sábado, 25 de setembro de 2010

Reflexões em Vinte Mil Léguas Submarinas

Esse texto foi escrito por mim há quase um ano, postado em outro blog, hoje quase extinto, visto que o deixei de lado. É baseado na leitura de "Vingt Mille Lieues sous les Mers", de Jules Verne. Porém, pela sua importância, eu o coloco aqui neste blog, que está sempre crescendo. Acrescentei imagens especiais e boas músicas, além de fazer ajustes e atualizações ao texto. Bom proveito!

"The Lion Rock, Belle-Ile-en-Mer", do pintor impressionista francês Claude Monet (1840-1926).

            No século XIX surgia o pensamento cientificista, que punha a ciência ante qualquer outra forma de conhecimento, priorizando-a como a fonte do conhecimento verdadeiro. A religião e as crenças populares eram postas em segundo plano, e por alguns até esquecidas; até mesmo a filosofia foi por isso influenciada.
            Isso se deveu ao fato de o desenvolvimento industrial ter criado a necessidade do desenvolver das ciências, e seu progresso trouxe a expansão das potências européias pelo mundo. O planeta começou a ser explorado em seus cantos mais remotos, e ela era o que favorecia a obtenção de riquezas e poder. O cientificismo até chegou a ser tema de crítica literária, como em "O Alienista", de Machado de Assis.
            Nesse contexto, surgiu na literatura a ficção científica, com o escritor francês Júlio Verne. Em suas obras, como "Viagem ao Centro da Terra", "A Volta ao Mundo em Oitenta Dias" e "Vinte Mil Léguas Submarinas", o autor criava aventuras fictícias, mas até certo ponto verossímeis, que levam o leitor a imaginar as partes mais remotas e inexploradas do globo, e vislumbrar um avanço tecnológico futurista (embora o autor nunca tivesse saído da França). Em sua imaginação Júlio Verne conseguiu “prever” avanços como o submarino, viagens espaciais e a televisão. O caráter científico foi explorado em pitorescos personagens seus, como no professor Lidenbrock e no lorde inglês Fíleas Fogg, enquanto outros representavam juventude, ingenuidade e despreocupação com os "grandes assuntos", como o temperamental Ned Land e o bravo e valente Passepartout (Fura-Vidas).
            A princípio sua obra foi como um relato de aventuras dirigido a jovens, mas atualmente são reconhecidas as mensagens profundas que existem em suas obras. O livro Vinte Mil Léguas Submarinas, obra que conta as aventuras do capitão Nemo a bordo de seu submarino Náutilo, além de emocionante história de aventura, possui importantes mensagens que exploro superficialmente nesse texto.
           
Primeiro Movimento de "La Mer" (O Mar) do músico francês Claude Debussy (1862-1918), considerado um "impressionista" da música da Era Romântica.

I – A mensagem filosófica
 "Pyramids at Port-Coton, Rough Sea" de Claude Monet.

Através das viagens pelos oceanos e mares, muitas belezas naturais são reveladas e descritas com cuidado, surpreendendo o leitor sempre. O livro apresentou o mar como um ecossistema magnífico, independente da Terra, cheio de segredos inexplorados. Mesmo hoje, com tanta tecnologia, o mar é um grande mistério. Isso levou-me a contemplar o mar como uma maravilha da natureza, e vi que ela é uma grande obra, perfeitamente organizada e surpreendente, cheia de vida, de equilíbrio, de inteligência.
            Essa ordem na natureza, e o simples enigma da existência, são as maiores indicações que existem de que há um Deus, que a tudo deu origem. Em muitos trechos do livro é revelada a crença em Deus, que é colocado como o organizador da natureza, o que mostra que mesmo em meio à ascensão do cientificismo, a existência de Deus era óbvia para muitos.
            Esse reconhecimento da existência de Deus a partir do próprio senso e da exploração do que há ao nosso redor é mostrada na Bíblia, que diz que todo homem é capaz de reconhecer Deus pelo seu senso e pela observação das maravilhas do mundo. Aquele que olha ao redor e não enxerga a Razão de tudo aquilo Ser, é “louco”, como está dito na Bíblia. Para mim é tão clara a presença de Deus, e tão insensata a ideia de que Ele não há, que eu realmente acho que só a loucura do pecado pode fechar os olhos de alguém. O teólogo Cornelius van Til disse: “A única prova de que Deus existe é que sem Ele não se pode provar nada”, ou seja, não há como imaginar a existência sem Deus, a Razão da existência, aquele que tudo criou em sabedoria e bondade.
            O filósofo grego Heráclito sabia pela experimentação que a natureza se transformava. E que misteriosa era essa natureza! Heráclito era um filósofo e por isso buscava conhecer a verdade através do pensamento, do senso. Ele de nada sabia. Mas observando o mundo material, ele reconheceu que o espiritual era indispensável. Ele sabia que pensava, e, portanto, existia.
             Foi assim que concluiu que o mundo é feito de opostos: luz e trevas, calor e frio, etc. Ele também acreditava que havia inteligência na natureza, a que ele chamou logos.

"Mer agitée à Etretat", de Claude Monet. 

            Heráclito, com seu senso, pelo exercício de buscar o saber, conseguiu reconhecer a existência do Deus sábio e criador. Ele errou em atribuir á Deus o bem e o mal, porque na verdade o mal é a ausência de Deus, e Deus é o bem. Sem a luz, tudo é treva, e sem treva, a luz nos cega. A treva é a ausência de luz, e não o contrário; o frio é a ausência de calor, e não o contrário.
            Na mesma época, havia o filósofo grego Parmênides. Ele foi o primeiro racionalista, e negava que os sentidos revelassem alguma verdade. Há lógica em acreditar que os sentidos (que existem) são enganação, como um sonho maluco? Ele também acreditava que tudo sempre existiu, o que é incompatível com a mente humana; seria como se houvesse um muro no limite do Universo com uma placa: Fim.  Se assim fosse, nada se transformaria, e os sentidos seriam mentirosos. Ele não reconhecia Deus. Por outro lado, ele acreditava que era impossível algo vir do nada, nem que o nada existisse, porque se existisse, não seria o Nada. Para ele o Ser é tudo, e tudo é imutável. A junção do pensamento de Parmênides e Heráclito concorda com o célebre Platão e com a filosofia cristã, pois mostra que algo eterno deve ter criado o temporário, etc.
Até hoje há pessoas que pensam assim: uns ainda acham que tudo sempre existiu (mas continuam a não saber a razão de existir), outros acham que o mundo surgiu sem Deus, e é aí que surge a pergunta: por quê, então, o mundo surgiu? Do nada, ou seja, por nenhuma razão e com nenhuma causa? Parmênides achava que tudo sempre existiu porque “Nada pode surgir do nada”, o que faz sentido. Tente imaginar o Nada. Nosso cérebro não consegue compreender. Agora pense como do nada todo o Universo pode passar a existir, como vem algo do Nada ao Ser? A única resposta é que esse Universo material e limitado vem de Deus, que é espírito, e a tudo deu origem.

Segundo movimento de "La Mer", de Debussy.

II – A mensagem científica
 "La Mer à Saint-Adresse", de Monet.

Júlio Verne acreditava no progresso da humanidade através da ciência e do avanço tecnológico. E isso é muito contraditório. A ciência foi usada para o mal, embora trouxesse também o bem.
A tecnologia foi desenvolvida inicialmente para o nosso bem. Na Pré-História o homem desenvolveu suas ferramentas, seus instrumentos, seus conhecimentos para que pudessem sobreviver à força da natureza. Até as armas serviam para sua defesa e para a sustentação da vida. O problema foi que conforme o homem ganhava poder, ele almejava consegui-lo em maior proporção, e a humanidade seguiu esse trajeto de busca pelo poder. E por isso o conhecimento foi utilizado para o mal.
A Química se diz uma ciência que visa “satisfazer ás necessidades humanas de moradia, alimentação, segurança e saúde”, ou seja, melhorar a nossa qualidade devida. Sim, esse é seu objetivo ideal. Mas por acaso foi só qualidade de vida que a química nos trouxe, junto de tantas outras ciências? O homem usa o bem para o mal. Hoje o mundo possui potentes armas para a guerra, para destruir, visando o poder sobre todo o mundo. O planeta já chegou a ficar dividido entre duas forças que buscavam o poder supremo – veja como o ser humano faz o mal em busca de satisfazer seu ego! E eles nem imaginam que tudo aquilo é inútil, que tudo aquilo é morte. O conhecimento, que poderia ser usado para o bem, foi desviado para o mal, porque o homem possui natureza má. Jean Jacques Rousseau (1712-1778), dizia que o ser humano era bom, a sociedade é que o corrompia, mas ele foi falho em não prestar atenção no fato de a sociedade, o Estado terem sido resultado inevitável de seu progresso na busca por poder. O egoísmo, o amor próprio é o centro de todo mal, a origem do pecado.

"Grosse mer à Etretat", de Monet.

Isso me lembra muito o significado do Um Anel em O Senhor dos Aneis. A história conta que a princípio foram feitos vários anéis de poder, que foram distribuídos entre vários reinos, e que traziam benefícios como, por exemplo, vida longa. Mas o poder de todos os anéis foi usado para criar o Um Anel, um poder supremo, que embora pudesse ser usado com o intuito de fazer o bem, traria o mal e seduzia a mente do ser que o possuísse.
Além de representar o pecado, o poder almejado pelo homem, representa a tecnologia. O autor, J.R.R.Tolkien, tinha aversão à ela, de modo que não gostava nem de ferrovias. Era um péssimo motorista. Ele colocou a tecnologia como um poder muito grande que é inevitavelmente utilizado pelo homem para fazer o mal.
Vejamos o submarino: no começo do século XX, pouco depois da morte de Júlio Verne, já existiam potentes submarinos que foram utilizados na guerra. O avião, célebre invenção do brasileiro Santos Dumont, que surpreendeu o mundo, foi rapidamente convertido em arma de guerra, de grande destruição. Os navios há muito eram usados para esse fim. As descobertas a respeito do átomo, fruto do estudo dedicado de muitos químicos, como Ernest Rutherford, foram utilizadas para a criação da arma mais destrutiva e perigosa que o mundo já viu: a bomba atômica. O homem, em sua loucura, usa o conhecimento para seus desígnios maus.

"La Gare Saint-Lazarre", de Monet.

Júlio Verne tinha consciência de que a tecnologia e a exploração da natureza poderiam ser um mal, embora acreditasse no progresso da humanidade através disso. Talvez Júlio Verne acreditasse num modelo de vida sustentável, talvez utilizando conhecimentos avançados para apropriar-se de fontes alternativas de energia, sem explorar exageradamente a natureza. O submarino Náutilo, em sua obra, retirava do mar tudo de que precisava, sem causar desequilíbrio. Por outro lado, isso só era possível pelo domínio de grande poder tecnológico.
Hoje temos tecnologia suficiente para adotar um modelo de desenvolvimento sustentável. O que falta é ação. Se não é possível regredir à era pré-industrial, o jeito de salvar o planeta do desequilíbrio é adotar um novo modelo. Há fontes de energia que agridem menos a natureza, mas os estados nacionais parecem pouco se preocupar com isso.

"Trem na neve", de Monet.

Ainda no século XIX, Júlio Verne dizia em sua obra que a caça a animais como os cetáceos, etc, poderiam causar a extinção de muitas espécies e um grande desequilíbrio no ecossistema. Desde aquele tempo já havia a consciência do que o homem poderia causar á natureza. As previsões de Júlio Verne hoje se confirmam com força assustadora.
O homem sempre teve necessidade de se apropriar da natureza para sobreviver, mas agora ele está destruindo sua fonte de sustento, seu lar, por causa do egoísmo e sede por riqueza e poder. Tudo fútil, tudo um caminho para a morte. Esses não reconhecem a razão de andarem sobre a Terra, esse ponto de vida em meio ao Universo enigmático. Como possuem explicações científicas para os fenômenos naturais, perderam o deslumbramento pelo mundo, e assim, atrofiaram seu senso de que toda essa maravilha e beleza foi criada por Deus.

"Belle-Ile, Rain Effect" de Monet.

Há, então, uma mensagem ecológica. A obra Vinte Mil Léguas Submarinas revela como a natureza é equilibrada e complexa, e mostra como o homem a prejudica. Mostra como a tecnologia surpreende e favorece o homem, mas para isso deve ser usada com um propósito, com uma consciência. Devemos amar e cuidar desse mundo belo.
Infelizmente, a natureza do homem exclui nossas esperanças de que a tecnologia traga só o bem, ou mesmo que possa trazer algum bem verdadeiro daqui a diante, ou mesmo de que um dia haverá equilíbrio entre o poder do homem e a natureza. Hoje, as utopias pouco valem, porque agora nesse fim dos tempos, não devemos esperar aquilo que desde o princípio nunca houve.

Terceiro movimento de "La Mer", de Debussy.
Gabriel  Pedroso Batista

A Contemplação do Mundo


Trecho da Epopeia “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões (1524-1580).

Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa: «O transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.

«Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.







"Russian Easter" de Nikolai Rimsky-Korsakov (1844-1908).

Lição de Fé e Submissão

"A Philosopher Giving A Lecture at the Orrery (1765)" de Joseph Wright

Trechos retirados de: “Imitação de Cristo” de Tomás de Kempis, capítulo XVIII, Livro Quarto.

“Quem procura penetrar no segredo da grandeza é por ela oprimido” (Pr 25,27).

Deus pode realizar mais do que o ser humano pode compreender.

Bem aventurada a simplicidade, que foge das vias tortuosas das questões complicadas e prefere trilhar o caminho reto e firme dos mandamentos de Deus.

Se não entendes nem alcanças o que está abaixo de ti, como compreenderás o que te está acima?

Deus não falha, falha quem crê demasiado em si mesmo.

Deus gosta dos simples, revela-se aos humildes, dá-se a conhecer aos pequenos, abre a mente dos puros, e esconde a graça dos curiosos e orgulhosos.

A razão humana é fraca e pode falhar, mas a verdadeira fé não se engana.

Razão e investigação natural devem seguir a fé, não precedê-la ou a ela se opor.

Se as obras de Deus pudessem facilmente ser compreendidas pela razão humana, não seriam maravilhosas e imperscrutáveis. Amém.


Primeiro movimento da Sinfonia No.4 de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893).

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Reflexões sobre os tipos e naturezas do Amor e das paixões

 "Jovem moça defendendo-se de Cupido", pintura de William-Adolphe Bouguereau.

Os termos amor e paixão costumam se misturar, de modo que eles, naturalmente indefiníveis, tornam-se ainda mais difíceis de compreender. Nesse texto eu expressarei pensamentos meus a respeito de alguns temas a isso relacionados, fruto de leitura e reflexão. Obviamente muito disso é minha opinião, ou tentativa de acertar, assim como os vários discursos dos muitos filósofos gregos eram proferidos a partir de suas “inspirações” e observações, sendo sempre corrigidos, e reformulados...
            Amor e paixão são coisas distintas, embora a paixão costume ser subjugada pelo amor, como sendo um estado dele. A paixão é momentânea, e pode estar dentro ou fora do amor.
            A paixão que se baseia no prazer e na carne é falso amor; os sacrifícios, os anseios, a devoção, as gentilezas, a ternura, os sentimentos ilusórios, as fantasias, as invejas, tudo gira em torno da satisfação de um desejo efêmero. A paixão de Eros é assim quando não está acompanhada de outra paixão ou amor.
            O amor é três: Ágape, Phileo e Eros, assim como nós somos três (corpo, alma e espírito), feitos à semelhança de Deus, que É Três (Pai, Filho e Espírito Santo) e Um. O Eros é o desejo delirante: ele é o que apaixona alguém por alguém, ou alguém por uma coisa, como o filósofo pela filosofia, o artista pela arte, o amante pelo amado.
Quando o Eros carnal se manifesta dentro do casamento, ele não representa problema, falsidade e pecado, pois não está sozinho: um casal deve estar unido corporalmente e espiritualmente, de modo que sua relação não é só a paixão erótica, momentânea. Assim como o corpo não deve ser o alvo de nossa atenção e edificação, e sim o espírito, o Eros carnal não deve ser o guia maior de nossas relações, nem o Eros como um todo deve ser o guia de nossa vida, pois ele não aponta para o celeste, mas para o terreno.
Se somos também corpo, o Eros é saudável e natural. Mas nem tudo o que é natural é bom, aliás, a natureza humana é má, lutando contra a graça. O equilíbrio entre essas duas tendências é o objetivo do cristão. Assim conta o mito da parelha alada, de Platão (leia o diálogo platônico “Fedro”). “Todo mundo tem um pouco do céu e do inferno dentro de si”, assim está escrito em “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. A luta de opostos não é o que pregava Heráclito e filósofos do Oriente? Não é o equilíbrio o ideal, o melhor que toda filosofia busca? “A mediania é a melhor coisa”, se diz em “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe.
Pintura erótica em casa romana, provavelmente uma das muitas preservadas nas casas da arruinada Pompeia.

Isso mostra que não há santo na Terra, nem em lugar algum, exceto o Senhor, e que só somos salvos pela graça, mas que a perfeição é o que devemos buscar. Obedecer à sabedoria bíblica é obedecer à Deus, o qual é a Sabedoria. Em Provérbios há magníficas palavras honrando e mostrando a importância de se ouvir a voz da sabedoria. A Bíblia não é um livro de regras insensatas, mas sim o guia para uma vida santa. O sexo no casamento é o ideal para a felicidade do cristão – não do pecador, porque para ele isso é aborrecimento, mas para o que ama e teme o Senhor.
No diálogo “Fedro”, o discurso de Lísias apresenta uma visão negativa sobre esse assunto, mas em seguida Sócrates, embora de início tenha concordado, apresentou argumentos contrários. O que importa é que Eros, se descontrolado, é prejudicial, mas ele não deve ser visto como algo ruim, pois nem mesmo todo delírio é ruim. O homem por acaso é feito de sensatez, ou é uma mistura disso com a loucura?
Não é por qualquer razão que para a mitologia greco-romana, Eros (Cupido), o travesso arqueiro, é filho de Afrodite (Vênus), deusa da beleza e sexualidade, e Ares (Marte), deus da guerra. Desse modo, assim como a guerra requer sangue, o amor o exige, visto que pode-se matar, se matar e se entregar à morte, por sua causa. Também o amor pode unir duas pessoas em sangue (em corpo).
 Estátua grega da deusa Afrodite.

O amor Phileo é o amor da amizade, aquele que há de irmão para irmão, de pai para filho, de amigo para amigo. É amor casto e belo, de maior valor que o Eros. Ele não surge repentinamente como ele, mas sim é construído e melhorado; é mais forte e nobre que o outro. Se os dois amores habitam juntos, há um casal. Se Eros está sozinho, há dois amantes. Se Phileo está sozinho, há dois amigos.
Não ouvimos falar em paixão Phileo, porque essa paixão não é impulsiva e comum como a paixão Eros. Para muitos, ela não existe, mas  precisamos definir algo sobre o que é “paixão”.
Paixão é um estado subjugado pelo amor, ou um delírio que se sobrepõe a ele. Sendo um estado transitório, ela se manifesta no apogeu e na queda de uma relação amorosa.
Deixe-me esclarecer: um amor não correspondido pode gerar uma paixão infeliz, onde tudo é decadente, cinzento, motivo para desânimo. É o perfeito ingrediente para uma tragédia. Um amor correspondido, de início é floreado e tudo parece bom. “O mundo ideal...”, assim Aladdin canta no desenho animado da Disney, quando leva a princesa Jasmine para passear em seu tapete mágico. Ele voa no tapete e só visita e enxerga lugares bonitos.
Com isso conclui-se que não há arte sem paixão, ou mesmo sem amor, pois suas manifestações de auge e decadência movem os sentimentos, a sensibilidade do produtor e do receptor de uma obra artística.
Uma paixão trovadoresca é casta e nobre; o amante sofre e louva quem ama, querendo servir ao seu amor, e contentando-se imensamente em estar com ele. No caso de uma poesia do Trovadorismo, o eu poético é infeliz por estar distante da mulher amada. Essa paixão parece muito irreal, muito idealizada. Mas se pensarmos num irmão que se separa do outro, ou de um pai ou mãe que está longe do filho, ou dois grandes amigos que foram distanciados por alguma razão, veremos que as pessoas não choram somente por uma paixão erótica momentânea que começou em ternura e acabou em enjôo e saturação, mas por aqueles que amamos de coração, por aqueles que por convivência, bondade e afinidade demonstraram e construíram um amor Phileo.
Iluminura medieval de um casal apaixonado.

Se há paixão Phileo, ela não pode deixar de estar relacionada ao máximo e ao mínimo desse amor. Seu ápice se revela timidamente, como quando alguém, geralmente numa data especial, resolve dizer (ás vezes com clichês e timidez) o quanto aquela pessoa lhe é cara, estimada. Mas quando essa pessoa se vai, ou a relação está crítica, vem a expressão de sua crise: a saudade. Esse sentimento é puramente amoroso, pois é feito de simultâneas dores e prazeres nostálgicos.
Com certeza existem outros casos disso, que não cabem a ser explorados ou pesquisados por mim. Esse tipo de paixão é de uma natureza diferente da paixão de Eros.

De qualquer modo, o amor é delírio, santo ou pecador, e é sempre belo, mesmo que de uma beleza artística. Ele é o tema para o drama, ele é a mãe da saudade, da nostalgia, faz queimar dentro de sua vítima um fogo ardente que queima de felicidade e prazer, mas que deixa cinzas tristes e deprimentes. Ele pode resultar em derramamento de sangue; pode-se morrer por amor interior e exteriormente.
O amante pode encher-se de alegria e ter um ótimo dia quando ouve a voz de seu amado, ou percebe que de algum modo ele correspondeu às suas demonstrações de afeição. O amante, em sua presença, deixa de se importar com tudo o mais, se esqueçe de parentes e amigos, e se lhe falta a sua companhia, tudo é ruim e triste.
Luís Vaz de Camões no soneto “O amor é um fogo que arde sem se ver(...)” conseguiu defini-lo com nobreza, e não como loucura como no discurso de Lísias, mas devemos compreender que ambas as obras falam de diferentes amores, por assim dizer. Camões falava do amor casto, daquele que quer servir o seu amado, e quer o seu bem. Já Lísias falava de um amor ligado ao erotismo, aos ciúmes, à inveja do amado, etc. Sócrates, porém, defende o Eros como um todo, o carnal e o da alma.

Ilustração de Luís Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas (1524(?)-1580).

É importante que o leitor saiba que dividir o amor, e mapeá-lo é um tanto ridículo e vão, sendo que só a poesia, com sua linguagem de arte, poderia falar do que origina a arte.

Trecho 'Vogliatemi bene' da ópera italiana "Madama Butterfly" de Giacomo Puccini (1858-1924). Nessa obra, o perigo, os enganos e ilusões do amor, assim como sua beleza e força, são revelados numa história repleta de música e poesia. Procurem ouvir e conhecer essa história, ou melhor, assistir essa ópera, uma obra-prima. No trecho citado, uma japonesa, apaixonada por um estrangeiro (um estadunidense) acredita em suas palavras e se rende ao poder que a paixão exerce sobre ela. A continuação e o terrível desfecho dessa história cabem ao leitor descobrir.

Agora me resta falar do amor Ágape, que é o amor santo, divino, eterno e verdadeiro. Esse é o amor de Deus para nós. Jesus morreu em nosso lugar, carregou sobre si a dor de se separar do Pai, de enfrentar a morte por amor. Não há como amar o próximo sem esse amor. É o mais nobre de todos, o amor de sacrifício, aquele que nunca muda. Não é preciso conhecer o próximo para amá-lo, por ele ser o que é: humano. E mesmo Deus sendo perfeito amou-nos, que somos imperfeitos, e ama, e amará. “Deus é Amor”, já lemos e ouvimos isso por aí; o mesmo se diz para “Deus é Fiel”. O cristão deve nutrir-se do amor ágape, com ele só há perfeição, eis a solução para afugentar o mal: amar como Jesus nos ensina. Eis o caminho para o Bem, eis a razão de tudo o que acontece.
"Ho Theós agápe estín", Deus é Amor.

Devemos amar o próximo como a nós mesmos, esse é o objetivo máximo, é o que Deus realmente quer de todos, é a chave para morar no Paraíso, junto de Deus: o Amor. Que essa mensagem seja para o leitor, amigo meu, amado meu em nome de Jesus (pois ele justifica e gera todo amor), uma mensagem além da simples filosofia, que seja uma mensagem que ilumine sua alma e contribua para que pelo amor divino, você possa aliar-se ao Eterno.

Gabriel Pedroso Batista
06/09/10