutar desgastante, privando-se de notar e aproveitar o que é realmente belo na existência, negando tempo e atenção a Deus, tudo em busca de grandes conquistas, por causa da ambição, do desejo de grandes coisas. E tudo isso logo passa, e vemos que tudo foi em vão.
                “Vanitas vanitatum, et omnia vanitas”, “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” Eclesiastes 1:2.
           “(...)
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
Uma geração vai-se, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.
(...)
Atentei para todas as obras que se e fazem debaixo do sol; e eis que tudo era vaidade e desejo vão.
O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se pode enumerar.
Falei comigo mesmo, dizendo: Eis que eu me engrandeci, e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim em Jerusalém; na verdade, tenho tido larga experiência da sabedoria e do conhecimento.
E apliquei o coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras; e vim a saber que também isso era desejo vão.
Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a tristeza.” Eclesiastes 1:3,4; 14-18.

Sendo assim, o que importa a nós fazer aqui? Só há um caminho: viver buscando a sabedoria e a comunhão com Deus, e desfrutando do fruto de seu trabalho. Não devemos nos apegar às ambições violentas, que estão fora do nosso alcance, nem fugir diante dos desafios que nos esperam. A sabedoria traz a moderação. Viver e ver com o olhar do céu... É o que se pode chamar de Carpe diem cristão, e é disso que trata o livro de Eclesiastes, escrito pelo rei Salomão no final de sua vida, depois de ter experimentado todos os prazeres e adquirido conhecimento de tudo o que havia à sua volta, descobrindo no fim que tudo fora de Deus é em vão.

Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco têm eles daí em diante recompensa; porque a sua memória ficou entregue ao esquecimento.
Tanto o seu amor como o seu ódio e a sua inveja já pereceram; nem têm eles daí em diante parte para sempre em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.
Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe o teu vinho com coração contente; pois há muito que Deus se agrada das tuas obras.
Sejam sempre alvas as tuas vestes, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça.
Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vida vã; porque este é o teu quinhão nesta vida, e do teu trabalho, que tu fazes debaixo do sol.
 Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no Seol, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.” Eclesiastes 9:5-10.

Primeiro movimento da "Suíte Americana" do compositor tcheco Antonín Dvorák (1841-1904).

“Quem ama o dinheiro não se fartará de dinheiro; nem o que ama a riqueza se fartará do ganho; também isso é vaidade.
Quando se multiplicam os bens, multiplicam-se também os que comem; e que proveito tem o seu dono senão o de vê-los com os seus olhos?
Doce é o sono do trabalhador, quer coma pouco quer muito; mas a saciedade do rico não o deixa dormir.
Há um grave mal que vi debaixo do sol: riquezas foram guardadas por seu dono para o seu próprio dano;
(...)
Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: alguém comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol, todos os dias da vida que Deus lhe deu; pois esse é o seu quinhão”. Eclesiastes 5:10-13; 18.

“Este é o fim do discurso; tudo já foi ouvido: Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é todo o dever do homem.
Porque Deus há de trazer a juízo toda obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau”. Eclesiastes 12:13,14.

Veja o que diz Tozer no capítulo 23 de “Homem: habitação de Deus”:
“Uma das glórias do evangelho cristão é seu poder, não só de libertar o homem do pecado; mas também de orientá-lo, colocá-lo no alto de um pico do qual ele pode ver o ontem e o hoje em sua relação com o amanhã. A verdade limpa sua mente, de modo que ele pode reconhecer as coisas que de fato importam (...) O cristão iluminado pelo Espírito mão pode ser enganado. Ele sabe o valor das coisas; ele não investe em um arco-íris, nem faz pagamento à vista por uma miragem (...).
Por trás de cada vida desperdiçada está uma filosofia ruim, uma errônea concepção do valor e do propósito da vida. (...)”

Final da "Abertura-Fantasia Romeu e Julieta", de Piotr Ilich Tchaikovsky.

Tratando ainda da alegria do viver, é preciso notar o quanto esta é passageira e alterna turnos com a tristeza, sendo isso comum na vida terrena. Cito um trecho da famosa obra da literatura romântica de horror, “Drácula” (1897), de Bram Stoker (1847-1912):
“(...) Oh, meu bom amigo John, vivemos num mundo muito estranho, repleto de tristezas e lamúrias, num mundo prenhe de negras misérias, de dores, de desgraças e infortúnios. E, ainda assim, quando o Riso Soberano nos empolga faz com que todo este infindável séqüito de males e castigos dance a seu ritmo e no seu diapasão. (...) tudo, enfim, compartilha dessa macabra dança, cuja marcação nada mais é que a eterna música do Soberano Riso. E creia-me, amigo John, que a sua presença é sempre cordial e benfazeja. (...) E então chegam as lágrimas. (...) Estes nos envolvem e nos embaraçam; e quando sua tensão atinge o ponto crítico, nós desmoronamos. Mas é aí que surge o Riso Soberano e, como um raio de sol, travesso e brincalhão, alivia-nos de todas as tensões e nos deixa aptos e sôfregos para prosseguirmos impávidos na trilha dos nossos rudes labores, sejam eles quais forem.”

A partir desse trecho que trata da relação entre alegria e tristeza, somos arrastados para a questão do bem versus o mal, o que nos leva e ter uma visão panorâmica do que é a nossa vida de fato.
O “Bhagavad Gita” (O Cântico do Senhor), famoso trecho do épico hindu “Mahabarata”, é uma obra importante para o hinduísmo, e ela apresenta poderosas reflexões sobre o mundo e suas dualidades. Nessa obra, o campo de batalha representa o mundo, ou seja, nossa vida é uma batalha constante entre duas forças opostas e inconciliáveis, o bem e o mal, e não há como fugir à luta.
Árjuna, o valente heroi, temeroso diante da iminência da luta, lamenta-se profundamente, mas então Krishna, o Avatar, o consola, exortando-o a lutar, pois viver é agir e não há um “meio-termo”. Ou se luta, ou se rende ao mal. O “cântico” é todo o discurso de Krishna (a encarnação de Vishnu) a Árjuna.
O guerreiro lhe pergunta como ele pode sobreviver á luta, e a resposta é: o desapego, elevar a mente ao divino, o que nada mais é do que viver com fé, mantendo fixo o olhar a Deus (pois como disse A. W. Tozer em “À Procura de Deus”, ter fé é como olhar, é viver buscando estar próximo a Deus), só assim nos desligamos das dores terrenas e nos mantemos fixos num único ponto, o Deus Único, e lá encontramos repouso em meio a ação, eternidade em meio ao passageiro, descanso em meio a tribulação.
A visão cristã não é muito diferente. Tomás de Kempis, no capítulo XXXV do Livro III de “Imitação de Cristo”, diz:
Nesta vida não há proteção contra as tentações
1. Filho, não há segurança nesta vida, terás sempre necessidade de manejar as armas espirituais.
Vives entre inimigos que te assediam pela direita e pela esquerda.
Sem o estudo da paciência é impossível não ser ferido.
Se, além disso, teu coração não se fica em mim, disposto a tudo sofrer por minha causa, não resistirás aos muitos ataques e não conseguirás alcançar a palma dos bem-aventurados.
É preciso enfrentar com coragem tudo que acontece e combater com força tudo que se opõe a ti.
Ao vencedor o maná (Ap. 2,17), ao covarde, miserável derrota.
2. Se buscas repouso definitivo nesta vida, como chegarás ao eterno repouso?
(...)
Procura a verdadeira paz, não na terra, mas no céu, (...)
Tudo deves sofrer de bom grado por amor de Deus, trabalhos e dores, angústias e necessidades, fraquezas, (...)
Tudo isso favorece a prática da virtude, põe à prova o recruta de Cristo e prepara a coroa do céu.
Eu recompensarei eternamente o breve trabalho e darei glória sem fim a quem sofreu aborrecimentos transitórios.
3. Pensas que terás sempre consolações espirituais quando quiseres?
Não é o que acontece aos santos, que sofreram enormes contrariedades, muitas e várias tentações, grande desolação (...)
Espera a hora do Senhor, sê corajoso e firme. Não duvides, não desistas, sê firme de corpo e alma, para a glória de Deus.
(...)”.

"Abertura de 1812", obra de Piotr Ilich Tchaikovsky comemorando a retirada das tropas de Napoleão da Rússia em 1812.

Mas em que consiste, de fato, essa batalha?
Vejamos como são claras estas coisas: se Deus é Bom, o adversário é mal; se Deus é Perfeição, Satanás é a imperfeição; se Deus é Eterno, o diabo é temporário, se Deus é Verdadeiro, o mal é mentiroso, logo, o Bem é Real, e o mal, irreal; o Bem, Eterno, É, já o mal, passageiro, não é. Porque o que é eterno sempre é, e só Deus É, e sempre foi e sempre será, e o que passa deixa de ser, e se destrói, e portanto não é. O mal, então, não existe de fato como o Mal, pois este não existe, visto que veio a se, e há de ser destruído, mas o Deus Bom sempre tem sido: Ele É!
O que é, então, o mal? Pois ele existe para nós (se não, não falaríamos dele), mas consideremos que nós mesmos neste mundo somos passageiros, visto que fomos criados, passamos a ser, e deixaremos de ser o que agora somos, e este mundo veio a ser, e será logo destruído. O mal existe para nós pecadores, nós que comemos do fruto proibido. Mas se fora do mundo mal não há o que é?
Bem sabemos que de Deus nada escapa, e a revolta de Lúcifer já era de seu conhecimento – de seu desígnio. Se Ele é Sábio e Perfeito, e permitiu que o mal se manifestasse, é porque afinal de contas, é para o bem: para a realização da vontade divina, que é perfeita – não esqueçamos!
Para quê o Deus Bom permitiria que o mal se manifestasse? Pouco podemos discutir sobre isso, pois os propósitos divinos são insondáveis, mas podemos imaginar, e entender, segundo nosso parco entendimento. Conhecemos o calor sem o frio, ou a luz sem a treva? Pois o calor supremo nos mataria, e luz máxima nos cegaria. Mas o que é o frio senão falta de calor, e a treva senão ausência de luz? Porque este mundo é resultado de lutas de opostos: a Terra está entre o Céu e o Inferno, eo mundo sofre por estar separado de Deus. Somos seres medianos... De um lado temos tudo, de outro, nada, e dos dois tempos o incompleto – tudo aqui é assim! A alegria e a tristeza, ambas imperfeitas, e ambas irmãs que se acompanham! Luz demais ainda não podemos contemplar, nem a morte, suportamos ver a face... Mas se merecemos a Condenação, mas Deus vem com Misericórdia, estamos entre a morte e a redenção, temporariamente. Logo o passageiro se vai; mas o Céu fica, e o Inferno também, pois também é bom, no fim das contas. Ora, ele é instrumento da Justiça Divina, e arderá pela eternidade!
O mal, portanto, é “um mal necessário”, como diz o dito popular; é instrumento do Bem, portanto é um bem. Seu efeito ruim, abominável, maldito sobre nós não conta, e sim o resultado final: o resultado eterno, que é o que fica pelos séculos e séculos, o que é. É somente um ingrediente para a encenação do teatro, da ópera chamada vida, vida trágica, cômica, épica... bela; com um final feliz. O mal é uma ilusão real; real porque existe e atua  nesta esfera; ilusório porque passa e não é, no final de tudo, mal que triunfa. Se Deus é o vencedor, o diabo é o perdedor, é um cão amarrado por uma coleira, que hoje fere os que se aproximaram dele, mas que permite que Deus cure os feridos que retornam para seu colo acolhedor.
Quem puder entender, a seu modo, um pouco que seja, desse Mistério da Vida, contente-se, porque isso de fato está muito além de nossa razão...
“E disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” Marcos 4:9.

"Capricho Italiano", obra de Piotr Ilich Tchaikovsky.

Voltando ao tema inicial do trecho de Filipenses 4:4-8,  retomo a listagem dos atributos e conselhos. Depois do regozijo e da moderação, vem o aviso “Perto está o Senhor”. O que isso significa? É muito importante saber que Deus está em todo lugar, junto de nós, e que nossa vida pe tão breve que daqui a pouco nós estaremos diante d’Ele, no Julgamento Final. Por isso, devemos estar cheios de esperança e atentos.
“Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidas, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade,
aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão?
Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça.
Pelo que, amados, como estais aguardando estas coisas, procurai diligentemente que por ele sejais achados imaculados e irrepreensível em paz;
e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada” 2 Pedro 3:11-15.

Em seguida, vem “Não andeis ansiosos por coisa alguma”. Isso quer dizer que devemos evitar exageradas preocupações, porque em Deus devemos repousar – Ele é o guia de nossas vidas. Vemos em “Imitação de Cristo” o quanto é importante a virtude da paciência – e é necessário cultivá-la, assim como tantas outras.
O seguinte diz que devemos orar, suplicar e agradecer – nada melhor para exercitar a fé do que a oração, o maior exercício do cristão, sem duvido, que o impele a agir, o leva a louvar e agradecer, e o encaminha para a disciplina e lhe concede a proteção do Espírito Santo.

Abertura da ópera "A Dama de Espadas" de Piotr Ilich Tchaikovsky.

Cito mais um trecho de “Drácula”, de Bram Stoker, para proporcionar uma pequena reflexão sobre a fé:
“--- Sim, Professor! Mas acreditar em quê?
--- Apenas acredite em coisas que normalmente não admite. Ouça-me. Vou lhe dar uma ilustração. Uma ocasião ouvi isto de um americano à guisa de uma definição do que vem a ser Fé: ‘Aquela faculdade que nos capacita para acreditar em coisas que sabemos serem irreais”. De uma certa forma, sigo o silogismo proposto por esse homem. Ele quis dizer com isto que nós devemos manter a nossa mente aberta, e não permitir que uma pequena verdade tolha a penetração de uma verdade maior, como por vezes acontece em nossa vida prática (...)”.

Obviamente, essa definição de fé está longe da verdade, e mesmo a interpretação seguinte apresenta apenas um aspecto da fé real. Mas é uma reflexão muito importante. A fé nos leva a enxergar uma Verdade maior, eterna, superior às verdades passageiras do Universo criado. A fé não ilude, pelo contrário, nos livra da cegueira, quando os olhos espirituais se abrem e se acostumam a uma nova luz fora da caverna...

Retomando a sequência, chegamos a consequência de tudo isso: a paz de Deus vem a nós, e nos traz a verdadeira felicidade, mesmo em meio à tribulação, pois estamos sendo fortalecidos pelas virtudes que estão sendo cultivadas com paciência.
E enfim, vem o último conselho: pensar em tudo o que é santo. Devemos nos desviar dos maus pensamentos e sentimentos, pois que busca o mal vai encontrá-lo. Isso é muito simples, muito óbvio, mas muito profundo. “Nisso pensai”, ou seja, meditemos sobre tudo o que foi lido para que entre em nossa alma.
Que tudo isso nos ajude a crescer e seguir esse caminho, a sobreviver à batalha da existência, tão árdua e perigosa. Amém.
Canto ortodoxo grego.