sábado, 9 de outubro de 2010

A Alegria do Mal

A Via Láctea

Trecho extraído de “Confissões”, de Santo Agostinho de Hipona, “Livro II – Os Pecados da Adolescência, VI- A Alegria do Mal”. Agostinho confessa um pecado cometido ao dezesseis anos, a daí filosofa sobre a natureza do pecado, revelando preciosa mensagem.

                “12. Que amei eu, miserável, em ti, ó meu furto, crime noturno dos dezesseis anos? Não tinhas beleza alguma, pois eras um roubo! (...)
                Agora, Senhor e Deus meu, procuro saber o que me deleitava no furto, e não lhe encontro beleza alguma. Não falo já da beleza que se encontra na justiça e prudência, na inteligência do homem, na memória, nos sentidos e na vida vegetativa; nem mesmo da que resplandece ou nos astros magníficos e brilhantes nas suas órbitas ou na terra e mar, cheios de espécies que,  nascendo,  sucedem às que morrem; nem tampouco  desta defeituosa sombra de formosura com que os vícios seduzem.
13. O orgulho imita a altura, mas só Vós, meu Deus, sois excelso sobre todas as coisas. Que busca a ambição senão honras e glória, embora só Vós tenhais direito a ser honrado sobre tudo e glorificado eternamente? A sevícia dos poderosos aspira a fazer-se temer; mas quem deve ser temido senão Deus? Quando, onde, até onde e quem pode tirar ou subtrair alguma coisa ao vosso poder? As carícias dos voluptuosos desejam a reciprocidade do amor; mas nada há mais acariciante que a vossa caridade, nem se pode amar nada mais salutar que a vossa verdade, a mais formosa e resplandecente de todas. A curiosidade parece ambicionar o estudo da ciência, quando só Vós é que conheceis plenamente tudo!
                Até a própria ignorância e estultícia se encobrem sob o nome de simplicidade e inocência. Mas nada se encontra mais simples do que Vós. Quem há mais inocente do que Vós, pois são as próprias obras que prejudicam os pecadores? À preguiça parece apetecer apenas o descanso; mas que repouso seguro há fora do Senhor? A luxúria deseja apelidar-se saciedade e abundância; Vós, porém, sois a plenitude e abundância interminável  da suavidade incorruptível. A prodigalidade cobre-se com a sombra da liberalidade; mas o mais magnânimo dispensador de todos os bens sois Vós. A avareza quer possuir muito;  e Vós possuís tudo. A inveja litiga acerca da “excelência”; mas que ser há mais excelente que Vós? A ira procura vingança; e quem se vinga mias justamente que Vós? O temor, enquanto vigia pela segurança das coisas que ama,  detesta os acontecimentos insólitos e inesperados que lhes sejam adversos; porém, que há de insólito para Vós? Que há de inesperado? Quem separa de Vós o que amais? E onde encontrar a firme segurança senão em Vós? A tristeza definha-se com a perda dos bens em que a cobiça se deleita – porque desejaria que nada, como a Vós, se lhe pudesse tirar.
                14. É assim que a alma peca, quando se aparta e busca fora de Vós o que não pode encontrar puro e transparente, a não ser regressando a Vós de novo. Imitam-Vos perversamente todos os que se afastam de Vós e contra Vós se levantam. Ainda assim, imitando-Vos deste modo, mostram que sois o Criador de toda a natureza, e que, por conseguinte, não há lugar para onde nos possamos afastar totalmente de Vós.
                Que amei, portanto, naquele roubo e em que imitei o meu Senhor, ainda mesmo criminosa e perversamente? Tive ao menos o gosto de lutar pela fraude contra a vossa lei, já que o não podia pela força, a fim de imitar, sendo cativo, uma falsa liberdade, praticando impunemente, por uma tenebrosa semelhança de onipotência, o que me não era lícito? Eis-me “aquele escravo que, fugindo  a seu senhor, seguiu uma sombra!” Ó podridão, ó monstro da vida e abismo da morte! Como pode agradar-me o ilícito sem outro motivo senão que o de me ser proibido?”



           Agostinho de Hipona foi o primeiro grande filósofo cristão. Seus pensamentos preciosos até hoje regem o cristianismo. Depois de Jesus, o Mestre, ele foi o que mais influenciou os pensamentos religiosos posteriores.
                Seu livro “Confissões” é uma obra prima da literatura ocidental, escrita em latim, o que confere às traduções em línguas latinas (como o português) grande elegância. É tão cheia de sentido sua obra, que ela revela espantoso caráter psicológico, nunca antes conhecido, naquela época antiga (séculos IV e V).
               Essa profundidade coloca esse livro como um dos mais preciosos da humanidade, e é uma resposta poderosa àqueles que desprezam a religião, como se ela estivesse abaixo à filosofia e ciência. Religião é a filosofia do espírito.
O trecho extraído revela o pensamento de que o mal nada é, e Deus tudo é, de modo que não há dualidade a não ser neste mundo, visto que o mal não pode concorrer com o Bem. Como pensava Clive Staples Lewis (1898-1963), em “Cristianismo Puro e Simples”, o mal é resultado de uma forma errada de buscar o Bem.
 Esse trecho nos mostra ainda, com suas palavras simples mas transbordantes de verdade, como funciona o mal, e o que ele é: o distanciamento de Deus, a fuga da Vida para a morte. O homem sem Deus busca no nada o que só Deus possui. O pecador é como o servo infiel que quer tomar o posto de seu senhor: é como o homem e a mulher que em vez de louvá-lo, comem do único fruto proibido, por desejarem ser como Ele.

Canto "Miserere Mei Deus" (Salmo 51), de Gregorio Allegri (1582-1652), compositor italiano.

A letra em português (tradução da "Bíblia de Jerusalém"):

"Tem piedade de mim, ó Deus, por teu amor!
Apaga as minhas transgressões, por tua grande compaixão!
Lava-me inteiro da minha iniquidade
e purifica-me do meu pecado!

Pois reconheço minhas transgressões
e diante de mim está sempre meu pecado;
pequei contra ti, contra ti somente,
pratiquei o que é mau aos teus olhos.

Tens razão, portanto, ao falar,
e tua vitória se manifesta ao julgar.
Eis que eu nasci na iniquidade,
minha mãe concebeu-me no pecado.

Eis que amas a verdade no fundo do ser,
e me ensinas a sabedoria no segredo.
Purifica meu pecado com o hissopo e ficarei puro,
lava-me, e ficarei mais branco do que a neve.

Faze-me ouvir o júbilo e a alegria,
e dancem os ossos que esmagaste.
Esconde a tua face dos meus pecados
e apaga as minhas iniquidades todas.



Domo da Catedral de St. Isaque, em São Petersburgo, na Rússia.


Aproveito para também fazer uma pequena confissão. Percebi em minha caminhada com Deus, a qual ainda é tão nova e fraca, que quanto mais eu me esqueço, quanto mais nego a mim mesmo, e me autoestimulo a compadecer-me do outro e reconhecer no outro algum bem, e mais me esforço para não julgar e para controlar meu mau temperamento, seja lá qual aspecto for, mais paz eu encontro, e mais próximo do Senhor eu me sinto.
Por outro lado, me pergunto “quem sou eu para pensar algo assim de mim mesmo?”, eu que tão cedo me desvirtuo do caminho, eu que procuro com tanta força apegar-me à Lei que admiro e defendo, mas que custo a cumprir. É nesse momento que sinto vontade de dizer: “Miserere mei Deus” (Tem piedade de mim, ó Deus), ou “Kyrie eleison” (Tem misericórdia), por mim e por todos os outros.
Foi diante dessa impotência, desse reconhecimento que Agostinho conheceu a si mesmo e desenvolveu seus pensamentos, e é com esse reconhecimento que o cristão deve começar sua jornada. Só Deus pode nos salvar; nós nada fazemos e nada somos. Só por meio do que Cristo nos fez, passamos a ter a chance de termos nossas iniqüidades apagadas.
A chave para o triunfo sobre a morte é o amor. Não há melhor sentimento para curar a alma do que o amor ao próximo, do que a caridade, do que viver mais para o outro do que para si mesmo. Estimular essas vontades é o exercício diário do cristão, é o que Jesus quer que façamos. Mesmo que seja às vezes tão árduo, outras vezes é doce, e o melhor de tudo é que quando a graça vem (a comunhão se fortalece) percebemos o quanto dependemos de Deus e o quanto estamos espiritualmente saudáveis e vigorosos. Quando vier o tempo em que a graça se vai, quando sentimos que outra vez estamos sozinhos e desanimados, é a hora em que devemos nos humilhar e clamar. Tudo tem seu motivo, Deus está no controle. 

"EGO SUM VIA, VERITAS ET VITA" (Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida), "Ninguém vem ao pai, senão por mim", disse Jesus.  A morte e o arrependimento perfeitos de Jesus, o Filho do Homem permitiu-nos sermos seus filhos; todos os humanos de todos os povos que o buscarem. Ele veio para poder acompanhá-lo em cada uma de suas orações, dando-lhe força e devoção para vencer a si mesmo, pois só você pode tirar a sua  salvação. Imitemos a Cristo, e sigamos suas palavras, que são Sabedoria; eis o caminho para a perfeição. "Sede perfeitos', ele disse. Ele nos fará perfeitos, não nesta vida, mas começando por ela. Se você ama o Bem, busque-o como a mariposa busca a luz. Juntemo-nos todos e caminhemos pela mesma estrada, nós, peregrinos neste mundo.

Espero que essa mensagem faça efeito em você. Confiemos, esforçemo-nos e amemo-nos uns aos outros: essa é a ordem!