sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Crer e observar

"Que o gesto, mais o traje nas pessoas
Faz o mesmo que fazem os letreiros
Nas frentes enfeitadas dos livrinhos,
Que dão do que elas tratam, boa ideia."
('Cartas chilenas',carta 1ª, v.70-3; de Tomás Antônio Gonzaga)

Assim como nos livros as belas e curiosas capas, e os bem elaborados títulos nos dão uma boa ideia do que tratam, e nos interessam pelo seu interior, assim fazem conosco nossa aparência e comportamento.
Assim como nos livros o conteúdo e o estilo literário constituem sua essência e qualidade verdadeira, assim fazem conosco nosso caráter e atitude.
Há obras cujo exterior nos atrai como as flores o fazem às abelhas, conduzindo-nos a um conteúdo doce como o néctar. Pessoas assim são muito raras, e parece impossível haver equilíbrio ideal entre as duas virtudes em algum humano.
Outros livros, quase nada têm a oferecer além da aparência. Pessoas assim são chamadas superficiais. Além do prazer momentâneo e da atratividade externa, nada têm de real e duradouro. São como propagandas enganosas.
Há livros que por terem tanto valor e sentido na sua essência, são apreciados mesmo quando já estão amarelados e fedidos de mofo, e nada tem de confortante. Outros se tornam mais bonitos e curiosos quando se encontram mudados pelo tempo ou são encontrados na forma mais simples e singela.
Assim são as pessoas cujos valores da alma são tão altos que se tornam amáveis somente pelo coração, sem que nada externo possa influenciar no gostar. Essa afeição é a mais honesta que há, e a mais nobre. E também assim são aqueles que justamente por serem modestos, tornam-se únicos aos olhos de quem os amam.
As iluminuras, desenhos coloridos nos livros e manuscritos medievais, tornavam as obras literárias ainda mais caras e nobres, visto que uma parcela mínima da população tinha acesso à elas. 

Devemos nos avaliar segundo ambas as virtudes, não para que haja equilíbrio entre vaidade e humildade, mas justamente para que possamos governar a nós mesmos. A vaidade se controla pelo controle da capa: não devemos desejar a atenção de todos, mas uma capa agradável pode ser um testemunho de que aquele livro guarda algo valioso, digno de cuidado, e desejoso de ser compartilhado com todo aquele que gentilmente pegá-lo para ler.
Como podemos ter boas capas? Primeiro, devemos respeitar nosso corpo, tanto no sentido de não corrompê-lo com mutilações, ou acrescentando aquilo que lhe confere má conotação, como também no sentido de não tentar incrementá-lo e torná-lo escultural. Sejamos nós mesmos, sem alterações, sem máscaras. Sejamos como somos e mostraremos honestidade, conformidade, aceitação, desapego, simplicidade, moderação e bom senso.

Segundo, os nossos comportamentos, atitudes em relação ao outro costumam estar em conformidade com o nosso caráter, como a figura da capa revela algo essencial da história contada.
Agora, tratando-se de bom conteúdo, isso só se consegue com a escrita. Somos autores de nós mesmos, segundo o mundo ao nosso redor no qual nos inspiramos, e segundo a mente que nos foi dada por Deus. Disso vem tudo o mais: nosso caráter, nossas mudanças no decorrer da nossa vida, nossas virtudes, nossas ações boas e más, nossas conquistas, vitórias e derrotas, júbilos e arrependimentos, erros e aprendizagem, e por aí vai...
Essa grandiosa metáfora aqui apresentada é apenas uma leve ilustração de algo muito profundo: a interação entre as partes que compõem o nosso todo, sem as quais não seria todo. Essa interação, se apolar, faz o homem morno, sem gosto, condenando-o a ser vomitado. Se polar, ou conduz o homem para cima ou para baixo.




            O significado dessa ilustração não para por aí: os livros, como as pessoas, exercem sobre nós diferentes interesses, atrações, curiosidades, repugnâncias, medos, indiferença. Algumas pessoas por algum motivo nos chamam a atenção, e quando movidos pela vontade nós vamos além da capa e contemplamos seu interior, quanto mais “lemos”, e a conhecemos, mais delas gostamos. Essas pessoas chamamos de amigos.
            Assim como um ótimo livro deixa saudades de seus personagens quando termina, assim o amigo deixa memórias em nós, marcando nosso pensamento e visão de mundo, assim como a leitura faz. Amigos valorosos são aqueles com os quais nosso interior se completa, como se por influência do outro, nós escrevêssemos os novos capítulos de nós mesmos copiando e compartilhando estilos e ideias.
Ás vezes os dois “livros” são tão ligados um ao outro que constituem a mesma obra, um em dois volumes, e essa união de capa e conteúdo chamamos nos seres humanos de casamento, pelo menos segundo a visão cristã de união carnal e espiritual. Outras vezes os livros tornam-se tão concordantes, tão aliados que se tornam irmãos. Como diz Salomão, "o homem que tem muitos amigos pode congratular-se, mas há amigo mais chegado que um irmão" (Provérbios 18.24), e "em toda ocasião ama o amigo, e na angústia nasce o irmão" (Pr. 17.17).
As melhores pessoas para nós são aquelas cujas leituras desejamos que nunca se acabem, e se por um infortúnio terminam, são relidas. Não há nada mais gratificante para alguém que ama saber que em sua vida conseguiu ser alguém bom o suficiente para ser colocado na estante do coração de alguém.
E como é triste aquele que por preguiça não se deixa ler o outro, olhando somente para a capa e entediando-se nas suas cores e nos seus títulos enigmáticos! Ele se acabará velho e sem conhecimento algum.Falo não só do conhecimento de uma obra literária, mas do conhecimento de uma obra divina, do seu próximo.




Nada é mais delicioso do que caminhar em direção à santidade: mesmo nós sendo tão incapazes de qualquer progresso real, a misericórdia divina nos concede por meio do Espírito Santo o crescimento e a fé, de modo que nessa curta vida nossa alegria é o crescimento espiritual, é estarmos mais próximos de Deus, vivendo n’Ele, e portanto, mais próximos do Céu. Que essa mensagem seja captada por quem tem ouvidos para ouvir, e olhos para ver, porque está na Palavra, “e o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1.14).

O que faz de nós pessoas preciosas? Seria o estudo, as boas maneiras? Não, embora isso contribua; o verdadeiro valor do homem está no coração, pois é ele o objeto de avaliação do Senhor. É a caridade (ou o mesmo que amor), acendida dentro de nós pela fé, que faz com que as virtudes de Cristo venham gota a gota a nós, por meio do Santo Espírito, o suficiente para que sejamos transformados. Sem crucificação, sem mortificação, não há ressurreição e vida. Precisamos ser pequenos Cristos. Esse é o núcleo do que chamamos de cristianismo.
Jesus disse: “Sede santos, pois eu sou santo”. A santidade não é alcançada na Terra, mas ela é o nosso ideal, e devemos buscá-la. Se há batismo, um símbolo, é porque deve haver realmente (não simbolicamente) um renascimento no crente. Se não tomarmos nossa cruz e não formos crucificados para este mundo, e este mundo para nós, não poderemos encontrar a vida eterna. (Ler Gálatas 6.14.)



O que é ter fé? Ter fé não é dizer que acredita somente. A fé é uma virtude, logo, uns a tem com mais ou menos força, mas a fé é essencial para a salvação. Ter fé é viver olhando para Deus, vivendo para o espírito, como que querendo libertar-se deste mundo e estar junto de Deus, como Moisés Lhe pediu para que revelasse a sua glória aos seus olhos.A fé cresce com o fervor, quando a presença do Espírito de Deus em nós cresce e o sentimos mais próximo, e n’Ele encontramos a tranquilidade, o sustento, a gratidão, o regozijo, a atenção, o perdão, e gozamos de um pouco do Céu desde já...
Precisamos ouvir a voz de Deus, que soa desde o Princípio. Pois Deus disse, e assim se fez. Tudo se fez porque Deus quis, e disse, e diz, e dirá. O mundo de hoje tem tudo para ofuscar nossa visão e abafar a audição dessa voz.
“A fé é um dom de Deus” e “A fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo” (Efésios 2.8 e Romanos 10.17). “A fé é o olhar fixo da alma que contempla o Deus Salvador” (À Procura de Deus, de A. W. Tozer).
“Que é a minha vida, Senhor, senão aquele abraço com o qual a tua doçura aprazível me envolve?” (Nicolau de Cusa).
“Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo”. (João 17.3).
Ó dulcíssimo Jesus, venha a nós! Tenha misericórdia de nós, Senhor! Atende ao clamor daqueles que o amam! Derrame sobre nós o ardor da fé, para que repousemos em ti para sempre.

Hino 538 HCC Fala e Não Te Cales
Quem irá nos campos trabalhar,
e a semente santa semear?
Lembra-te de quem levou
uma cruz onde expirou!
Toma tua cruz também,
renuncia a tudo e vem,
segue o Mestre com fervor,
semeando sem temor.
Fala, fala e não te cales,
ergue a cruz da redenção.
Cristo espera que tu fales
ou as pedras clamarão!
Fala, fala e não te cales,
deixa agora os teus temores.
Vai com fé aos pecadores,
proclamando a salvação!
A mensagem leva com amor
às ovelhas que não têm pastor.
Eis as multidões sem luz,
perecendo sem Jesus!
Fala a todos sem cessar,
pois o sol vai declinar;
mostra agora compaixão,
e anuncia a salvação.


 “Non fecisti ad te et inquietum est cor nostrum donec requiescat in te”[Formaste-nos para ti e nossos corações não terão sossego enquanto não encontrarem descanso em ti] (St. Agostinho).
Está escrito: Jesus é a única resposta, o único caminho. Feliz o que nele crê! (Efésios 6.24); (1 Coríntios 16.22).