quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Cogito, ergo sum

Carta 1 – Cogito, ergo sum

Introdução
Sabemos que Jesus não pregava seus ensinamentos buscando provas lógicas para isso. Por quê? Porque ele falava aos humildes, que davam ouvidos sem buscar questionar a partir de seus conhecimentos (que eram poucos). Eles tinham mais facilidade em ouvir com o coração. E de fato uma pessoa só se torna cristã quando ouve pelo coração.

Estamos no século XXI e todos aqueles que não são cristãos precisam de algo que derrube algumas barreiras á suas visões, para que possam chegar a fé. Por causa disso vou começar pela filosofia, pela razão, para que depois esteja pronto para falar ao coração. Primeiro vou limpar o terreno de barreiras á visão do leitor, para prosseguir o caminho.

O primeiro passo começa com o assunto da existência de Deus, como provavelmente você já esperava. É estranho como até hoje Deus é um mistério para tantas pessoas; muitas delas preferem ficar “em cima do muro” diante dessa dúvida. Mostram-se indiferentes, vivendo os dias e dias sem saber nem ao certo por quê. De fato, a questão da existência até hoje é a mais discutida.

O maior problema é que a existência d’Ele não pode ser provada, nem o contrário, como diz a filosofia do alemão Immanuel Kant. O objetivo dessa Carta é mostrar que a crença num Criador é a mais lógica e adequada e não há nada que possa mostrar o contrário.

I
Dois “mundos”

A filosofia é o primeiro caminho que tomaremos.
Immanuel Kant, no final do século XVIII derrubou séculos de filosofia e marcou uma nova era na sua história. Kant dizia que somos limitados pelos nossos sentidos, que nos trazem representações da realidade que podemos capturar, como uma foto é uma representação de algo real, como uma gravação ou como a imagem num espelho.

Immanuel Kant (1724 - 1804)
Portanto, uma foto não grava sons, e não conhecemos nada que não exista dentro de nossas mentes por aquilo que experimentamos. Todo o conteúdo de nossas cabeças vem do que podemos absorver do mundo à nossa volta. O que vemos é a nossa interpretação da luz que chega aos nossos olhos. As cores só existem para nós.

Alguém que nasceu cego nunca poderá desfrutar da visão de um dia de sol, por mais que alguém descreva tudo. Essa pessoa poderá sentir o vento e o calor do sol, ouvir o barulho dos pássaros e da relva sendo pisada, e sentir o aroma das flores, mas não nunca verá um arco-íris que está ao longe.

Vivemos no mundo chamado “fenomênico”, o mundo dos fenômenos físicos, como o qual nos relacionamos de forma limitada. Por isso não há nada aqui nesse mundo que possa provar se Deus existe ou não. Deus e qualquer outra “verdade” não podem ser provadas por estarem além do que podemos experimentar. A ciência não pode dizer nada sobre a existência divina nem mostrar o contrário.

Kant influenciou diretamente o também filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que veio logo após ele, e também foi um filósofo de grande importância. Ambos acreditavam no mundo fenomênico, mas também em outro, que ia além do material. Esse mundo “oculto” é abstrato e está livre das limitações materiais, e está sobre nós provavelmente controlando-nos. Nós, limitados pelos nossos sentidos, não podemos nos relacionar diretamente com ele.

Arthur Schopenhauer (1788 - 1860)
Assim pensava o filósofo alemão Schopenhauer, que não era cristão. Schopenhauer mostra claramente em sua filosofia a mesma crença de Kant num mundo de fenômenos físicos e num outro que é abstrato, que está separado de nós, além de nós, e sobre nós. Estamos limitados ao mundo fenomênico, mas á nossa volta aquele mundo nos controla.

Em todos há o senso de matéria e espírito, e na sua filosofia há ideias que tratam dos dois “mundos”, de matéria e espírito. Ele nem nenhum outro filósofo considerou que esse mundo imaterial, que está além de nós, é nada mais nada menos do que Deus.

Nosso pensamento e nossos sentimentos não são apenas “extintos”, e tamanha perfeição no mundo á nossa volta não surgiria por acaso, não se organizaria assim, se por trás de todo esse mundo fenomênico não houvesse a mão daquele “abstrato”, que na verdade é Deus. Todos nós temos consciência de um ser superior, de que não somos apenas matéria. Mesmo que não se acredite em Deus é comum a todos a ideia de um mundo além do físico, que está além de nossas limitações. Trataremos mais á frente a questão do senso comum de Deus.

II
Só sei que nada sei
Todos os tipos de pensadores (criacionistas, naturalistas, materialistas, ateus, deístas, etc), possuem as mesmas evidências, o mesmo mundo. Todos eles têm suas visões, mas nenhuma delas pode ser provada; nada nesse universo pode nos dar certeza de algo. O que os leva a pensar diferentemente são as suas pressuposições (pois nada é provado).

Uma pressuposição é uma ideia tomada antecipadamente como verdadeira sem serem necessárias evidências; é uma verdade por si só, que não pode ser comprovada. A crença em Deus não é provada pelos nossos meios, nem mesmo o evolucionismo o é. Todas essas correntes de pensamentos não podem ser tomadas por definitivamente verdadeiras.

Isso nos lembra a famosa frase de Sócrates, grande filósofo grego: “Só sei que nada sei”. E de fato desde aqueles tempos o homem viaja pela filosofia e encontra vários caminhos, sem que nenhum revele uma verdade definitiva.

Sócrates (469 - 399 a. C.), fundador da Filosofia Ocidental

Veja o que Richard Lewontin, um eminente biólogo de Harvard, disse acerca desse assunto:

“Ficamos ao lado da ciência apesar do absurdo evidente de algumas de suas elaborações, apesar de suas falhas em realizar muitas de suas promessas extravagantes de saúde e vida, apesar da tolerância da comunidade científica com ideias que são apenas teorias não sintetizadas, porque temos um compromisso prévio, um compromisso com o materialismo. Isso não significa que os métodos e instituições da ciência de algum modo nos obriguem a aceitar a explicação material do mundo dos fenômenos, mas, ao contrário, significa que somos forçados por nossa adesão a priori às causas materiais a criar (...) um conjunto de conceitos que produzam explicações materiais, não importa quão contrárias à intuição elas sejam, não importa quão mistificadoras elas sejam para os que não são iniciados. Além disso, esse materialismo é absoluto, porque não podemos permitir uma intervenção divina em nosso mundo.”

Muitos de nós, diante do encanto das coisas materiais, logo abandonam a filosofia, que parece tão duvidosa e incerta, e são seduzidos pelas ideias da ciência, aceitando-as logo como verdade absoluta. O mundo de hoje está tão mudado que damos muita atenção ao material e a filosofia e religião parecem muito vagas e contrárias ao louvável progresso e desenvolvimento da sociedade, e assim são esquecidas, ou substituídas pela liberdade aparente dada pelo pensamento simples de que não há Deus e que a verdade é a incontestável e infalível ciência.

Estamos diante de argumentos circulares. Quando baseamos todo o nosso sistema de pensamento em pressuposições, temos de explicá-las com elas mesmas, visto que não há nada no exterior que as possa atestar (são verdades por si mesmas). O ponto em que estamos é o ponto alto de todo o pensamento humano. Aqui há aqueles que avançam seguros em suas convicções, e há aqueles que ficam indecisos, “em cima do muro”, os agnósticos: estes não optam em acreditar ou não em Deus.

“Não dá para procurar numa enciclopédia se existe um Deus, ou se há vida após a morte. A enciclopédia também não nos diz como devemos viver.”
O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia, de Jostein Gaarder.

Richard Dawkins é um dos maiores defensores do ateísmo, mas ele nunca conseguiu provar isso. Tudo em que ele acredita se explica por pressuposições. Dawkins organizou na Inglaterra o Camp Quest, uma colônia de férias só para jovens ateus, aonde, além de se divertirem, discutiriam e desenvolveriam seus pensamentos livres da “interferência religiosa”. Quem conseguisse provar que no parque não existiam unicórnios (os quais não deixavam nenhum vestígio nem deixavam nenhuma evidência) ganharia o jogo e receberia um prêmio: uma nota de dez mil libras com a face de Charles Darwin.

Charles Darwin (1809 - 1882), o famoso naturalista britânico que propôs a teoria evolucionista

Ninguém conseguiu, e aí se explica algo muito importante: não se pode provar que Deus existe ou não, pois Ele não deixa vestígios científicos, que nossos sentidos podem capturar e analisar. Estamos presos aos nossos sentidos e o Deus está além do mundo fenomênico, e está sobre nós. Podemos reconhecer Deus a partir de nossas pressuposições, que podemos chamar de crenças, de fé, que surge a partir do senso comum de Deus. Trataremos mais adiante desse senso e de como Deus se revela a nós.

Talvez, leitor, você esteja pensando que acabei de afirmar que tudo o que pensamos está baseado em pressuposições, está fundamentado em coisas que temos que aceitar como verdadeiras, e pode parecer espantoso. Mas é isso, e nem a lógica escapa da circularidade.
“A coerência lógica rege minha vida porque é lógico agir assim”
E o que dizer da razão?
“A razão é o fundamento da minha vida porque é razoável que isso o seja”

Por exemplo: cremos na gravidade porque desde sempre experimentamos na nossa exploração do mundo que um objeto é atraído para baixo, sabemos disso pelo experimentalismo. Mas nem por isso podemos provar com absoluta e inquestionável certeza que isso sempre acontecerá, pois há coisas que desconhecemos por não termos como experimentar. Não se pode dizer que a gravidade é ou não é uma coincidência (apesar de todos nós acreditarmos fielmente que a gravidade é uma lei e não um fato que por acaso se repetiu todas às vezes). Como se garante que uma pedra vai cair sempre no chão, se talvez ela tenha sempre caído por acaso, e não por uma lei?

Foi Kant quem apontou essas limitações do nosso pensamento. Assim como a água toma a forma do jarro em que é derramada, nossas experiências sensoriais (que conseguimos com os sentidos, com o que vivenciamos) tomam a forma de nossa consciência, ou seja, nossa mente contém premissas que englobam, classificam e representam toda a realidade que experimentamos.

Por isso, tudo o que conhecemos é o que o mundo é para nós; nunca saberemos como o mundo é em si. Um exemplo é o seu olho: quando se lê esta Carta, na verdade, não se vê o papel, e sim a representação visual do papel. Tente imaginar o papel sem cor, sem densidade, sem aspereza. Tente imaginar o Nada. É impossível para nós.

Kant mostrou que nós possuímos premissas, fatos iniciais, sem as quais não experimentaríamos o mundo externo, e muito menos o distinguiríamos de nós mesmos, fazendo julgamentos acerca dele. Espaço é uma delas; é por isso que não podemos vislumbrar o que seria o nada. Kant disse que a filosofia é, entre outras coisas, estabelecer os próprios limites do que se pode conhecer com segurança. É como se houvesse argumentos que são verdadeiros sem justificativa, pois só assim sairíamos de argumentos circulares, como acontecia na antiga filosofia grega, de forma que um argumento destrói a si mesmo.

Kant mostrou que nem a razão pura (sem o que se vivencia) nem os sentidos sem as premissas da razão fornecem uma visão de mundo satisfatória. A razão, por si só, se contradiz a si mesma. Segundo a razão, o universo tanto pode ter tido uma origem (mas como algo surgiria do nada?) como tenha sempre existido (mas como algo pode existir para sempre?). Ambas são possíveis, e ambas, contraditórias. As experiências, por si só, não nos permitiriam julgá-las, classificá-las, ou distinguí-las. Outra questão é se o universo tem ou não um fim; se o universo é finito, o que há além do seu fim? Se houver um muro de tijolos no espaço com a inscrição “FIM”, alguém questionará: “e o que há além do muro?” Se o universo é infinito, como ele pode estender-se sem fim?

Já disse nas Cartas que, como a lógica nem nada mais prova a existência de Deus, então a chave para Ele ser a nós revelado é a fé, que é o resultado de sua obra em nós quando lemos a Escritura. Trataremos da importância indispensável da Bíblia nisso tudo mais tarde. De que modo, então, Deus se revela a nós?

III
Penso, logo existo
René Descartes (1596 - 1650)

René Descartes foi o fundador da filosofia moderna. Ele procurou reformar a filosofia, baseando-se apenas nas verdades seguras e retirando as ideias incertas. Por isso, formulou a famosa frase: Cogito, ergo sum (“Penso, logo existo”). É interessante saber que Descartes tinha como um de seus conhecimentos seguros a existência de Deus; para ele, tanto quanto a certeza de que quem pensa, existe.

Quando nos deparamos com uma ferramenta no chão, sabemos que alguém a criou. Relógios requerem relojoeiros, livros requerem autores. Computadores indicam que alguém os projetou. Sabemos que as misteriosas estátuas da ilha de Páscoa não foram resultado de uma lenta erosão; foram feitas por alguém. Mas nos deparamos com coisas muito mais complexas e impressionantes do que máquinas. Uma célula é muito mais admirável do que um supercomputador, e todas as grandes obras da humanidade são nada perto dos seres vivos.

Estátuas da Ilha de Páscoa

Todos reconhecem que a vida é tão deslumbrante que parece ter sido inteligentemente projetada. Até mesmo Richard Dawkins, famoso defensor do darwinismo e do ateísmo, disse:
“Nós temos visto que os seres vivos são muito improváveis e muito belamente “projetados” para terem vindo à existência por chance”.
Esse Dawkins afirma que a seleção natural cria tal perfeição, a partir de suas mudanças no DNA. De fato as mudanças ao longo do tempo causaram um rearranjamento das informações genéticas. Mas a seleção natural não pode ser a criadora disso tudo. A seleção natural aconteceu por interferência de um Criador, de alguém que projetou essas “máquinas”, e organizou tudo em sua sabedoria e perfeição para que o mundo chegasse a ser o que é hoje. A natureza é sábia e equilibrada, o que revela a presença de um sábio Criador.
Não haveria seleção natural sem que Deus tivesse organizado tudo para que assim acontecesse. Tenha sido por evolução ou não, Deus está por trás de tudo o que acontece e todo o processo pelo qual o mundo passa está em suas mãos.

Se houve mesmo evolução e seleção natural para que tudo se formasse, ainda assim Deus não fica de fora. Não importa como tudo tenha surgido “cientificamente”; tudo o que aconteceu assim foi porque Deus estava no controle. Trataremos mais adiante de como religião e ciência se encaixam perfeitamente quando há bom senso, e como a Bíblia se apresenta diante disso.

Tudo à nossa volta testemunha projeto, inteligência, ordem, causa. Deus parece ser a mais plausível solução para isso e também para a origem do universo (do contrário, ele teria surgido do nada ou sempre existido, o que nos é inconcebível).

Nós mesmos somos a maior evidência da existência de Deus. Como está escrito na Bíblia, fomos criados á imagem e semelhança d’Ele, porque temos alma e consciência, pensamos e amamos, fomos criados como os seres mais perfeitos da terra. E por termos Vida, somos os filhos de Deus e reinamos sobre o mundo. Nossa perfeição, nossa existência é a maior evidência de Deus.

Está muito claro na Bíblia que Deus criou cada um de nós com a capacidade de reconhecê-lo em nós mesmos e no mundo em que vivemos. Simplesmente por tudo isso existir, por existirmos, nós que pensamos e sentimos, e haver um mundo sábio e incrível, mostra que não há lógica em crer que tudo isso surgiu sem nenhuma razão, ou seja, sem que Deus o tivesse criado.

Da mesma forma que as habilidades, a criatividade e genialidade de um pintor se revelam em sua pintura, Deus colocou em sua criação um pouco de si, e em nós Ele colocou alma e nos fez seus filhos, originalmente perfeitos por isso, antes de pecarmos e deixarmos de estar junto d’Ele. Por isso podemos reconhecê-lo em nossa própria existência.

Assim, foi o mal que levou incontáveis povos a usar seu senso de Deus para cultuar coisas terrenas e vários deuses, no lugar de um único. O senso prega a lógica de Um Deus, único e perfeito por si só, único em existência (trataremos em outra carta de Deus e seus atributos e de como tudo aconteceu no Começo).
Segundo a Bíblia, é o “tolo” que diz em seu coração: “Não há Deus” (Salmos 14.1). Ela cita duas formas especiais de revelação: a revelação geral (pela natureza, história humana, ética humana) e revelação especial (por meio da Escritura). Assim, toda pessoa em seu juízo são reconhece que tudo o que existe requer a existência de um Criador. Veja o que a Bíblia diz em Romanos 1.20:

“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”.
"A Criação", de Michelangelo.

Todos nós nascemos com o senso interior de um Deus, um Criador. Por isso a religião é o que há de mais comum entre todas as civilizações. No mundo de hoje muitos ficam perdidos e não sabem em que acreditar e se iludem pela convincente ideia de que a promissora ciência trará a verdade e o bem-estar a todos e que a religião sempre foi um flagelo. É preciso, portanto, pensar mais criticamente e mais profundamente, pois tal pensamento ainda é muito superficial.

“Essas perguntas tem sido feitas pelas pessoas de todas as épocas. Não conhecemos nenhuma cultura que não se tenha perguntado que é o ser humano e de onde veio o mundo.”
O Mundo de Sofia

Essa dúvida universal que levou todos os povos a criarem mitos e religiões é mais uma prova de que o ser humano precisa de algo além do que encontra nesse mundo material, e que não há resposta para a lógica de tudo existir sem ser a de que tudo tem sua origem no Deus infinito. Não podemos negar a inexistência de algo além do mundo fenomênico.

Nós somos como um rio caudaloso que corre rapidamente por longos caminhos em busca de sempre existir e encontrar uma razão para isso (é o nosso anseio), até desaguarmos no mar. E na imensidão do oceano enxergamos que paramos no mesmo lugar, e que todos os caminhos levam à solidão das águas vastas, e que o que procuramos não está em nós ou aqui na Terra, na criação que se rebelou do bom Criador.
Blaise Pascal, filósofo iluminista disse que dentro do homem há um buraco tão grande que só pode ser preenchido por Deus. E por isso todos nós vivemos buscando por uma resposta, uma Razão, e para muitos é tão difícil encontrar! E nesse anseio e nessa consciência de um Deus Ele se revela, e espera ser reconhecido por nós. Ele nos ama e nos quer de volta, mas para isso nós devemos, é claro, nos arrepender do que fizemos e buscar retornar para seus braços.

Blaise Pascal (1623 - 1662), físico, matemático, filósofo e teólogo françês.

Os filósofos gregos só desenvolveram seus vários pensamentos porque decidiram abandonar todas as suas crenças e pensar como um recém-nascido, alguém que acabou de chegar á esse mundo, se surpreendendo e se perguntando sobre tudo, como quem nada conhecesse. Eles estavam procurando encontrar a verdade ao deixar de considerar tudo como coisas comuns. Nós nos acostumamos com tantas coisas que estas se tornam totalmente normais e não as questionamos. Como estamos presos aos nossos sentidos, só podemos explorar com eles.
Academia de Platão em mosaico romano

Eis que contarei algo que realmente aconteceu.Certa tarde, uma pessoa cristã, diante de uma magnífica vista de uma tarde de sol e nuvens de várias formas e cores, resolveu se por no lugar de alguém que de nada sabia e em nada cria. Essa pessoa viu o quanto coisas fantásticas ao redor dela, como aquela paisagem, tornaram-se tão comuns para ela. No dia a dia, vivia dando atenção apenas aos seus problemas e compromissos, até que tudo pareceu novo e estranho, como acontece ás vezes com a entonação de uma palavra que é repetida diversas vezes seguidas.

Então essa pessoa disse que nunca se descobriria o segredo do universo, o que é uma grande verdade. Podemos fazer descobertas científicas, mas a ciência nunca poderá descobrir o segredo de tudo. A natureza, o mundo, a “existência” são estarrecedoras e impressionantes por si mesmas, mas nos dias de hoje nem prestamos atenção nisso e só lembramos das facilidades da tecnologia e dos erros cometidos pelo homem no passado envolvendo religião.

“Tudo bem que a ciência mostra muito bem como uma nuvem se forma, mas isso ainda é impressionante – pensava essa pessoa – pois não se sabe por que (por qual razão) ela se forma”. “Por que o mundo é como é? Por quê tudo existe? Por quê vemos, sentimos, pensamos? Por quê?!”.

Aquela pessoa viu que alguém que em nada acredita, ou não acredita em Deus pensa de forma estranha, e concordou quando a Bíblia disse que todos em juízo são reconhecem a existência de um Criador. Seria desesperador como estar num frio cortante, pois como vê o mundo uma pessoa que não faz ideia da razão de ele existir e de tudo o mais á sua volta, tudo o mais de impressionante que há? “Existir”, “ser”, “haver”, necessitam de uma razão, uma causa, e as revelam por si mesmas, como uma pressuposição é comprovada por si mesma.

Ela percebeu que ninguém sabe de nada de fato e nada se prova, e muitos se lançam numa busca pela exploração da própria natureza exótica e surpreendente. O problema é que a maioria se lança numa busca sem fim, pois querem uma prova terrena, querem ver Deus, não são capazes de reconhecer as evidencias da existência d’Ele presentes no mundo á volta. Estes querem ser sábios segundo o mundo, pois só abrem a mente para o conhecimento do que tem em mãos, o que é bastante fútil para alguém que é corpo e alma.

De que adianta, pensou a pessoa, ter todo o conhecimento do mundo se não se é capaz de dizer o que de fato somos e o que é o universo? Como sabemos o que é algo cuja origem, causa e motivo são desconhecidos? Veja como há lógica em se reconhecer a Deus, e como se mostram perfeitas as palavras que vem diretamente da Bíblia (que por diversas razões que mais tarde serão apresentadas não pode ser considerada uma calúnia)! Como podemos existir por nenhuma razão?

Essa pessoa reconheceu a verdade por trás de tudo ao pensar como quem nada conhece. Mesmo tendo recebido uma educação cristã desde pequena, naquele momento ela passou pelo grande teste de sua vida, reconhecendo a Verdade por seu próprio senso, sua própria sabedoria. Ó, leitor! Abra os olhos enquanto há tempo! Não deixe passar a sua Chance, que é o tempo em que você habita este mundo.

“Penso, logo existo”, disse Descartes. A existência de Deus era para ele tão certa quanto a sua existência. E assim é sábio pensar. Tudo é certo demais para ter surgido por chance; a mão divina sempre rege tudo. O que seria tudo isso a nossa volta, e você mesmo leitor, sem que houvesse uma Razão, sem que houvesse o Pai, o Criador, que tudo fez com amor e bondade? Poeira sem razão para existir? E o “ser”? O que é “ser”, o que é “existir” de fato, sem Deus? O que é isso sem uma Razão? Como pode tudo isso existir sem razão, por um simples acaso, como uma bolha que aparece surpreendentemente flutuando e de repente estoura e só deixa o vazio?

"Ouve isto, Jó, pára,
e considera as maravilhas de Deus!
Sabes como Deus comanda as nuvens?
E como a sua nuvem lampeja o raio?
Sabes algo do equilíbrio das nuvens
prodígio de conhecimento consumado?"
Jó, capítulo 37, versículos 14-16.


IV
A existência de Deus

Devemos ter como princípio que tudo que existe pede uma causa e origem, assim como todo argumento deve ser justificado. Você já sabe que não somos capazes de imaginar o que seria o Nada, pois nem mesmo espaço havia para ser um abismo escuro. Por que, então, alguma coisa surgiria desse Vazio? Como algo que existe surge do nada sem uma causa? Esse pensamento óbvio, mas aparentemente confuso revela que existe Deus, o espírito do qual tudo veio, a causa e razão de todas as coisas que existem e acontecem.

Assim, a existência de Deus está inclusa na categoria dos princípios básicos, nas declarações não-justificadas, nas pressuposições que determinam todo o nosso conhecimento. É uma verdade por si mesma, como afirmava Descartes, que pode ser percebida por nós pelo nosso senso. A Bíblia não começa provando que Deus existe, ela já o apresenta como uma verdade admitida desde o primeiro versículo.
O teólogo Cornelius van Til disse, sabiamente:

“A única prova da existência de Deus é que sem Ele você não poderia provar nada”.

O pressuposicionalismo é o ramo da filosofia cristã que defende essa ideia de que Deus não pode ser provado, e que as pressuposições básicas do cristianismo são essenciais para que qualquer visão de mundo tenha validade.
Cornelius van Til foi o principal nome dessa corrente de pensamento. Leia o que ele disse:

Devemos destacar aos [nossos oponentes] que o próprio raciocínio [não-teísta] leva à autocontradição, não apenas a partir de um ponto de vista teísta, mas a partir de um ponto de vista não-teísta igualmente... É isso que queremos dizer quando dizemos que raciocinamos a partir da impossibilidade do contrário.

Perceba que foi dito “raciocinamos a partir da impossibilidade do contrário”. Se a existência ou não-existência de Deus não são provadas, sua existência se revela verdadeira pelo fato de que é autocontraditório não acreditar n’Ele. Nesse caso, o fato de a ciência não poder provar uma verdade é um grande sinalizador de que não há como rejeitar a ideia do Deus criador. E além do mais, ainda que a ciência prove uma teoria de surgimento do Universo, é claro que isso não significaria a verdade a respeito do que causou esse surgimento.

Muitas pessoas pensam que acreditar em Deus é rejeitar qualquer teoria científica, como se Deus fosse revelado inexistente se houver uma explicação científica para o surgimento das coisas. É importante notar que Deus é o causador, o criador de qualquer processo natural, de qualquer grande explosão que possa existir. Se houve um Big Bang, logo Deus o causou e criou o mundo a partir de seu poder controlando a natureza, e cuidando sabiamente para que tudo ocorresse daquela forma e resultasse nas coisas maravilhosas e perfeitas que encontramos na Terra e em todo o espaço. É como um princípio a ser memorizado: por lógica, se Deus existe, tudo o que acontece (seja milagroso ou obra da natureza) é resultado das obras de Deus. Tudo é como uma canção entoada por Ele, já que só Ele existia no princípio (trataremos disso na Carta 2). Aqui eu mostro que teorias científicas nada valem como argumentos contra isso, tanto que Albert Einstein acreditava em Deus. Acreditar simultaneamente em evolução, seleção natural e em que Deus tudo criou não é contraditório, pois de qualquer forma tudo aconteceu por obra de Deus, que está sobre e além desse mundo fenomênico.

Existem outros pensamentos além do pressuposicionalismo, como o argumento cosmológico, de que defende a necessidade de uma “primeira causa”, um “ponto de origem”, um “primeiro motor” e o argumento teleológico, que diz que a complexidade do Universo indica propósito, e apontam para a existência de um Criador. Mas vale lembrar que são argumentos, e não provas. Cabe ao coração (ao senso) de cada um compreender e aceitar ou não essas verdades.

Manuscrito de estudo de Leonardo da Vinci. A criação testemunha o Criador.

O argumento teleológico parece pouco observado atualmente, mas é um dos mais reveladores. O leitor já percebeu o quanto o mundo é bonito e complexo? O quanto a natureza é sábia e surpreendente? Como nós, seres humanos, existimos, e como tudo no mundo existe e busca viver? Nossa mente é como um rio que corre em busca de vida. Não há como isso ser algo que surgiu do nada, não há como acontecer. Nada pode vir do nada, sem que alguém poderoso que sempre existiu em sua perfeição não tivesse criado sabiamente o universo a partir de seu poder.

“Quantas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria! A terra está cheia dos seres que criaste”, Salmo 104.24.
“foi Deus quem fez a terra com o seu poder, firmou o mundo com a sua sabedoria e estendeu os céus com o seu entendimento”, Jeremias 10.12.
Monte Carmelo, um monte em Israel com vista para o Mediterrâneo.

O argumento cosmológico é favorecido pela ciência, quando esta busca uma origem para tudo. De fato não é lógico negar que tudo teve uma origem. Se buscarmos a origem científica, ainda assim teremos um vazio, que é a origem daquela origem científica, por exemplo: “O que causou o Big Bang?”. Uma origem leva a outra, uma justificativa pede outra, como uma sequência sem fim. Essa sequência só termina num único ponto: aquele que não tem princípio nem causa, ou seja, Deus. Nunca houve uma outra resposta. Na Carta 2 falarei sobre como tudo era no princípio, e a compreensão do que estou falando vai ser maior.

Já que tudo o que é material e não é eterno (está sujeito ao tempo) precisa de uma origem, o universo foi criado a partir de nenhuma substancia preexistente. Os cientistas dizem, que, no Big Bang, o Universo foi criado a partir do nada. Mas isso parece muito estranho, a não ser que reconheçamos a inegável origem de todas as coisas: Deus, aquele que tem poder de criar, dar vida, sempre existiu e está além de nós e sobre nós.

A Bíblia afirma que todos os seres humanos têm conhecimento de Deus, porque ele se revela à humanidade, embora alguns se recusem a reconhecê-lo. Lembre-se de que só conhecemos aquilo que nossos sentidos podem captar. Pois então, no cristão, seus sentidos o levam a uma pressuposição subjetiva (e não intelectual) que revela como indispensavelmente verdadeira a existência de Deus.

O Renascimento cultural foi marcado pelo antropocentrismo e pela busca da razão, mas isso não representou (ou não deveria ter representado) qualquer barreira a fé, mas sim uma revelação da maior evidência da existência do Criador: o homem. O homem é sua criação máxima, pois possui espírito, assim como Ele, e por esse motivo a Bíblia diz que fomos feito à imagem e semelhança d'Ele. Leonardo da Vinci, um magnífico cientista renascentista, que se destacou em várias áreas, estudou o corpo humano e notou sua complexidade, e descobriu proporções áureas no corpo. Não seria isso uma assinatura divina?

Estudo das proporções humanas feito por Leonardo da Vinci para o livro De Architectura, de Marco Vitruvio Pollione, 1492. Para da Vinci, o corpo humano segue as proporções geométricas. Para Galileu, a matemática é o alfabeto com o qual Deus escreveu o Universo.

Não posso convencer ninguém de que Deus existe apresentando argumentos infalíveis, pois uma pessoa não crê a partir da intelectualidade. O papel dessa carta, por exemplo, é apenas permitir através dessas filosofias que o leitor, por sua própria capacidade chegue a essa experiência subjetiva (obra do Espírito Santo), ou seja, chegue à fé, a partir do momento em que a existência de Deus se mostra clara e indispensável na sua consciência. Infelizmente nem todos estão destinados a reconhecer, embora todos sejam capazes disso.

Conclusão

Nossa mente está limitada ao que nossos sentidos podem capturar, estamos presos ao nosso corpo, tudo o que sabemos vem do que podemos adquirir. Nosso senso nos mostra que há dois “mundos”, sendo o nosso o limitado dos fenômenos, que está dentro de outro oculto a nós, o que muitos entendem por espírito.
Não se pode provar nada, nem que Deus existe ou não, nem mesmo o evolucionismo se prova assim. O mesmo acontece com todas as religiões. Tudo em que acreditamos vem de pressuposições. Nada se prova, “só sei que nada sei”, como dizia Sócrates.

Logo, a crença em Deus vem da fé, e esta surge a partir do senso comum de um Deus e de sua revelação na criação (principalmente em nós), e todos anseiam por uma razão de existir, e não podemos conceber a ideia de que tudo exista por nenhuma causa, ou tenha vindo do nada, e assim pensava Descartes ao dizer Cogito, ergo sum (Penso, logo existo).

Nosso senso interior tem noção de Deus; todas as culturas têm noção de Deus; o mundo surpreendente e misterioso que desafia sempre e ascende a curiosidade da ciência, e nós homens, somos as evidências que Deus nos deixa. Isso não pode provar, mas pode muito bem fazer reconhecer. A única resposta plausível encontrada até hoje para a solução do enigma de como tudo veio do nada é a de que Deus existe.

Tudo isso ainda não está muito claro na mente do leitor, até porque o leitor não deve conhecer muito desse Deus. Acontece que tudo o que foi tratado nessa carta fará mais sentido quando ler a próxima, e mais tarde as ideias serão assimiladas. Aliás, não é de uma hora para outra que Deus se revela na mente de alguém. O leitor precisa ainda saber mais, e pensar por si próprio.

Como disse Cornelius, embora Deus não seja provado, o senso no mostra que não há outra resposta para o enigma; sem Deus encontramos eterna contradição. A lógica de uma origem de tudo, além de nós e sobre nós, de uma Razão, a revelação pela criação, a noção de divindade, são estes os pensamentos que apontam para a existência de Deus.

Pois então, caro leitor, qual será mais sensato: aceitar ou não a existência de um Deus?
*

sábado, 9 de janeiro de 2010

A mensagem do filme "Avatar"

Um conselho á todos: assistam Avatar, de preferência nos cinemas, em 3D. Uma obra que traz uma grande mensagem, apropriada exatamente para o mundo de hoje, no começo dessa nova década.
Texto escrito por Renan P. B., meu irmão, postado neste blog por mim:

A mensagem de
AVATAR

O filme, de modo nada sutil, retrata a desolação que nosso planeta sofreu tanto ambientalmente (frases como "there is no green there anymore, they killed their mother") quanto mitologicamente/poeticamente/religiosamente.

[ATENÇÃO: SPOILER] Resuminho Preliminar: O protagonista, Jake Sully, é um ex-fuzileiro americano sem instrução que de repente é jogado no lugar de seu irmão gêmeo recentemente falecido, um cientista que estudava os nativos humanóides (Na'vi) em Pandora, uma das luas do planeta Polifemo. Jake Sully chega sem a menor credibilidade à equipe, sendo aceito simplesmente porque, por ser geneticamente idêntico ao irmão, é compatível com o avatar do mesmo. Avatares são híbridos humano-Na'vi geneticamente modificados criados no qual um humano é mentalmente ligado através de conexões neurais que permitem o controle do corpo do Avatar.
(1)Para se conectar com o avatar, o indivíduo precisa se deitar numa cápsula, fechar os olhos e esvaziar a mente. Curiosamente, essas cápsulas lembram muito caixões, esquifes mesmo. É uma alusão bem clara ao processo de "morrer para esta realidade e acordar para uma nova, mais real". Que, aliás, é exatamente o simbolismo de rituais como o batismo por exemplo, no qual a imersão do indivíduo na água é uma referência direta ao sepultamento da velha vida.
(2)Uma vez em Pandora (uma região de verde luxuriante, águas abundantes e paisagens majestosas, como que um verdadeiro paraíso original), ele se torna, aparentemente por acaso, o único de todos os humanos que até então haviam entrado em contato com os Na'vi que efetivamente foi aceito entre eles. Nas mitologias, o herói é frequentemente iniciado na sua aventura por um "acaso", que, posteriormente, se mostra não tão ao acaso assim). É o que veremos acontecer.

(3) Os próprios nomes dos personagens são sugestivos de temas mitológicos.
(a) “Avatar” é um termo originalmente indiano que designava as encarnações do deus Vishnu, realizadas de tempos em tempos na história da humanidade para realizar a sua redenção. Curiosamente, o avatar aqui é o inverso; ela envia encarnações dos seres humanos para um povo superior na sua ligação com a natureza e com a Divindade, e são os humanos que se restauram, e não o povo Na’vi. A semelhança de cor na pintura indiana abaixo será coincidência?
(b) Pandora nos relembra a lenda de Prometeu e Pandora. Pandora foi a primeira mulher na mitologia grega, cuja curiosidade trouxe males incontáveis para a humanidade. A única coisa que ela preservou ao fechar a caixa antes do total esvaziamento foi a Esperança. Do mesmo modo, Pandora é uma ilha cuja descoberta traz uma série de conflitos, mortes, discórdia e guerras, mas no fundo, se revela uma esperança para uma humanidade decadente e corrompida.
(c) Polifemo, o nome do planeta, é uma referência ao ciclope da Odisséia. Esse monstro cruel, grosseiro e desconhecedor dos deuses é visto por alguns como um ego-myth, um mito que retrata a derrota do Ego, um dos temas do próprio filme. Além disso, Polifemo é o nome de um herói grego dos tempos antigos, antes da decadência da humanidade: um tempo em que os seres humanos eram mais perfeitos e derrotaram um povo selvagem das montanhas. Curiosamente, o que ocorre em Avatar é o contrário: um povo selvagem humanóide derrota uma humanidade decadente.
(d) Grace Augustine é o nome da bióloga que atua como professora de inglês aos Na’vi. É a que mais despreza, inicialmente, a pouca instrução de Jake Sully. Como mulher de ciência, o grande interesse e respeito que nutre pelos Na’vi não é suficiente para que ela seja aceita por eles: a sua visão cientificista das coisas impede que ela adentre nos mistérios mais profundos. Como diz a xamã dos Na’vi: “é difícil encher um copo que já está cheio”.
Por toda a história, ela sonha em capturar amostras da Árvore Sagrada, o ponto máximo de comunicação da Divindade (Eywa) com o povo Na’vi. Ela quer amostras porque está interessada na neuroquímica surpreendente das árvores de Pandora: árvores que se comunicam umas com as outras como se fossem neurônios. Ela sabe que há algo extraordinário acerca dessa Divindade dos Na’vi que se manifesta na Árvore e em sua rede, mas mantém uma visão materialista sobre o mesmo, no princípio. Ela chega a dizer: “eu morreria para conseguir algumas amostras dessa Árvore”. Curiosamente, quando é carregada, moribunda, para os pés da Árvore, para ser curada pela energia de Eywa, ela ainda é capaz de murmurar: “preciso pegar umas amostras”. Contudo, o que ocorre é algo bem diferente: as raízes da árvore se conectam a seu corpo moribundo, formando uma figura verdadeiramente placentária (com direito a cordão umbilical), e ela, numa fácies de êxtase, diz, pouco antes de morrer: “eu posso vê-la, Jack, ela é real!”. Já não são mais amostras: ela vê sua vida como parte de Eywa e pouco depois de junta efetivamente a ela. Grace é o nome inglês para graça, uma palavra que denota a salvação gratuita de Deus para a humanidade. Grace, a princípio cientificista e pouco misericordiosa, julgando as pessoas por sua erudição, acaba conhecendo a revelação e sendo um alvo da graça divina. A referência a St. Agostinho de Hipona eu nem vou comentar...
(e) Jake Sully, o protagonista, é uma pessoa sem instrução, paraplégica e pobre. Contudo, contra todas as expectativas, acaba sendo o Escolhido para se tornar parte dos Na’vi e o primeiro a se apaixonar pela nova realidade. Justamente por não ter formação científica, não estar contaminado pelo cientificismo, pela visão de que a ciência é um padrão máximo de verdade, em detrimento das outras tradições humanas, ele está receptivo, ainda que inconscientemente, para a transformação. “Eu sou um copo vazio, não sou cientista, sou um milico”, diz ele em um momento. Sua pouca instrução, sua deficiência física e sua condição financeira baixa contribuem para que ele seja uma pessoa sem floreios, sem soberba e sem hipocrisia.
Ainda assim, ele é mais um indivíduo não-iluminado da sociedade do século XXII. Ao chegar em Pandora, entra logo em apuros, desequilibra o ambiente da floresta à sua volta, levando à morte de alguns animais, e ele mesmo quase morre várias vezes. A nativa que o encontra, Neytiri, resume bem a condição de Jake Sully: “você tem um coração bravo e forte... mas estúpido, ignorante como uma criança”. O próprio sobrenome do herói, Sully, é uma referência a seu estado inicial: em inglês, “sully” significa “manchado, poluído”.
(4) No começo, Neytiri quis matar Jake. Contudo, uma semente da Àrvore Sagrada que apareceu no momento do disparo da flecha foi interpretado por ela como um sinal, e Jake foi poupado. Novamente, o que parecia um acaso se revelará posteriomente como propósito. Depois, os próprios animais ferozes da selva atacaram Jake, mas Neityri apareceu para salvá-lo. Na linguagem mitológica, a floresta é a Realidade, que aparece como algo oculto, obscuro e hostil aos olhos cegos do herói que ainda não foi iluminado, em grande parte por causa das ações ignorantes do próprio herói. Entretanto, nos mitos, a própria Realidade se encarrega de protegê-lo de si mesmo. É o caso. Ele está sendo chamado.
(5) Num segundo estágio, Jake segue Neytiri pela floresta. Esta pede que ele vá embora, irritada. Ela fica furiosa pelo fato de ele ter feito com que ela se visse forçada a matar cães selvagens que ele tinha atraído para si. Ele não entende o grande problema em matar cães numa floresta, e muito menos quando ela diz que a culpa foi toda dele, por mais que ele é que fosse o atacado. “Calma, ensine-me então”, diz ele. “Não se pode ensinar alguém a ver”, responde ela.
Essa frase é exatamente o que dizem os místicos de todas as religiões. Ela expressa três verdades religiosas. (1) Encontrar Deus, ser iluminado, nascer de novo não é questão de raciocinar bem, mas de ver. È uma percepção; é questão de sensibilidade. (2) Contudo, não é mera emoção ou sentimento: é conhecimento também, é cognição assim como enxergar o que está à minha volta é conhecer o ambiente ao meu redor. (3) Assim como na visão, a experiência religiosa é pessoal, intransferível, precisa ser realizada pelo próprio indivíduo. Você tem que trilhar o caminho. Você tem que nascer de novo. Você tem que abrir os olhos. Não é por argumentos e palavras que a religião mostra sua credibilidade: palavras não são visão. Elas no máximo impelem você a movimentar suas pálpebras. A única função dos textos sacros é essa. Vale lembrar, ainda, que a ação de ver não é apenas para a Divindade em si, mas para a divindade presente nos seres todos: o cumprimento dos Na’vi é dizer: “Eu Vejo você”.
(6) Num terceiro estágio, Jake é envolvido por várias sementes da Árvore Sagrada, espíritos muito puros de Eywa. Neytiri fica boquiaberta com aquilo. Como um ignorante poderia atrair os espíritos mais puros? Nesse momento, ela percebe que ele tem um chamado. “Venha comigo” substitui as tentativas de expulsá-lo.
A visão é uma das palavras-chave do filme, portanto.
(7) Uma vez na tribo, a xamã o examina, designa Neytiri para iniciar Jake nos princípios e na vida dos Na’vi, e diz a ele de modo severo: “Vamos ver se sua insanidade pode ser curada”. Mais uma referência à noção religiosa de que aquele que se aliena em relação à Divindade, e, conseqüentemente, a si mesmo, é um louco. Se existe loucura, é não ver Deus. Se existe loucura, é o estado da mente que não percebe o Ser supremo, Deus, Brahman, Tao, Uno, a própria Realidade, e, mais ainda a rejeita. Excertos da Escritura me vieram à cabeça: “Diz o tolo no seu coração: Não há Deus”. “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos”.
(8) Jake aprende a conhecer a si mesmo no processo de aprender sobre os Na’vi. Neytiri o leva a exercitar todos os seus sentidos do modo mais preciso: “os menores odores e sons”. Ele precisa sentir a si mesmo antes de fazer suas ações, como, por exemplo, pular graciosamente, e sem grandes impactos, de uma grande árvore na floresta sem ver o chão. Ele precisa sentir a floresta, sentir que as coisas não são separadas como pensava, mas um todo orgânico. As árvores estão interconectadas, formam um verdadeiro Cérebro. Todos os seres são portadores transitórios da energia de Eywa. Todos são irmãos, todos são peregrinos passageiros pela terra. Existe um ciclo, e existe um vínculo entre todos os seres, e, terceiro, existe um fluxo de energia entre todos. Todos vem e voltam para Eywa.
(9) Na caça, antes de dar o golpe de misericórdia, Jake é ensinado a sempre dizer: “Eu ouço você, meu irmão, e te agradeço. Seu espírito irá para Eywa. Seu corpo permanecerá para se tornar parte do Povo”. Esta é uma referência bonita à mitologia dos povos das florestas, uma das mitologias mais antigas da humanidade. Quando ainda vivíamos da caça e da coleta, a mitologia das florestas era a nossa mitologia, e é exatamente esse ritual que fazíamos. Tribos das ilhas selvosas do Sudeste asiático ainda praticam esse mesmo ritual de agradecer ao animal morto na caça, de reconhecer nele parte do fluxo da Vida e desejar que sua morte não seja em vão, mas sim um modo de transferir Vida para o caçador e sua tribo, mantendo o equilíbrio da floresta. A mitologia judaico-cristã é uma mitologia totalmente diferente, dos povos agrícolas. Mas, como sempre, expressando os mesmos princípios, no fundo.

(4) A viagem do herói mitológico é exterior, cheia de aventuras, mas há muito mais transformação no seu interior. Vide o Monomito, de Joseph Campbell, no qual ele traça uma série de estágios pelos quais passa o herói em sua jornada ao longo da maioria dos mitos: http://en.wikipedia.org/wiki/Monomyth
(5) Outro modo bonito de o filme expressar essa união entre o homem e a natureza à sua volta, entre o homem e a realidade efetiva, entre o homem e a essência das coisas, ao invés da aparência, é a “ligação”, a conexão que se faz entre o montador e o ikran, uma criatura alada que serve de meio de transporte para os guerreiros. A ligação se faz entre a “antena” do ikran e a ponta do cabelo do avatar de Jake. Não é bem uma porta USB, são pequenos tentáculos que se enrolam, mas o efeito é muito interessante. Ocorre uma real conexão entre ambos, as pupilas se dilatam, e você consegue sentir o animal. Sentir seu coração, sua respiração, sua força, e direcionar o pensamento do mesmo.
(6) Ainda mais interessante é o processo de escolha do ikran. Cada ikran aceita apenas um guerreiro. Essa escolha precisa ser feita com a sensibilidade do guerreiro, que precisa escolher o ikran correto (e só tem uma chance para isso); o ikran, por sua vez, precisa escolher o guerreiro em contrapartida. E a escolha que ele faz é curiosa: “Como sei que ele me escolheu?”, pergunta Jake. “Ele vai tentar matar você”, responde Neytiri. É um processo de luta física, até que o guerreiro consiga fazer a “ligação”. Isso me lembrou fortemente as inumeráveis lendas de lutas entre heróis e monstros das mitologias, sejam eles dragões, baleias, leões, touros, serpentes, etc. Lembro-me particularmente de Siegfried, na mitologia germânica, que, ao derrotar o monstro, prova o sangue do mesmo e passa a ouvir o Canto da natureza, a sentir aquilo que não era capaz de sentir à sua volta. Os monstros da mitologia são, muitas vezes, símbolos da separação final da falsa realidade e um novo nascimento. Alguns mitos colocam o herói como sendo devorado pelo monstro e, ao sair do ventre do mesmo, já está transformado. Exemplo bem conhecido: Jonas.
(7) E esse novo nascimento de fato ocorreu. Pouco depois, no filme, Jake Sully diz: “tudo parece invertido agora: como se lá [Pandora] fosse o mundo verdadeiro, e aqui apenas um sonho”. É exatamente por isso que passa o herói mitológico e todo religioso autêntico.
(8) O processo de oficialização da aceitação de Jake no povo Na’vi é bonita: forma-se uma rede de pessoas com Jake no centro, simbolizando novamente a unidade orgânica entre os indivíduos. A mensagem é: você, no fundo, não é você, não é algo separado dos outros. Você é mais uma manifestação de Eywa. Todos somos iguais, somos irmãos, interagindo sob a energia de Eywa para o equilíbrio da vida.
(9) Os soldados que invadem Pandora para matar e expulsar os nativos representam a visão cega do materialista, do indivíduo apegado às aparências e ao valor material das coisas: eles querem o minério. Os selvagens são ignorantes que não aprendem nada e não querem os progressos, são “macacos azuis”. Ironicamente, são os Na’vi que vêem os humanos como ignorantes, cegos e indispostos a aprender. Os soldados escarnecem e desprezam a divindade deles. Quando Grace tenta explicar, mesmo que numa base ainda científica, o valor da floresta e dos Na’vi, o único resultado foi a pergunta: “O que vocês estão fumando lá?”. Curiosamente, é o que ouço todo dia aqui na comunidade. Quando eu estava tentando expressar um pouco da experiência religiosa, a resposta que recebi foi: “ou seja, uma pira”. Outra vez, me disseram que isso que tenho é um delírio. E sempre parecerá assim para quem não tiver experimentado, não tiver visto, e, portanto, não tiver conhecimento.
(10) A pergunta que fica é a que faz o general a ele: “Como você se sente por trair sua própria raça? Você acha que é um deles, né? É hora de acordar!”. Jake não responde à pergunta. O filme não responde à pergunta. Mas a mensagem clara é que quem precisa acordar é o general. Quem precisa acordar somos nós, os humanos, e não os Na’vi. Eles podem não ter cimento, não ter sequer ruas, podem não ter simpósios científicos, mas eles têm algo que faz com que nossa sociedade, com toda a sua tecnologia avançada, pareça ser um mero sonho se comparada com Pandora. Eles têm a essência da vida, que é o encontro real, a morte e o renascimento, com a Divindade, com a Realidade Suprema criadora de tudo, origem de tudo, propósito de tudo. Uma contemplação direta daquilo que realmente importa, aquilo que é tudo em todos, por quem, para quem e de quem tudo surgiu, surge, e vive. Daquilo que é a beleza dentro de todas as coisas. Eles exercem sua espiritualidade, essa faceta humana tão essencial, e, curiosamente, tão obscurecida nos últimos séculos. Eles exercem, conseqüentemente, também um equilíbrio com o ambiente à sua volta, e entre si. Eles não adotam o individualismo, não reconhecem separação real entre os seres. Somos todos um, e isso não é metáfora para eles. Como diz C.S.Lewis, ser religioso é ser humano no sentido mais pleno da palavra. Quem será que é mais humano: os Na’vi ou os soldados e empresários que infestam Pandora? Ser religioso é ser humano no sentido mais pleno, é largar a insanidade e adotar a sanidade, largar a cegueira e adotar a visão.
O filme é, enfim, muito bom. Algo raro para Hollywood, mas neste caso de fato a religião, a mitologia e o próprio espírito das culturas selvagens não foram somente abordados, mas também abordados corretamente, sem desfigurar sua essência, sem caricaturizar a cultura alheia. A humanidade precisa voltar a suas origens. Mais ainda, precisa voltar a si. Precisa de nova mitologia. Precisa de nova religiosidade. Caso contrário continuaremos a ser um deserto, uma waste land, como diz o poema de T.S.Eliot, meu poeta predileto na hora de lamentar a perda de nossa tradição mitológico-religioso-poética.
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E também é um convite à voltarmos à nossa própria mente, a largarmos a camisa-de-força do pensamento meramente silogístico e vivenciar o conhecimento como um todo. Como diz o grande Fernando Pessoa:

"O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo..."

"Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar..."

"Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."

"Porque a única riqueza é ver"

"A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas."

           Voltemos às sensações, às sinestesias, às intuições, à mente toda!
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Introdução às Cartas

Introdução ás Cartas

Leitor, seja quem for você, estas Cartas servirão para lhe apresentar uma visão profunda que busca se desvencilhar de qualquer equívoco ou preconceito, para apresentá-lo uma visão nova, e para preparar o caminho para que quem leia possa chegar á Deus, ou seja, para que o leitor possa chegar aquilo que chamo de cristianismo primordial, livre das interferências humanas.

Muitas pessoas, por terem seu caminho muito difícil de ser trilhado, morreram sem resposta ou sem poder ouvir a verdade. Esse caminho é dificultado muitas vezes pelas ideias erradas que se tem da crença em Deus, da ignorância a respeito desse Deus de que tanto se fala. A melhor coisa é ouvir e pensar como alguém que de nada sabe, seguindo um caminho diferente de pensamento.
A razão e o pensamento filosófico são exaltados. Poderiam eles levar-nos ao reconhecimento de Deus como o Logos?
Considere essas Cartas uma chance rara de descobrir algo maravilhoso. Imagine quantas pessoas já foram enganadas ao longo da História por falsos profetas e religiões que buscavam subjugar povos. Eu pergunto: quantas pessoas encontraram alguém que escrevesse textos para livrá-las das ideias erradas que foram sendo relacionadas á religião ao longo do tempo, e também livrá-las da ideia de que “para se pensar livremente deve-se rejeitar a existência de Deus e/ou a religião”?.

Procuro á todo momento usar o bom senso e a lógica, e essas Cartas se baseiam justamente nisso. Mostrarei o que há de diferente na crença cristã das outras crenças criadas ao longo dos tempos. Procurarei, principalmente no começo, a usar a filosofia para revelar a lógica cristã. Essas Cartas servem para apresentar uma visão do cristianismo que poucos tem, mostrá-lo mais próximo do primordial, em sua pureza e simplicidade, livre das interferências humanas.

Aliás, o objetivo dessas Cartas não é oferecer ao leitor uma religião, mas sim uma fé, o conhecimento da verdade, para que possa, pelo seu próprio senso, ter fé na Palavra de Deus. Religião é segregação, e não era religião que Jesus pregava, mas o entendimento da Verdade.
Jesus Cristo proferindo o Sermão do Monte.

Mostrarei que ser crente na Palavra não significa não saber pensar, e crer não é rejeitar a crítica e a nossa inteligência, pois eu mesmo, com a minha análise do mundo e da filosofia, reconheci Deus e sua Palavra.

Descobri que muitas pessoas têm uma visão extremamente errada a respeito dessa religião, e claramente percebi que isso vem dos erros cometidos por nós ao longo do tempo, ofuscando o que há de verdadeiro. A própria existência de religiões não é coisa boa, pois gera divisão; o que busco é a fé na Palavra de Deus.

Com a atratividade da ciência e a atração natural que tempos pelo material, muitos acreditam que Deus é uma invenção que trouxe ao mundo muito atraso, e dizem o mesmo da Bíblia. E realmente isso vem de conclusões muito equivocadas, e tenho como dever mostrar para quem dá ouvidos o que há de verdadeiro e falso nisso. Vou mostrar que Deus não é uma invenção, mas algo para muitos inegável, e justifico por quê o Deus cristão não é como um deus qualquer inventado por brincadeira, e é por isso que seu nome se escreve com letra maiúscula.
"Os segredos das Escrituras se revelam no silêncio e na tranquilidade"; "É preciso ler com humildade (...) sem pretender fazer ciência" Imitação de Cristo, do monge Tomás de Kempis.

Mas por quê e para quê ler as Cartas? O imperador romano Marco Aurélio, conhecido por “imperador-filósofo” nos esclarece:

“O tempo da vida humana: um ponto. Sua substância: um fluxo. Suas sensações: trevas. Todo o seu corpo: corrupção. Sua alma: um remoinho. Sua sorte: um enigma. Seu renome: uma cega opinião. Resumindo, tudo, em sua matéria: precariedade. Em seu espírito: sonho e fumaça. Sua existência: uma guerra, a etapa de uma viagem. Sua glória póstuma: esquecimento. Que nos pode então servir de guia? A filosofia, apenas isso.”


Meditações
Marco Aurélio (121 - 180 d.C.)

Assim, a filosofia, ou seja, o exercício de pensar filosoficamente é o caminho mais útil para nós, sem dúvida alguma, de alcançar a sabedoria e o entendimento de nós mesmos. Nos tempos atuais, cheios de modernidade atraente, as pessoas estão cada vez mais obcecadas por aquilo que as rodeia e enxergam apenas o concreto.

Por mais que a matemática seja universal e esteja presente em toda a natureza, embora a história e suas ciências irmãs sejam de extrema importância para todo o mundo, etc, aprender a pensar é o que mais vale. Todos nós bem sabemos que o homem passa como uma sombra por esse mundo. De que vale, então, ter toda a sabedoria daquilo que sabemos que é efêmero, vivendo sem uma resposta para o enigma da existência?

Na escola, Sofia tinha dificuldade de se concentrar no que o professor falava. De uma hora para outra, começou a achar que ele só falava de coisas que não eram importantes. Por que ele não falava sobre o que é um ser humano, ou então sobre o que é o mundo ou de onde ele tinha surgido?


Ela sentia uma coisa que nunca tinha sentido antes: na escola, e também por toda a parte, as pessoas só se preocupavam com trivialidades. Mas havia questões maiores, mais graves, cujas respostas eram mais importantes do que as matérias normais da escola.


Alguém teria respostas para elas? De qualquer forma, Sofia achava mais importante refletir sobre elas do que quebrar a cabeça decorando verbos irregulares.”

O Mundo de Sofia – Romance da história da filosofia, de Jostein Gaarder.

Como alguém pode viver assim? Sabemos que antes de existir a ciência, os povos criavam mitos e religiões, mas hoje há pessoas que vivem sem resposta. Ao contrário do que muitos pensam, a religião cristã não é mito, e é mais do que uma religião. As religiões são condenadas e apontadas como as causadoras de vários problemas á sociedade. Porém, essa divisão ocorreu por iniciativa do homem, já que o cristianismo primordial, por exemplo, é apenas fé e filosofia de vida, e não segregação, definição de costumes e criação de preconceitos. Jesus era um pensador, e não um papa.

Através dessas Cartas quero mostrar ao leitor como o verdadeiro cristianismo pode ser encontrado através do exercício do pensamento. Até mesmo por meio de pensamentos não-cristãos podemos encontrar o que aponta para a verdade cristã.
A filosofia pode ser um auxílio à fé no mundo de hoje, onde há tanta dúvida. Atenas e Jerusalém: a cidade da Razão e a cidade das Religiões poderiam se unir?

O reinado de Marco Aurélio coincidiu com o apogeu do Império Romano, na chamada “Era dos cinco bons imperadores”, da qual ele foi o último, quando se estabeleceu a Pax Romana (Paz Romana). Naquele tempo o império vivia em opulência, ou seja, o homem romano estava com as suas principais necessidades saciadas. Estaria ele completamente feliz? O imperador, um dos poucos que eram equilibrados, mostrou grande preocupação com a morte e pela filosofia procurou entender a vida e encontrar a felicidade. Ele poderia ter aproveitado todos os prazeres e abusado do seu poder para fazer o que quisesse, mas assim acabaria infeliz e medíocre, como muitos outros (lembra-se de Nero?). Isso nos mostra como nada nesse mundo pode satisfazer o homem, que precisa de algo maior, de modo que o imperador não negava a crença nos deuses greco-romanos.

O homem anseia por uma divindade. Não seria isso um sinal de que a verdade é algo além desse mundo efêmero, desse universo que sozinho é sem sentido? Mostra-nos que há algo maior, que dá razão a nossa existência? E só a filosofia, como dizia Marco Aurélio, poderia ser nossa guia pela busca da razão, e como dizia o grego Epicuro, da época helenística, a filosofia deve ser praticada por todos e traz a saúde espiritual.

Epicuro (341- 271 a. C.)

Johann Wolfgang von Goethe mostra como vivem aqueles que estão alienados à si mesmos e ao universo:

Quem, de três milênios,


Não é capaz de se dar conta


Vive na ignorância, na sombra


Á mercê dos dias, do tempo.
Goethe (1749 - 1832 ), autor de Fausto

Essas Cartas são direcionadas á todos, cristãos e não-cristãos, pois dos dois lados há o que aprender e há equívocos a serem retirados. Tanto cristãos quanto não-cristãos foram responsáveis por moldar as nossas visões de mundo ao longo da história, e ambos transformaram como vemos o cristianismo, ou melhor, como vemos a verdade e a fé na Palavra de Deus.

O Autor, Gabriel P. B.